Buscar
Nota

Lula e Trump miram terras raras e evitam tensões em encontro pragmático, dizem analistas

8 de maio de 2026
17:18

O encontro de cerca de três horas entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva na Casa Branca, nesta quinta-feira, 7 de maio, demonstrou que apesar dos ‘altos e baixos’ na relação entre os líderes, os dois países buscam “administrar tensões” diante de interesses de cada lado. “O encontro não representa um alinhamento pleno, mas uma tentativa de administrar tensões”, avalia o coordenador do Curso de Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Alexandre Coelho.  

“O encontro entre Lula e Donald Trump representa uma tentativa de estabilização pragmática das relações entre Brasil e Estados Unidos. Mais do que uma aproximação ideológica, a reunião sinaliza o esforço dos dois governos para manter canais diplomáticos abertos em meio a divergências políticas, comerciais e estratégicas”, afirma.

Essa foi a terceira vez que o presidente Lula encontra-se com Trump em seu terceiro mandato. A primeira ocorreu em setembro de 2025, na 80ª Assembleia Geral da ONU, quando Trump surpreendeu o mundo ao elogiar Lula durante seu discurso. Um mês depois, eles voltaram a se encontrar na capital da Malásia, Kuala Lumpur. A reunião durou cerca de 40 minutos e se deu nos bastidores de um evento da Associação das Nações do Sudeste Asiático, em meio a negociações para a redução de tarifas comerciais a produtos brasileiros impostas por Trump. Também nessa ocasião, Trump elogiou “a trajetória política” do brasileiro.   

Já no encontro desta semana, outros temas parecem ter sido discutidos numa reunião sem a presença da imprensa. Segundo André Araújo, professor de Política e Relações Internacionais, o objetivo da diplomacia brasileira era “afirmar o peso do Brasil no sistema internacional, visando ampliar sua autonomia, ou seja, garantir sua agenda junto aos Estados Unidos”. “Desse modo, mantém-se uma relação que é próxima, mas sem haver a dominação de um sobre o outro, visando consolidar um grau de igualdade entre as partes”, acrescenta Araújo. 

Com a longa duração da reunião, três horas, Lula conseguiu escapar da coletiva em conjunto com Trump. O presidente brasileiro também conseguiu evitar a presença de jornalistas e fotógrafos durante a conversa. Com isso, a divulgação dos diálogos acabou ficando para as falas do próprio Lula, após a reunião, e repercutiu positivamente tanto internamente como no exterior.   

Na leitura da professora de Política e Relações Internacionais Ana Carolina Marson, o clima que se seguiu no pós-encontro foi uma “construção deliberada de positividade”. “A manifestação pública do lado estadunidense e o otimismo cauteloso da delegação brasileira sugerem esforços coordenados para sinalizar avanços, ainda que sem compromissos concretos imediatos”, diz.

Marson ainda ressalta que mesmo tendo construído um “ambiente tático favorável”, a reunião só terá valido realmente a pena diante da “capacidade de ambas as partes de converter gestos políticos em resultados institucionais mensuráveis — um teste que recai, sobretudo, sobre os mecanismos de acompanhamento técnico e os prazos para negociações futuras”.

Economia supera discursos ideológicos

Essa visão pragmática adotada pelos dois presidentes é explicada, de acordo com Alexandre Coelho, pela prioridade em focar em seus próprios interesses econômicos. 

Na análise do professor, “para os Estados Unidos, o Brasil continua sendo um parceiro relevante na América Latina, tanto por seu peso econômico e territorial quanto por sua importância em temas como minerais críticos, segurança regional, energia, cadeias produtivas”. Ele ainda chama atenção para o fato que, nesse cenário, os norte-americanos enxergam a China, outro parceiro comercial estratégico para o governo, como um competidor pelos recursos brasileiros. 

“Nesse contexto, o desafio brasileiro é negociar com Washington sem comprometer sua política externa independente e sua relação com outros parceiros, especialmente a China”, alerta. Ele acrescenta que “a reunião também mostra que o comércio internacional se tornou cada vez mais geoeconômico: tarifas e restrições comerciais não são apenas instrumentos econômicos, mas mecanismos de pressão política”.

A professora Ana Carolina Marson alinha-se a esse pensamento afirmando que temas como as tarifas bilaterais e a cooperação em terras raras, discutidos na reunião segundo Lula, são o “núcleo duro da disputa comercial e tecnológica entre as duas economias, com implicações diretas para as cadeias globais de suprimento”.

O Brasil insere-se nessa pauta como parceiro estratégico já que contém a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás apenas da China. Um dia antes da reunião entre os presidente, na quarta-feira, 6 de maio, a Câmara dos Deputados aprovou em votação simbólica o PL 2780/24, que instaura a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). Entre as novidades do texto está a criação do Fundo Garantidor da Atividade Mineral (Fgam) com aporte de R$ 2 bilhões da União e de um programa para incentivar o beneficiamento e a transformação de minerais críticos no Brasil, com incentivos federais de R$ 5 bilhões. O texto seguiu para o Senado Federal. 

Ricardo Stuckert/PR

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 215 As bravas: a luta das Mães de Maio – com Débora Silva

Neste Dia das Mães, Pauta Pública recebe a fundadora do movimento por justiça para mortes cometidas pelo Estado

0:00

Notas mais recentes

Lula e Trump miram terras raras e evitam tensões em encontro pragmático, dizem analistas


Banco Master: PF revela detalhes sobre Ciro Nogueira, o ‘amigo de vida’ de Vorcaro


STM mantém penas reduzidas e absolvição de militares pela morte de Evaldo Rosa


Thiago Ávila: Itamaraty diz que trabalha para liberação de brasileiro preso em Israel


Fim da escala 6×1 será tema na Câmara e no Senado enquanto STF discute igualdade salarial


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Artigos mais recentes