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Ministra defende regulação das redes após aumento de vídeos na “machosfera” do YouTube

13 de dezembro de 2024
16:30
Este artigo tem mais de 1 ano

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Após um relatório encomendado pelo Ministério das Mulheres ter mostrado um aumento no número de vídeos publicados desde 2022 na “machosfera”, termo que define comunidades online de homens que alimentam o desprezo contra as mulheres, a ministra Cida Gonçalves reforçou a necessidade de regulamentar as redes sociais.

“Nós não podemos ter uma legislação para as redes [de televisão] e jornais livres e não ter outra para as redes que estão colocadas aí e que, na maioria das vezes, têm maior audiência que muitos dos nossos canais, que têm programas educativos e informativos. Isso o Brasil precisa discutir”, afirmou Gonçalves, em evento de lançamento do estudo, nesta sexta-feira (13).

Os pesquisadores analisaram 76 mil vídeos de mais de 7,8 mil canais e identificaram 137 canais com conteúdo misógino. Juntos, eles somam 3,9 bilhões de visualizações, 105 mil vídeos publicados e, em média, 152 mil inscritos. Os dados estão no relatório “Aprenda a evitar ‘este tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube”, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

“A misoginia não é algo novo, mas vem tomando novos contornos por conta da internet”, afirmou uma das coordenadoras da pesquisa, Luciane Belin. A pesquisadora do NetLab explicou que entre os tipos de conteúdo identificados nos títulos dos 76 mil vídeos, o mais prevalente (42%) é o que incentiva o desprezo e uma insurgência masculina contra as mulheres. Também foram comuns vídeos que anunciavam técnicas de sedução e manipulação de mulheres (21,5%), além de vídeos antifeministas (6,8%) ou com defesas de papéis de gênero (5%).

“A forma de expressão de misoginia que mais aparece é a tentativa de controlar as mulheres, inferiorizar e promover a submissão feminina”, acrescentou Belin. Alguns influenciadores, por exemplo, incentivam que homens baixem aplicativos para espionar as redes sociais e acompanhar os movimentos de suas companheiras. 

Na reunião, a ministra reforçou que o discurso online tem efeitos práticos no dia a dia de meninas e mulheres. “O que significa o crescimento dessa misoginia para a nossa realidade? Nós temos tido o aumento da violência contra a mulher, o aumento do preconceito, o aumento da violência sexual contra crianças de 0 a 9 anos. É um processo de naturalização daquilo que não é natural, que é a violência”, afirmou. 

No Congresso, a proposta mais avançada de regulamentação das redes é o PL 2.630/20, conhecido como PL das Fake News. O projeto de lei, de autoria do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), foi aprovado ainda em 2020 no Senado, mas teve sua tramitação paralisada na Câmara dos Deputados após pressão das big techs. Em junho de 2024, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), criou um grupo de trabalho para analisar o projeto em até 90 dias, mas os parlamentares integrantes não produziram relatórios. 

Além do debate no Congresso, o Supremo Tribunal Federal (STF) está julgando desde o fim de novembro a constitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que hoje isenta as plataformas de responsabilidade pelos conteúdos que nelas circulam. 

Ódio contra mulheres também impulsiona lucro 

Além de mostrar a prevalência do discurso de ódio contra as mulheres no YouTube, o levantamento do NetLab também revelou que 80% dos canais misóginos utilizam estratégias de monetização, como anúncios, superchat – quando uma pessoa paga para ter seu comentário destacado em uma live –, pedidos de doações e venda de produtos. 

Para a pesquisadora e fundadora do NetLab, Rose Marie Santini, esses canais têm promovido a “a criação de uma demanda onde a misoginia vira um produto a ser comercializado”. “Se constituiu um mercado de conteúdo misógino no Brasil, isso virou um negócio, e a plataforma participa desse negócio”, afirmou. Ela também explicou que, em geral, conteúdos monetizados tendem a ser mais distribuídos pelo algoritmo do YouTube a novos públicos.

Questionada pela Agência Pública sobre como as plataformas reagem quando o NetLab publica suas conclusões em estudos como o citado, Santini afirmou que as empresas ou não respondem ou tentam relativizar os números, afirmando que se trataria de um contingente pequeno de conteúdos que circulam em suas redes. 

“[As empresas] se protegem com essa fala de transparência, não permitindo que a sociedade conheça o tamanho do problema”, explicou ela. A necessidade de publicar relatórios trimestrais de transparência e de identificação de conteúdos impulsionados e publicitários estava prevista na última versão do PL 2.630.

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