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Entrevista

Petróleo e poder: Trump e Rubio querem interferir em toda América Latina, diz pesquisador

Além do lucro com petróleo, EUA miram países cujos líderes não sejam subservientes, diz pesquisador

Entrevista
4 de janeiro de 2026
12:06
Presidente Donald Trump e o secretário de estado Marco Rubio
Official White House/ Molly Riley

Petróleo ou poder? Esses dois aspectos ficaram evidentes na fala do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quando tentou justificar o ataque ilegal à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro durante o pronunciamento de quase uma hora feito no sábado, 3 de janeiro, na Flórida.

“Vamos reconstruir a infraestrutura de petróleo, o que vai custar bilhões de dólares. Isso será pago diretamente pelas empresas petrolíferas. Elas serão reembolsadas pelo que estiverem fazendo, mas tudo isso será pago, e vamos fazer o petróleo fluir como deveria […] Vamos vendê-lo. Provavelmente venderemos em volumes muito maiores, porque eles produziam muito pouco devido à infraestrutura precária. Vamos vender grandes quantidades de petróleo a outros países, muitos dos quais já o utilizam, e muitos outros virão”, disse Trump, deixando esdruxulamente explícito o interesse dos EUA – e das empresas petrolíferas – em entrar na Venezuela.

Além de falar quase 20 vezes a palavra petróleo (oil, em inglês) Trump também sinalizou o que significa para os EUA destituir Maduro e decidir como o país deve ser governado: “A Venezuela tem muitas pessoas ruins lá dentro, muitas pessoas ruins que não deveriam liderar. Não vamos correr o risco de uma dessas pessoas assumir o lugar de Maduro […] Precisamos de países seguros ao nosso redor”, falou.

Para o economista e co-diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR), Mark Weisbrot, essa dupla de palavras “petróleo e poder” explica o que motivou a ação ilegal dos EUA na Venezuela, mas também serve para ilustrar as visões dos dois homens que mais têm controle sobre a política externa dos EUA atualmente: o próprio Trump e o secretário de Estado Marco Rubio.

“Para Trump, trata-se de petróleo. Mas, para Marco Rubio, a questão é muito mais a mudança de regime […] E não se trata apenas de Cuba e Venezuela; eles querem transformar toda a região”, explica, em entrevista para a Agência Pública.

Weisbrot avalia que Rubio é um dos principais defensores do projeto de que os EUA interfiram cada vez mais em países da América Latina, sob a lógica da Doutrina “Donroe”, para destituir adversários e manter apenas os governos que sejam subservientes a Washington. Nesse plano, alvos prioritários seriam Cuba e Colômbia (cujo presidente foi ameaçado diretamente por Trump), mas Brasil e México também estão no radar – mesmo que seja improvável que os EUA atuem da mesma forma nesses países como fizeram na Venezuela.

“[Nas últimas décadas] Os Estados Unidos lançaram esforços de mudança de regime contra quase todos os governos social-democráticos, incluindo o Brasil […] Eles não querem que nenhum país tenha poder. E isso também é verdade para [a relação dos EUA com] Lula. Eles não gostaram que Lula não se alinhasse com seu projeto geopolítico, que é um projeto de dominar todos os governos que eles possam”, analisa.

Leia a entrevista completa a seguir.

Na sua visão, qual é a motivação central por trás do ataque dos Estados Unidos? É o petróleo? A geopolítica internacional? Algum outro fator?

Para Trump, trata-se de petróleo. Ele afirmou isso repetidamente… Mas, para Marco Rubio [Secretário de Estado dos Estados Unidos], a questão é muito mais a mudança de regime: ele vê essa mudança como um passo em direção ao seu sonho de promover uma mudança de regime em Cuba.

Essa operação de mudança de regime na Venezuela já dura 25 anos; documentos do Departamento de Estado de 2002 reconhecem o papel dos Estados Unidos naquele golpe [na época, uma tentativa fracassada de golpe tentou tirar o presidente Hugo Chávez do poder]. E isso tem muito mais a ver com poder, do que com petróleo.

Duas das maiores empresas de petróleo dos Estados Unidos, a Chevron e, por sete anos, a ExxonMobil, já estavam ganhando dinheiro e queriam deixar Chávez em paz, mas não tinham voz na política externa dos EUA na região.

Com as maiores reservas de petróleo do mundo, o que de fato poderia mudar para os Estados Unidos, em termos de acesso ao petróleo, caso se consolide uma mudança de regime na Venezuela?

Não acho que vá haver muito interesse imediato por parte das empresas petrolíferas norte-americanas na Venezuela, porque a situação é instável demais, e o próprio governo Trump é muito instável no que diz respeito ao que pode fazer em seguida.

Por que os Estados Unidos não tentaram negociar a questão do petróleo com Maduro, que desde o início disse que não queria um conflito?

Eles até tentaram em certa medida, mas Rubio realmente queria a mudança de regime. 

Havia uma grande diferença entre Rubio e Trump nesse ponto. Trump, como eu disse antes, estava interessado no petróleo, e Rubio queria a mudança de regime. E, então, ele fez o possível para – segundo relatos da imprensa, por exemplo do New York Times – apresentar um cenário em que Trump oscilava entre negociar um acordo de petróleo com Maduro ou tentar derrubá-lo. E Rubio parecia estar, de acordo com os relatos de pessoas que conversaram com ele, constantemente tentando convencer Trump de que a melhor forma de obter o petróleo era por meio da mudança de regime.

O quão central é para os EUA de Trump ter acesso a reservas adicionais de petróleo e gás?

Os Estados Unidos não sofrem escassez de petróleo, mas, como Trump não aceita que o clima esteja, de fato, mudando como resultado dos combustíveis fósseis, a agenda dele é aumentar a produção de combustíveis fósseis nos Estados Unidos.

Há uma outra forma pela qual isso também poderia ser importante: Trump ganhou mais dinheiro do que qualquer presidente na história enquanto esteve no cargo — bilhões de dólares — e grande parte disso vem de empreendimentos relacionados à sua política externa, como o setor de cripto no Oriente Médio e em outros lugares.

Então, dá para imaginar — não estou dizendo que isso seja verdade, mas também não parece impossível — que Trump possa ver o petróleo como outro grande investimento que beneficiaria a ele e sua família. Notei que, há poucos dias, o filho de Trump apresentou María Corina Machado em um evento no qual ela falou sobre o petróleo venezuelano, dizendo algo como ‘estamos falando de um investimento de 1,7 trilhão de dólares’, ou algo nesse sentido. Quer dizer, ela mencionou 1,7 trilhão de dólares. E o fato de ele [filho de Trump] estar ali apresentando [Machado] lembra alguns desses acordos que eles fizeram no Oriente Médio.

Para além do petróleo, quão importante é para Trump afirmar influência na América Latina como parte de sua agenda geopolítica? Como a Doutrina “Donroe” e o confronto com a influência chinesa entram nessa ação?

Bem, para Rubio isso é realmente importante. E não se trata apenas de Cuba e Venezuela; eles querem transformar toda a região. Cuba e Venezuela são apenas parte dessa transformação. É preciso lembrar que, no século 21, em determinado momento da primeira década, a maioria do hemisfério sul vivia sob governos de centro-esquerda, em sua maioria social-democratas. Alguns poderiam até se autodenominar socialistas, mas na prática, eram social-democratas. 

Nesse período, os Estados Unidos lançaram esforços de mudança de regime contra quase todos os governos social-democráticos, incluindo o Brasil.

Na verdade, Lula disse em uma entrevista na televisão que o governo dos EUA, o Departamento de Justiça e o FBI [Federal Bureau of Investigation] trabalharam para colocá-lo na prisão em 2018, para que ele não pudesse ser presidente. E, claro, eles também ajudaram e apoiaram o impeachment de Dilma. E eu poderia passar por uma hora falando sobre todos os governos dos quais os EUA tentaram se livrar…

Há poucas semanas, inclusive, eles interviram na eleição de Honduras [no fim de 2025], com o Trump muito forçadamente dizendo que Honduras seria punida se não votasse pelo candidato escolhido.

Claro, a administração Barack Obama também apoiou o golpe em Honduras em 2009 e, de novo, eu poderia falar por horas sobre todas essas intervenções, até mesmo na Argentina, em 2012…

Mas a Venezuela foi o principal objetivo dos EUA de mudança de regime nos últimos 25 anos, com talvez as exceções da guerra no Iraque e os ataques no Irã.

É sobre petróleo, mas também sobre poder, porque a Venezuela, com 300 bilhões de barris de óleo, sempre vai ser um país com influência. Em um momento, na primeira década do século 20, eles estavam fornecendo mais ajuda externa a países da América Latina do que os Estados Unidos. E isso é o que os EUA não querem.

Eles não querem que nenhum país tenha poder. E isso também é verdade para [a relação dos EUA com] Lula. Eles não gostaram que Lula não se alinhasse com seu projeto geopolítico, que é um projeto de dominar todos os governos que eles possam.

Trump afirmou, em uma entrevista à Fox News, que algo teria de ser feito em relação ao México, citando as atividades de grupos de tráfico de drogas. Quanta realidade você vê nessa ameaça?

Bem, Trump está ameaçando o México, não há dúvidas sobre isso, e ele gostaria de se livrar de Claudia Sheinbaum – não ele, novamente, ele não se importa -, mas Rubio definitivamente vê Sheinbaum como um problema, porque ela é uma presidente independente e ela tende a se alinhar com os outros governos independentes. Novamente, é sobre poder.

Eles derrotaram o governo boliviano em 2019 com a OAS, com [Luis] Almagro liderando. E isso foi uma guerra que foi realmente fortemente apoiada pelos Estados Unidos.

E então, sim, eles não a percebem como do seu lado, mas, você sabe, seria um pouco de um problema fazer uma operação de mudança de regime lá, então eles não iriam fazer isso, a menos que houvesse alguma oportunidade real, sabe, se houve alguém que era poderoso lá e estava tentando um golpe de estado, eles definitivamente considerariam isso.

Edição:
Reprodução CEPR

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