Buscar
Reportagem

Polícia reconstitui assassinato para testar versões de acusados e testemunhas

Mais de 20 policiais federais e civis, além de peritos criminais federais, estão envolvidos na reconstituição do assassinato de Bruno e Dom

Reportagem
30 de junho de 2022
15:00
Este artigo tem mais de 4 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Presos acusados do assassinato de Bruno e Dom são levados de barco pela polícia civil e federal para o local do crime, a fim de reconstituir a ordem dos fatos.
José Medeiros/Agência Pública

Atalaia do Norte (AM) – Estampidos de armas de fogo voltaram a soar alto no rio Itaquaí na tarde desta quarta-feira (29) no mesmo ponto em que, no último dia 5, foram assassinados o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips. Os tiros na água fizeram parte da reconstituição do crime, na qual trabalham, desde a última terça-feira (28), mais de 20 policiais federais e civis e peritos criminais federais.

A reconstituição tem sido feita por blocos de “eventos”. Os presos e testemunhas dão sua versão sobre cada “evento”. A versão é reencenada com outras pessoas e objetos e gravada pelos peritos, “como se fosse um filmete” de cada “evento”, segundo um policial federal.

Policiais em barco reconstituem a cena do crime
Mais de 20 policiais e peritos criminais federais estão envolvidos na reconstituição do crime

Depois, cada versão será confrontada na tentativa de dissipar as dúvidas e incoerências que surgiram entre depoimentos.

Na terça-feira (28), os peritos trataram da queima dos documentos e objetos pessoais de Bruno e Dom e da ocultação dos corpos. Na quarta-feira (29), a reconstituição teve a participação dos principais acusados da execução do crime, os pescadores e caçadores Amarildo Oliveira, o “Pelado”, e Jeferson Lima, o “Pelado da Dinha”. Eles foram retirados da cela da delegacia de Atalaia do Norte, onde permanecem presos por ordens de prisão preventiva emitidas pela Justiça, e levados ao rio sob escolta policial. No final do dia, foram trazidos de volta à cela da delegacia.

Delegacia em Atalaia do Norte.
Os acusados foram retirados da cela da delegacia de Atalaia do Norte, onde permanecem presos, e foram trazidos de volta no final do dia

Uma nova testemunha localizada pela polícia, um ribeirinho que casualmente estava perto do local dos assassinatos mas não teve envolvimento no crime, segundo a polícia, disse ter ouvido uma “rajada” no momento do crime, ou seja, uma sequência de tiros que teriam atingido a água. Com os tiros dados na reconstituição de quarta-feira (29), a perícia queria saber se a testemunha reconhecia o som como sendo os disparos de uma pistola como a que Bruno Pereira costumava portar.

De acordo com a versão de Amarildo Oliveira, o “Pelado”, o indigenista Bruno Pereira teria esboçado uma reação quando já estava caindo no barco após ser atingido provavelmente nas costas por um disparo dado por Jeferson Lima, o “Pelado da Dinha” – este diz, no entanto, que o primeiro tiro contra Bruno partiu de “Pelado”. A dupla se aproximou do barco de Bruno pela parte traseira e deu os tiros à queima-roupa, sem chance de defesa para o indigenista, a uma distância que varia, de acordo com os depoimentos, de três a 20 metros.

Policiais conduzem os presos pelo assassinato de Bruno e Dom para os barcos.
Os presos e testemunhas dão sua versão sobre cada “evento” no processo de reconstituição de cena

Com a série de reconstituições dos “eventos”, a intenção da polícia é esgotar dúvidas que surgiram na comparação entre os depoimentos prestados por Amarildo e Lima. Conforme o delegado que preside o inquérito, Alex Perez, disse à Agência Pública no último final de semana, as principais contradições são: quem, entre “Pelado” e “Pelado da Dinha”, atirou em quem no barco conduzido por Bruno e em que ordem; em que momento Dom Phillips foi morto; o número exato de cartuchos deflagrados (“Pelado” primeiro falou um tiro, depois três cada um); como foi a exata dinâmica do assassinato; a distância em que os disparos foram dados; o destino das armas usadas por “Pelado” e “Pelado da Dinha”; quantas e quais são as pessoas que ajudaram a ocultar os corpos.

Outra contradição entre os dois presos é quem convidou quem para entrar no barco na comunidade de São Gabriel a fim de perseguir e matar Bruno e Dom, quando o indigenista e o jornalista passaram de barco pelo rio naquele ponto na manhã do domingo, dia 5. “Pelado” diz que a iniciativa da perseguição partiu de “Pelado da Dinha”, que diz o contrário, que foi “Pelado” quem teve a iniciativa.

Outras medidas que ainda farão parte do inquérito para tirar dúvidas são uma acareação entre os dois acusados e a entrega do resultado dos diversos exames periciais realizados até o momento. Foram feitas perícias nos corpos, no local do crime, no local onde os corpos foram enterrados na mata e em diversos objetos encontrados com e nas casas dos investigados.

Presos acusados do assassinato de Bruno e Dom são levados de barco pela polícia civil e federal para o local do crime, a fim de reconstituir a ordem dos fatos.
Cada versão será confrontada na tentativa de dissipar as dúvidas e incoerências que surgiram entre depoimentos

O trabalho pericial desta quarta-feira foi acompanhado pela Agência Pública e pela Rede Amazônica, afiliada da Rede Globo no Amazonas. Os policiais foram apoiados por quatro indígenas e dois barcos da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). O barco que transportou os jornalistas foi conduzido pelo ex-coordenador da Univaja Jader Marubo, amigo de Bruno, com quem trabalhou por mais de cinco anos, de 2012 a 2016, quando o indigenista chefiou a coordenação regional da Funai em Atalaia do Norte. No caminho de ida e volta ao local da reconstituição, Marubo tocou nos alto-falantes do barco a versão entoada por Bruno de um canto kanamari que viralizou nas redes sociais após o seu assassinato. Os Kanamari são um dos povos que habitam a Terra Indígena Vale do Javari.

O especial Vale do Javari — terra de conflitos e crime organizado é uma série de reportagens da Agência Pública com apoio do Amazon Rainforest Journalism Fund (Amazon RJF) em parceria com o Pulitzer Center

José Medeiros/Agência Pública
José Medeiros/Agência Pública
José Medeiros/Agência Pública
José Medeiros/Agência Pública
José Medeiros/Agência Pública
José Medeiros/Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia