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“Se morrer um indígena no Vale do Javari, a gente vai reagir também”, diz líder kanamari

A Agência Pública acompanhou protesto na sede da Funai em Atalaia do Norte (AM) que incluiu cartazes contra o presidente do órgão indigenista e o governo federal

Reportagem
24 de junho de 2022
14:54
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Dezenas de indígenas do Vale do Javari reunidos em frente a sede da Funai em Atalaia do Norte
José Medeiros/Agência Pública

Cerca de 200 indígenas do Vale do Javari se reuniram no final da tarde de ontem, 23 de junho, na frente da coordenação regional da Funai (Fundação Nacional do Índio) de Atalaia do Norte (AM) com faixas e cartazes para pedir proteção à região e Justiça para os assassinatos de Bruno Pereira, Dom Phillips e Maxciel Pereira e com críticas ao governo federal e ao presidente do órgão em Brasília, Marcelo Xavier. Cartazes pediram “fora Xavier”.

Indígenas e servidores da Funai pediram Justiça para os assassinatos do indigenista Bruno e do jornalista Dom, ocorrido no último dia 5 no rio Itaquaí, e do indigenista Maxciel, morto com um tiro em Tabatinga (AM) em 2019.

Os servidores da Funai convocaram para esta quinta-feira protestos em todo o país e uma paralisação de 24 horas. De acordo com a INA (Indígenas Associados), formada por servidores do órgão, houve adesão em 40 das 52 unidades no país.

Mulher indígena do Vale do Javari segura cartaz com os dizeres "nenhuma gota de sangue a mais"
Povos indígenas do Vale do Javari vivem sob ameaças constantes

No protesto em Atalaia do Norte, o cacique kanamari Eduardo Dyanim falou ao microfone: “Aqui na região do Itaquaí, no [rio] Curuçá, queremos a presença do Estado, da Polícia Federal, do Exército, do Ibama pra fazer a proteção do nosso território. Porque se nós, um indígena morrer, a gente vai reagir também. Isso tem que deixar bem claro para os invasores não indígenas também. Eu vou só esperar. Se morrer um indígena no Vale do Javari, a gente vai reagir também”.

A fala do cacique foi traduzida por um indígena kanamari. Com mais de 4 mil, conforme calculado pelo governo em 2014, os kanamaris são um dos povos indígenas mais numerosos da Terra Indígena do Vale do Javari – a Funai estima mais de 7 mil indígenas no território do Javari.

“O Bruno estava sendo um de nós, tipo um kanamari, que canta a música da natureza, pedindo mais proteção. Esse canto faz bem, por isso que ele se apaixonou pela música dos kanamaris. O Bruno deu a vida pelos povos indígenas do Vale do Javari. Por isso que sempre a gente vai falar o nome dele quando organizar nossos eventos”, disse Eduardo.

A cacica Sandra Matsés da Aldeia Nova Esperança, no rio Curuçá, disse que “Bruno lutou por nós, e nós do Vale do Javari vamos lutar por ele também”, segundo o intérprete. “Nós não vamos nos calar, vamos continuar a lutar pelos nossos direitos. Nossa resistência dos povos indígenas. Eu chorei porque fiquei muito triste porque Bruno lutou mas iria acontecer assim mesmo, eu sabia que ia acontecer, porque defensores da Funai nos avisaram que ia acontecer. Então aconteceu.”

De acordo com a liderança Matsés, os indígenas não querem fazer vingança “como antigamente” porque hoje “lutam com o papel, lutam com a Justiça para o Dom e para o Bruno”.

Ato em frente ao prédio da Funai em Atalaia do Norte
Ato em frente ao prédio da Funai em Atalaia reuniu cerca de 200 indígenas

O cacique Eduardo Dyanim disse que há ameaças contra indígenas e servidores da Funai não apenas na região do rio Itaquaí, onde Bruno e Dom foram assassinados, mas em outras partes da terra indígena Vale do Javari. “Aqui a gente está lutando mais na região do Jarinal, na região de Jutaí, os parentes recentemente contatados estão sendo ameaçados também pelos garimpeiros. Também precisamos lutar por eles também. Queremos lá mais Funai, para poder barrar a entrada dos invasores.”

Jader Marubo, ex-coordenador da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), principal organização indígena da região, disse que o governo federal “está desestruturando tudo” na política indigenista. “Nós não temos um motor que presta. Eu trabalho aqui dentro, nós não temos computadores suficientes para fazer um trabalho de qualidade para nossos parentes. Nossas bases [de fiscalização] estão sendo sucateadas.”

Crianças indígenas seguram cartaz escrito ''Amazônia Resist! Quem mandou?''
“Nós não vamos nos calar, vamos continuar a lutar pelos nossos direitos”, diz cacica Sandra Matsés da Aldeia Nova Esperança

Miriam Pereira Vasquez, da AMITI (Associação das Mulheres Indígenas Tikunas), no vizinho município de Benjamin Constant (AM), afirmou que o presidente Jair Bolsonaro “não é nosso amigo, não é amigo da humanidade, não é amigo da Justiça”. “Ele quer nos destruir como nossa parenta falou, estamos na época de eleição. É hora agora de dizer basta. É hora de nós colocarmos nossos dedinhos lá na urna [de votação] para tirar ele, é hora de mudar a nossa história.”

O especial Vale do Javari — terra de conflitos e crime organizado é uma série de reportagens da Agência Pública com apoio do Amazon Rainforest Journalism Fund (Amazon RJF) em parceria com o Pulitzer Center

José Medeiros/Agência Pública
José Medeiros/Agência Pública
José Medeiros/Agência Pública

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