Buscar
Crônica

A democratização do galinheiro

Antes que outra providência fosse tomada, houve uma revolução

Crônica
14 de fevereiro de 2026
04:00

Eu e meu marido, Arpad, somos sitiantes experimentais. Embora ele trabalhe com agricultores há mais de 20 anos, nós nos mudamos definitivamente para uma propriedade rural na Área de Proteção Ambiental – Capivari-Monos, em Parelheiros, em março de 2020, impulsionados pela pandemia. Meu consultório de psicanálise mudou-se de Pinheiros para a internet e meu setting passou a ter como pano de fundo o canto de cigarras.

Já frequentávamos o sítio, compartilhado com um casal de sócios, desde 2013. Lá, tentamos plantar morangos e fracassamos; plantamos cúrcuma e obtivemos êxito, bem como ervas, amoras e mirtilos, que são a base da alimentação dos nossos filhos de sete e cinco anos. Também remanejamos bromélias na vizinhança de samabaiaçus velhíssimos, espalhamos mudas de jussara e plantamos vetiver no entorno do lago, porque somos metidos a paisagistas. Construímos uma casa de vidro no meio da mata com 90% dos materiais adquiridos em depósitos de demolição com nomes irresistíveis, como Açobras e Duvidros.

No entanto, de longe, a empreitada mais divertida nessas terras úmidas no extremo sul da cidade de São Paulo foi o nosso galinheiro. Primeiro, era apenas um cercado de tela de sombrite, com um pinheiro no meio. As galinhas e os galos ornamentais – que pareciam saídos do cabeleireiro –  foram trazidos pelo primo agrônomo do meu marido. Durante o dia, eles passeavam livremente pelos canteiros de amora e verdura e, ao entardecer, empoleiravam-se nos galhos da árvore para dormir. Parecia tudo ótimo até o crepúsculo. No breu, havia uma ameaça constante: os morcegos. Volta e meia, aparecia uma galinácea caída, com a cloaca ensanguentada, para tornar sinistra a manhã. Morcegos atacam os fundilhos mesmo. São impiedosos.

A fim de proteger as aves dos ataques vampíricos, um galinheiro foi erguido. Ripas de pinheiro, telhas de segunda mão e janelas descartadas em caçambas compuseram a obra que ficou digna das coleções bucólicas do Pinterest. Dentro, o primo agrônomo deu as instruções: o poleiro seria uma escada que cortaria transversalmente a construção, com comedouro e bebedouro ao lado no chão. Galos e galinhas dormiriam empoleirados em níveis. Assim foi feito. Parecia tudo lindo. Até o crepúsculo.

Quando se recolhiam para dormir, os galos (havia mais galos do que o recomendado; os morcegos vitimaram mais as galinhas) disputavam o degrau mais alto da escada. Eram sangrentas brigas de galo. Um dia, um galo branco se ergueu da multidão e decretou, em galinês, que o topo da escada lhe pertencia e passou a oprimir violentamente os demais. De manhã, uma multidão circulava em frangalhos pelo canteiro e esse tal que cantara de galo foi ficando isolado. O reinado durou uns meses e foi se agravando. Os outros galos passaram a ter dificuldade para acessar o comedouro, pois o tal queria tudo para si.

“O que fazer?”, perguntávamo-nos. Consultamos livros. Colocamos mais galinhas. Não adiantou. Antes que outra providência fosse tomada, houve uma revolução. Os galos oprimidos se reuniram e deram uma sova no opressor, devolvendo-o ao lugar dele: um entre outros. Depois de deprimir, ele aceitou o rebaixamento. Todavia, as brigas pelo topo da escada continuaram; a diferença é que o topo do falo, digamos assim, passou a circular. Cada noite, um reinado.

Até que Arpad teve uma ideia simples: colocar a escada-poleiro na horizontal. Voilà! Os galináceos não pareceram notar a diferença, mas ela foi implacável. Não houve mais briga pelo topo, pois o topo já não existia. Verificamos diversas vezes, incrédulos, que ficamos com a transformação social decorrente da reforma arquitetônica. No pôr do sol, eles se recolhiam e lá íamos nós espiar. Abríamos a porta com cuidado. Pela fresta, víamos galinhas e galos em paz, na horizontal. Eles nos olhavam cheios de pena, como quem tira os pepinos dos olhos e pergunta: “pois não? Por que perturbam nosso sono tranquilo?” Um sono na horizontal com seus semelhantes. A democracia estava instaurada.  

Edição:

Essa crônica foi publicada numa parceria entre a Escola de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz e a Agência Pública.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 203 Carnaval: a expressão popular que sobrevive através do tempo

Eliana de Lima relembra sua trajetória no samba e reflete sobre as transformações da música ao longo das décadas

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Faça parte

Saiba de tudo que investigamos

Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Artigos mais recentes