Buscar
Nota

Como vitória da direita pode afetar imigrantes brasileiros em Portugal

19 de maio de 2025
19:10
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A vitória da coligação de centro-direita e o aumento de 383%, desde 2022, no número de assentos ocupados pela extrema direita no parlamento de Portugal devem afetar os imigrantes no país, avaliam especialistas ouvidos pela Agência Pública. Além de possíveis mudanças nas políticas migratórias, o endurecimento de um discurso antimigratório pode vulnerabilizar os brasileiros.

Na véspera do início oficial da campanha para as eleições gerais, o ministro da Presidência do governo português, António Leitão Amaro, anunciou a notificação de cerca de 18 mil imigrantes em situação irregular para que deixassem o país voluntariamente no prazo de 20 dias, alegando necessidade de regularizar a situação migratória e reduzir a sobrecarga da Agência para a Imigração e Mobilidade (AIMA).

Entretanto, para a presidente da Casa do Brasil de Lisboa, Ana Paula Costa, as notificações tinham como pano de fundo fazer um aceno à extrema direita em meio a campanha eleitoral: “Também é uma forma de chamar a atenção”.

“A gente vai ver, com certeza, o endurecimento de políticas migratórias em Portugal”, avalia o diretor do Laboratório de Estudos e Migratórios da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Igor José de Renó Machado. “O Chega é um partido claramente anti-imigração, então a chance de qualquer projeto que beneficie ou flexibilize regras de imigração é mínima”, explica. O Chega representa a extrema direita no país europeu.

Os brasileiros representam 35% dos migrantes em Portugal. No entanto, segundo os especialistas, eles não devem ser os mais afetados, graças ao longo histórico das relações diplomáticas entre os dois países. “A relação do Brasil com Portugal é diferente de qualquer relação do Brasil com outros países para onde os imigrantes brasileiros vão. O barulho que o governo brasileiro faz em relação aos próprios imigrantes em Portugal tem muito eco na sociedade portuguesa”, explica Machado.

Além disso, o pesquisador aponta que o partido Chega evita citar os brasileiros ao defender políticas anti-imigratórias, “porque, entre a população brasileira, o apoio ao Chega é grande”.

“Há uma série de documentos legais que, frente a outras nacionalidades, privilegiam os brasileiros no campo da migração, como tratado de amizade e a CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa]. No entanto, para um grupo de imigrantes, principalmente asiáticos e mulçumanos podem acontecer mudanças”, explicou o professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), Duval Magalhães Fernandes, que estuda o tema.

As urnas apuradas no último domingo (18) deram a vitória à coligação de centro-direita Aliança Democrática (AD), liderada pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, retirado do cargo em março devido a acusações de conflito de interesse envolvendo uma empresa de propriedade de sua família, que tinha contratos de concessão a serem renovados pelo governo.

Já o partido de extrema direita Chega saltou de 12 assentos no parlamento em 2022 para 50 nas eleições de 2024 e atingiu os atuais 58 no pleito do último fim de semana, igualando-se ao número de cadeiras do tradicional Partido Socialista (PS), ligado à esquerda.

Efeitos dos discursos vencedores

A retórica de partidos de direita sobre imigração afeta o cotidiano dos imigrantes de forma direta e indireta. “O problema do discurso anti-imigração é o que ele autoriza. [Esse discurso] tem um efeito prático e simbólico na vida das pessoas”, afirma a presidente da Casa do Brasil em Lisboa.

Costa avalia que o anúncio e a implementação de medidas anti-imigratórias têm como consequência o aumento da “vulnerabilidade” e “insegurança” das pessoas, além de alimentar a segregação e uma diferenciação entre “nós e eles” que busca relacionar os migrantes a criminosos. “As pessoas no cotidiano se sentem mais permissivas a serem racistas e xenófobas”, complementa.

“Começa a ter agressividade. Você [o migrante] se sente de certa maneira um pouco fragilizado nas relações, sabendo que a qualquer momento você pode encontrar uma pessoa que vai te destratar na rua ou [cometer] algum ato de violência”, reforça Magalhães. “Quando se cria um ambiente hostil aos imigrantes, as agressões não escolhem a nacionalidade”, finaliza o pesquisador.

Edição:

Notas mais recentes

Corrida Eleitoral: sabatinas eleitorais continuam enquanto Congresso volta de recesso


Senado dos EUA aprova Daniel Perez antes de aval do Brasil para vaga de embaixador


Indústria de ultraprocessados tenta impedir combate à obesidade, diz diretor-geral da OMS


Escala 6×1, PEC da Segurança, minerais raros: o que o Congresso pode votar durante eleição


Corrida eleitoral: registro de candidaturas termina nesta semana


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas
Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas
Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede
Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal