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Agência de Jornalismo Investigativo

O repórter Matias Maxx conta a história por trás de sua bombástica reportagem sobre a vida de presos não pertencentes a facções

18 de junho de 2019
12:03

Texto originalmente publicado na Newsletter dos Aliados. Financie a Pública e receba conteúdos exclusivos!

Graças ao financiamento dos leitores consegui contar histórias engasgadas na minha mente há anos. Não foram poucas as vezes que ofereci essa reportagem para outros meios nos quais trabalhei. O nome dela é “Sobrevivendo no Inferno: o relato íntimo de três condenados que não pertenciam a facções” e ela é uma das mais lidas do site da Pública de todos os tempos.

A questão prisional me desperta curiosidade desde sempre. Na minha adolescência, eu era uma espécie de chaveirinho do meu avô, um respeitado empresário da área de diversões – categoria que compreende dos fliperamas aos jogos de azar. Pelo menos uma vez ao mês ele me levava para churrascos na mansão de amigos contraventores. Quando eles finalmente foram parar na cadeia, os churrascos continuavam rolando todo fim de semana, do lado de dentro do presídio. E é claro que ele me levava. Foram várias unidades prisionais que eu visitei com meu avô, o clima era sempre familiar e os caras desfrutavam de regalias como churrasco, pelada, celas com ar condicionado split e TV de tela plana (isso no início dos anos 90). Eu não podia falar pra ninguém sobre essas visitas, acho que nem minha mãe sabia, mas aquilo me marcou profundamente, sobretudo a questão do poder do dinheiro, que se não fosse suficiente para comprar a liberdade, poderia pelo menos transformar a reclusão em algo um pouco mais suportável.

No ano 2000, um dos meus melhores amigos foi pego saindo da favela onde morava com uma boa quantidade de maconha como companhia. A sua pele parda e seu endereço periférico pesaram muito mais do que a quantidade da droga na hora de acusá-lo de tráfico, e ele ficou nove meses preso até nós, seus amigos, conseguirmos levantar grana para um pagar um advogado experiente e reverter a prisão. Eu o visitei algumas vezes e a realidade era bem diferente a dos poderosos amigos do meu avô: o pátio das visitas fedia a fezes, pois no dia anterior a galera da outra facção literalmente espalhava merda no pátio. Eu sempre dava um jeito de entregar 50 ou 100 pratas pro amigo, além de levar uma caralhada de cigarros paraguaios comprados ali mesmo do lado de fora do presídio. Quando ele saiu, me contou várias histórias de como os detentos usavam as quentinhas para fabricar circuitos elétricos e botar pra funcionar várias gambiarras. Eu já era jornalista e comentei a história pra um amigo editor de uma revista de entretenimento que eu trabalhava na época. Ele teve a ideia da gente reproduzir as gambiarras e fazer umas fotos em estúdio estilo publicitárias, o que acabou dificultando e encarecendo a pauta que, no final, nunca foi pra frente.

Quando o meu amigo Rafinha*, aquele que foi preso cheio de drogas numa rave na Bahia – descrito na reportagem – me contou a sua surreal história, minha cabeça foi a mil. Eu queria muito ter a oportunidade de contar essa história. Até o dia em que as editoras da Pública me convidaram a propor pautas financiadas pelos leitores.

Ninguém disse que ia ser fácil, mas desta vez meu compromisso não era com um editor ou uma banca de jurados, mas sim aos doadores que confiaram em mim para contar essa história. Eu tinha proposto contar a história do Rafinha e mais dois ex-detentos. Mas vamos combinar, é um tema muito explorado, existem vários livros, filmes, séries e até reality shows focando a questão penitenciária.

O Rafinha foi fácil de entrevistar, até porque eu já tinha ouvido ele contar sua história um milhão de vezes sem muita cerimônia. Já o Henrique, é um cara que eu conheci na militância pela legalização da maconha. Ele ficou dois anos preso em Brasília porque plantava a erva em casa. Voei até a capital para entrevistá-lo pessoalmente, foi extremamente doloroso ouvir sua história, pois diferente do Rafinha e Luan, ele não tinha grana pra se virar lá dentro, além de ter encarado um sistema muito mais rigoroso do que o da Bahia ou do Rio.

O cara era uma pessoa totalmente diferente da que eu havia conhecido, e foi muito difícil transcrever, decupar e editar as horas de entrevista. Tive crises de ansiedade e enrolei os editores da Pública por sete meses até entregar a matéria. Se fosse pra outra publicação provavelmente a matéria teria caído, ou o editor teria me mandado catar coquinho, ou eu teria desistido, considerando não valer a pena tanto esforço. Mas tinham pelo menos 1300 apoiadores aguardando essa matéria.

O sofrimento todo valeu a pena, e eu pude contar essas histórias do jeito que elas mereciam. A resposta veio numa audiência considerável para a reportagem, cheguei a receber feedback de uma juíza, que disse que todo magistrado deveria ler a matéria. Dos personagens, quem mais comentou, curtiu e compartilhou foi o Henrique, o que me deixou muito feliz e realizado.

Obrigado aos leitores da Pública por me permitirem contar mais uma história engasgada. Que venham outras.

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