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Municípios em que JBS se instalou tiveram aumento da pobreza, aponta pesquisa

9 de abril de 2024
13:29
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Dos 12 municípios com fábricas da JBS mais citados nos relatórios anuais da empresa, 11 tiveram aumento de inscritos no programa federal de assistência social, o Bolsa Família, entre 2013 e 2023. O dado, utilizado para demonstrar que a pobreza e a fome teriam avançado nesses locais em que a companhia atua há pelo menos uma década, faz parte do estudo Alimentando a desigualdade: os custos ocultos do monopólio industrial da carne, da doutoranda em antropologia pela Universidade de Brasília (UnB) Raísa Pina, publicado nesta terça-feira (9).

Maior processadora de carnes do mundo, a JBS, segundo a pesquisa, tem mais de 100 mil funcionários recebendo, em média, R$ 1,7 mil mensais, um pouco acima do salário mínimo [R$ 1.412]. Na última década, a empresa recebeu aportes da ordem de R$ 31 bilhões do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), atualmente segundo maior acionista da empresa, com 20,8% das ações. Um dos pontos para justificar esse tipo de investimento por parte de empresas estatais é o retorno social, mas, dos 12 municípios analisados, apenas São Miguel do Guaporé (RO) diminuiu em 41% a dependência do programa de assistência social.

“O critério para essa escolha foi observar as cidades onde a JBS operava há mais de 10 anos e ver se tinha um impacto positivo na localidade, mas a gente viu que não tem”, pontuou Raísa Pina, pesquisadora visitante do Departamento de Desenvolvimento Internacional do King’s College London e do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Oxford.

Pina afirma que o relatório não estabelece relação de causalidade entre a atuação da empresa e os locais em que houve aumento da pobreza no país e também não a responsabiliza por essa realidade, inclusive por não dispor de dados que atestem impacto direto das fábricas na realidade dos municípios. 

Segundo ela, no entanto, a ideia foi “trazer luz a esse paradoxo do país ter a maior empresa de alimentos do mundo”, cujo slogan é “alimentando o mundo”, e um índice de fome crescente ao mesmo tempo que questiona “se é válido procurar investir e concentrar tanto dinheiro, tanto investimento, tantas iniciativas financeiras numa grande corporação, se isso não se traduz em um retorno social”.

A pesquisa

Além de São Miguel do Guaporé, também foram analisadas as realidades de Vilhena (RO), Diamantino (MT), Barra do Garças (MT), Alta Floresta (MT), Juara (MT), Goiânia (GO), Mozarlândia (GO), Andradina (SP), Lins (SP), Campo Grande (MS) e Marabá (PA).

Em Goiânia, o número de inscritos no Bolsa Família em dez anos mais que dobrou, chegando a 162%, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Entre as localidades analisadas de maior variação, seguem Campo Grande, Andradina e Barra do Garças.

O Bolsa Família oferece auxílio para famílias em situação de vulnerabilidade social. Em 2013, havia mais de 13 mil famílias inscritas no programa, contra 21 mil no final de 2023, segundo o MDS.

A pesquisadora justificou a escolha da JBS pela forte ligação estatal da empresa e pelo impacto da expansão do setor da companhia no quesito mudanças climáticas. Em uma década, as receitas da JBS tiveram um aumento de 303%. Segundo o levantamento, os conselheiros da empresa têm ganhos de aproximadamente R$ 60 mil mensais, enquanto os altos executivos recebem cerca de R$ 2 milhões. 

De acordo com a política de divisão de lucros da empresa, pelo menos 25% dos ganhos são divididos entre os acionistas – entre 2022 e 2023, os dividendos distribuídos passaram de US$ 1 bilhão (R$ 5 bi). A família Batista é a maior acionária da JBS, com 48,8% das ações – 11% delas estão nas mãos de estrangeiros.

Outro lado

A JBS foi fundada em 1953, em Anápolis (GO), por José Batista Sobrinho. Começou como um pequeno açougue e atualmente funciona com um portfólio diversificado que inclui produtos de conveniência, de higiene e limpeza e produção de colágeno, biodiesel e embalagens metálicas. Hoje, a companhia emprega 151 mil funcionários e responde por 2,1% do PIB, com faturamento de R$ 370 bilhões por ano.

Procurada pela Agência Pública, a JBS não se manifestou sobre a pesquisa em questão. Em caso de resposta, este conteúdo será atualizado.

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