Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

Bolsonaro usa informação falsa ao criticar plano de governo do PT

Candidato usou documento com teses internas de vertentes do partido para dizer que Haddad quer desmilitarizar polícias e revogar Lei da Anistia

Checagem
5 de outubro de 2018
17:09
Este artigo tem mais de 8 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Em transmissão ao vivo no Facebook, no dia 2 de outubro, Jair Bolsonaro (PSL) fez afirmação falsa sobre plano de governo de PT
Em transmissão ao vivo no Facebook, no dia 2 de outubro, Jair Bolsonaro (PSL) fez afirmação falsa sobre plano de governo de PT

“Propostas do [plano de governo] PT, algumas apenas: desmilitarização das polícias, militares obviamente […] Outro item: revogação da Lei de Anistia.” – Jair Bolsonaro (PSL), em transmissão ao vivo no Facebook.

Falso

Em transmissão ao vivo em sua página do Facebook, no dia 2 de outubro, o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) criticou algumas propostas que disse constarem no plano de governo do PT, como a desmilitarização das polícias e a revogação da Lei de Anistia. No vídeo, o candidato cita o documento Caderno de Teses – Resgatar o petismo no PT como se fosse o programa de Fernando Haddad (PT). Na verdade, trata-se de uma das sete teses apresentadas no 5º Congresso Nacional do PT, em 2015, pelas tendências que compõem o partido. Cada uma delas fez diferentes propostas para o país, mas essas ideias não representam a posição oficial da legenda. O Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública – classificou a declaração como falsa.

A assessoria de imprensa do candidato não respondeu sobre a fonte usada. No documento Caderno de Teses – Resgatar o petismo no PT, a tendência chamada Diálogo e Ação Petista propôs a revogação da Lei da Anistia e a desmilitarização das polícias. Além dela, mais duas vertentes – a Direção Nacional da Articulação de Esquerda e a Chapa Militância Socialista – colocaram a desmilitarização das polícias como pauta a ser cumprida em seus próprios Cadernos de Teses. Essas e outras ideias foram apresentadas no Congresso. O partido votou cada resolução e o que foi aprovado entrou em um documento final.

O documento final do Congresso do PT em 2015 incorporou a pauta da desmilitarização e trata da responsabilização dos militares por crimes cometidos durante a ditadura, mas não fala de revogação da Lei da Anistia. Além disso, tal documento não tem qualquer relação com as propostas oficiais na campanha de 2018.

No plano de governo do PT, não há propostas para desmilitarizar as polícias militares e estaduais. O que consta na diretriz enviada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a questão é o seguinte: “É preciso também avançar no debate sobre a militarização das polícias, assegurando democratização, representação civil e processos internos mais justos, além da valorização do profissional da segurança e do fortalecimento da polícia científica”. Em relação à Lei de Anistia, promete implementar as recomendações da Comissão Nacional da Verdade, que não propõe a revogação dessa lei, criada em 28 de agosto de 1979.

As teses utilizadas como fonte pelo candidato não representam propostas de governo do PT. No final do Congresso em 2015, o Partido dos Trabalhadores divulgou a Carta de Salvador em que mostra as resoluções aprovadas por todo o partido. Foi incorporada, naquele ano, a desmilitarização das polícias e as conclusões presentes no relatório final da Comissão Nacional da Verdade que orientam a extinção da Justiça Militar, o reconhecimento pelas Forças Armadas de sua responsabilidade institucional pela ocorrência de graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar e a proibição da realização de atos oficiais em comemoração ao golpe militar de 1964, entre outras medidas.

No ano passado, em Brasília, aconteceu o 6º Congresso do PT. As resoluções aprovadas pelo partido, quanto aos temas citados por Jair Bolsonaro, não mudaram. A desmilitarização das PMs e as recomendações da Comissão Nacional da Verdade foram incluídas no documento.

Além de isentar os militares de responsabilizações, a Lei de Anistia também dispõe sobre o restabelecimento dos direitos políticos e sobre a volta ao serviço de militares e funcionários da administração pública que foram excluídos de suas funções durante a ditadura, entre outras providências. Sua revogação não é mencionada na Carta de Salvador, nem pela Comissão Nacional da Verdade.

O relatório final do Congresso do PT em 2015 reivindica que os agentes públicos sejam responsabilizados juridicamente (nas esferas criminal, civil e administrativa) pelas violações de direitos humanos ocorridas no período. Dessa forma, a proposta poderia ser considerada como uma revogação parcial, embora isso não seja dito explicitamente. E tal proposição não consta no plano de governo do PT em 2018, ao contrário do que afirma Bolsonaro. A assessoria da campanha de Fernando Haddad não respondeu sobre questionamentos feitos pela reportagem até o momento da publicação.

Reprodução

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia também

Fernando Haddad (PT) no evento Diálogos da União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços (Unecs) com os candidatos à presidência, em agosto: levantamento mostrou empate técnico com Bolsonaro

Campanha de Haddad tira conclusão falsa sobre pesquisa

|

Postagem no Instagram diz que candidato vence Bolsonaro no 2º turno, mas os dois aparecem tecnicamente empatados no Ibope de 3 de outubro

Economistas ligados aos candidatos à Presidência: Paulo Guedes, Guilherme Mello, Mauro Benevides, Pérsio Arida e Eduardo Giannetti (da esq. para a dir.)

Checamos os economistas dos 5 principais candidatos

|

Veja o que é verdadeiro, discutível, exagerado, falso ou impossível de provar em 10 frases de Paulo Guedes, Guilherme Mello, Mauro Benevides, Pérsio Arida e Eduardo Giannetti

Notas mais recentes

Aposta online: 12 dos 17 parlamentares da Bancada das Bets seguem mais 4 anos no Congresso


Recordar é votar: 7 dos 13 investigados pela CPI da Covid saem eleitos das urnas


Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011


iFood passa R$ 3 milhões para pesquisa científica após acordo para encerrar inquéritos


Últimas pesquisas e fim da propaganda eleitoral marcam semana antes do primeiro turno


Leia também

Campanha de Haddad tira conclusão falsa sobre pesquisa


Checamos os economistas dos 5 principais candidatos


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Vânia Borges do Amaral e presidente Lula

O tempo das bets e a hora da luta: a perda familiar que não está em jogo no STF

|

Mãe que perdeu filho para bets fala de emoção por MP que proíbe apostas no Brasil na véspera da suspensão de plataformas
Brasília (DF), 04/10/2026 - Pessoas chegam para votação das Eleições 2026 na Unieuro

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

|

O 1º turno puniu apenas parte dos políticos ligados a Vorcaro, poupou outros e deixou Flávio Bolsonaro para o 2º turno
Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.

Virada de Flávio no 1º turno: escândalos podem ter favorecido desejo antissistema

|

Para especialistas, campanha nas redes, voto útil e governo Lula sem apelo renovado também colaboraram para resultado

Quando o trabalho impede o voto

|

De longas jornadas a quem decide fazer hora extra, trabalhadores estão entre os milhões que ficam sem votar
Imagem feita com auxílio de IA mostra o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o cartaz do Filme Dark Horse

Why a Bolsonaro biopic is at the center of Brazil’s presidential election

|

A Hollywood-style film about Jair Bolsonaro is wrapped up in Brazil’s biggest bank fraud probe

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição
O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos