Com a terceira maior incidência da doença no país, estado abraçou o remédio por causa de escassez de cloroquina; ambos os medicamentos não têm eficácia comprovada

Com a terceira maior incidência da doença no país, estado abraçou o remédio por causa de escassez de cloroquina; ambos os medicamentos não têm eficácia comprovada

13 de outubro de 2020
12:00
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Na primeira semana com sintomas, em meados de abril, Amanda Furtado sentiu dores de cabeça. Na semana seguinte, ela passou a ter febre. Na terceira, começou a sentir intensa falta de ar. “Eu pensei que fosse asma, demorei pra entender que estava com Covid-19”, relata a moradora de Macapá, capital do Amapá. “Eu não tive condições de ficar em casa, tive que procurar um médico. Já não conseguia comer, já não sentia o cheiro, o gosto da comida”.

Com o quadro agravado, ela buscou uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), e de lá foi encaminhada para a Unidade Básica de Saúde (UBS) Lélio Silva, referência para Covid-19 na capital amapaense. “Eu fiz o teste, mas eles descartaram, falaram que era só nervosismo meu, porque eu sou asmática. Me trataram mal, muito mal. Mesmo com todos os sintomas, falaram que era psicológico, que era só uma crise minha”, relata Amanda. Apesar da falta de ar, o médico a mandou ir para casa após receitar paracetamol, um suplemento vitamínico e quatro doses de ivermectina. 

A babá de 21 anos passou as duas semanas seguintes acamada, ainda sem conseguir respirar. “Voltei na UPA ainda umas três vezes. Da última vez eu estava muito mal mesmo, tive que ir para o oxigênio. Não cheguei a ser internada, porque como ainda não tinha saído o meu resultado, eles continuaram a insistir que não era [Covid]”. O resultado do teste de Amanda saiu somente um mês depois de realizado – deu positivo. Ela acredita ter contraído a doença na casa da família onde trabalha.  

Amanda Furtado foi ao posto de saúde três vezes com sintomas graves da Covid-19, mas só na última vez ela recebeu oxigênio. Nas outras, apenas ivermectina e antitérmico

O protocolo idealizado pelo “Comitê Médico de Enfrentamento à Covid-19” do Amapá e adotado pelo governo do estado propõe a combinação de cloroquina ou hidroxicloroquina com azitromicina para “tratamento precoce” da doença. Como alternativa, prevendo uma possível escassez das variações da cloroquina, o comitê indica os antiparasitários nitazoxanida e ivermectina, além do antibiótico azitromicina, que são fornecidos mesmo sem que a infecção seja comprovada por exame, como no caso de Amanda.

O protocolo também apresenta algumas dezenas de outras opções, mas a maior parte dos medicamentos que compõem o “coquetel” não tem aval da Organização Mundial da Saúde (OMS) ou chancela da comunidade internacional, além de apresentarem possíveis efeitos adversos.

Quando acabou a cloroquina…

Afinal, o desabastecimento da hidroxicloroquina no estado se confirmou, e a ivermectina, que Amanda recebeu como medicação, se tornou a “menina dos olhos” no tratamento contra a Covid-19 no Amapá. Só pela Prefeitura de Macapá, houve a compra emergencial sem licitação de 516 mil doses do medicamento, usualmente utilizado para combater piolhos e vermes, de acordo com o Portal da Transparência do município. O valor gasto foi de pelo menos R$1,6 milhão (um terceiro lote do medicamento foi comprado junto a outros remédios, sem especificação do preço). 

Ao mesmo tempo, a população correu às farmácias para comprar o medicamento. “Quando não tinha na rede de saúde pública, muitos colegas corriam para comprar. E estava superinflacionado, variava de 200, 300 reais, a caixa [o valor usual é de cerca de 15 a 20 reais]. O estado não deu como forma de prevenção, mas muita gente estava comprando para guardar em casa, para ter em caso de pegar o coronavírus, faziam estoque”, conta o morador de Macapá Valdemir Furtado, cunhado de Amanda.

O Amapá tem uma das mais altas taxas de casos confirmados por 100 mil habitantes do país, e incidência de óbitos também é maior que a média nacional

Pesquisadores divergem 

Quem apontou a ivermectina como “menina dos olhos” no estado é o enfermeiro Patrício Almeida, um dos formuladores do protocolo utilizado no Amapá. Com um pai idoso e vendo a falta de perspectivas terapêuticas, ele se sentiu na obrigação de propor alguma alternativa para o estado. Mestre em Ciências Farmacêuticas, além de doutorando em Engenharia Biomédica pela Universidade Brasil, ele realizou simulações com inteligência artificial e concluiu que, ao menos no computador, a combinação das drogas seria capaz de “bloquear 85% da estrutura do vírus”. “Do ponto de vista molecular, praticamente, o vírus era abarcado ali [com os medicamentos]”. Almeida  apresentou suas conclusões e, após muita insistência, conseguiu emplacar suas apostas junto ao governo local. 

Para Alison Chaves, doutor em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o raciocínio aplicado por Almeida tem problemas. “Se você testar 100 medicações aleatoriamente, 90 delas vão ter alguma atividade antiviral in vitro [em células isoladas em laboratórios]. Isso não significa, de maneira alguma, que qualquer medicação teria esse efeito in vivo [em animais ou humanos]. Além disso, nós já temos testes clínicos publicados sobre os efeitos dessas medicações, e eles mostraram que não tem benefício do uso das drogas”, afirma o pesquisador.

Formado em Enfermagem pela Universidade Federal do Amapá (UFAP) – assim como Patrício Almeida –, Chaves chegou a ser convidado para participar do comitê científico que pensava em possibilidades terapêuticas contra a Covid no estado. Por discordar dos rumos que foram tomados, porém, ele declinou o convite. Crítico à distribuição de “kits Covid” pelo governo local, ele enxerga um desperdício de dinheiro na aposta. “Tem um gasto grande e certamente esse dinheiro vai fazer falta para a atenção básica, unidades básicas de saúde, UPAs, que precisam de cada centavo desse investimento precioso que está sendo extraviado agora”, diz.

A 180 km da capital, Pedra Branca do Amapari também apostou na distribuição de “kit Covid”

Apesar da polêmica, o protocolo foi amplamente adotado no estado e em seus 16 municípios, incluindo a capital Macapá. Além disso, recebeu manifestações positivas do Conselho Regional de Medicina (CRM-AP) e da Procuradoria-Geral do Estado. Mesmo assim, o tratamento não foi unanimidade entre os médicos. “A minoria dessas pessoas que tomam iria complicar. Ou seja, você tomar o coquetel e água é a mesma coisa”, diz a médica Liliany Silva, que atua no hospital de doenças infecciosas do estado. “Eu não passo e colegas infectologistas também não prescrevem”.

Patrício Almeida alega que o tratamento com ivermectina nunca foi apresentado pelo comitê como “cura”, mas era necessário apresentar alguma alternativa. “Eu não podia ficar de braços cruzados. Se você está numa guerra e você não tem a melhor arma, eu vou usar o estilingue que eu tenho à mão, se eu não tiver nada, eu pego um pedaço de pedra, se eu não tiver pedra, eu vou para a porrada. Na guerra a gente faz o que é necessário, só sabe quem viveu a realidade”, afirma.

Alison Chaves rebate. Para ele, a metáfora da guerra para descrever a pandemia é “nociva”. “Em uma guerra, se justifica qualquer coisa, o impensável. E medicina não pode ser assim, não pode se fazer qualquer coisa. Não temos que relaxar nosso rigor científico, temos que ser ainda mais rigorosos com o método científico na hora de ter conduta com o paciente”, pondera.

Amapá tem alta incidência 

Com uma população de cerca de 845 mil pessoas, o Amapá registrava na última sexta-feira, 9 de outubro, 49.215 casos confirmados de Covid-19, a terceira maior incidência por 100 mil habitantes do país. Em Macapá, que concentra 60% da população do estado, eram 18.725 casos. Além disso, o estado no Norte do Brasil registrava 725 óbitos na sexta-feira, sendo 499 deles na capital.

Dotado de uma estrutura de saúde precária, com uma das menores taxas de leitos de UTIs, respiradores e médicos por 100 mil habitantes do país, o Amapá foi o primeiro a decretar lockdown geral, entre 19 de maio e 2 de junho. “Maio e junho foram os piores meses da minha vida”, relata à Agência Pública o enfermeiro da Superintendência de Vigilância em Saúde Waldir Pires. “Muita gente morreu, pessoas conhecidas. Como você não pode velar, parece que a pessoa desapareceu”, diz. 

O estado também sofreu com a falta de testes e com a demora para se obter o resultado do exame, como ocorreu no caso de Amanda. “A prefeitura [de Macapá] comprou mais de 20 mil testes no desespero, antes de saírem os estudos, e eram muitos testes de sensibilidade baixa”, conta o pesquisador Alison Chaves.

Prefeitura de Macapá chegou a doar kits com ivermectina e azitromicina para o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) da região

Após enfrentar o pico entre os meses de maio e junho, o Amapá vê o avanço da pandemia arrefecer nos últimos meses, com queda na taxa de letalidade da doença. Na visão de Patrício Almeida, o protocolo que ele ajudou a criar teve papel importante na melhora dos números no estado. “Você trata mais cedo, reduz a carga viral e evita a transmissão para outro, e isso está se revertendo em redução de risco potencial”, afirma o enfermeiro, que acredita que Deus foi “providencial” e teve “um grau de benevolência” com o Amapá. 

Na visão de Chaves, o que contou foi a população majoritariamente jovem no estado e a baixíssima densidade demográfica local – são menos de 5 habitantes por km² (São Paulo tem 177 por km²). “Posso dizer com a maior segurança que, desde o início da pandemia, o que tem salvado os pacientes graves não é nenhum tipo de protocolo específico novo adotado por estado nenhum, e sim o conhecimento básico que toda a equipe de intensivistas já tem há anos para manejo de SRAG [Síndrome Respiratória Aguda Grave]. É esse conhecimento que tem salvado os pacientes”, diz.

A Pública tentou contato com o governo e com a secretaria de saúde do Amapá, além da Prefeitura de Macapá, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.

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Colaborou Raphaela Ribeiro

Arquivo Pessoal
Bruno Fonseca/Agência Pública
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