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Campanha presidencial: um “aceno” às mulheres é suficiente?

“Espinha dorsal” e “alicerce”: os acenos de Lula e Flávio Bolsonaro às mulheres em seus primeiros discursos de campanha

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19 de agosto de 2026
12:00

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A eleição presidencial deste ano será a primeira do século sem mulheres nas chamadas “chapas competitivas”, ou seja, nas chapas de partidos que têm representatividade no Congresso Nacional. E isso é preocupante, sobretudo com o número de feminicídios batendo recordes no Brasil pelo quarto ano seguido, com essa nova leva de governantes autoritários e masculinistas no mundo e com o crescimento vertiginoso da machosfera. Além do que, vamos combinar, somos 51,5% da população do país. 

É feio ser uma eleição presidencial só de homens no topo, e os candidatos do topo sabem que é feio. 

Tanto, que Lula e Flávio Bolsonaro – que, segundo a última pesquisa eleitoral da BTG/Nexus, têm respectivamente 41% e 36% das intenções de voto no primeiro turno – fizeram acenos às mulheres em seus primeiros discursos de campanha realizados neste domingo, 16. 

Lula, em São Bernardo do Campo, lembrou da mãe que criou 8 filhos sozinha e disse que os homens precisam respeitar as mulheres como companheiras e não como escravas ou cidadãs de segunda categoria. Agradeceu a Deus por sua primeira esposa Marisa e pelo apoio de Janja. “Quero dizer, Janjinha, como Deus é justo. Eu, quando a Marisa morreu, eu pensei que era o fim da minha vida. Porque eu tinha vivido com a Marisa há 45 anos. Eu achei que o mundo tinha acabado. Mas, da mesma forma que Deus levou a Dona Marisa, Deus me trouxe você para ajudar a continuar nessa luta e continuar vencendo as batalhas que nós temos que vencer”. Disse também às mulheres do país que não baixem a cabeça nunca “porque nós homens precisamos aprender a respeitar vocês como companheiras, não como serviçais. Não como escravas, não como cidadãs de segunda categoria. Levante a cabeça porque Deus fez a gente igual. Não é possível que a gente não termine com essa violência”. E defendeu que “o tratamento respeitoso à mulher” seja ensinado nas escolas. 

Na convenção do PT em São Paulo no dia 02, Lula já havia feito um mea culpa:  “antes de eu falar, eu quero fazer uma crítica a mim. Porque não é possível que a gente tenha esquecido que, no principal evento da nossa campanha, não tenha colocado uma mulher para falar”. Então chamou a companheira Janja ao microfone, em nome das pessoas que participam do Pacto contra o Feminicídio – aliança inédita entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário para integrar ações de combate à violência letal contra mulheres no país, lançado no começo deste ano. A deputada federal Benedita Silva, candidata ao Senado pelo PT para o Rio de Janeiro, também discursou na ocasião e no lançamento da campanha da Vila Euclides. 

No dia 16, Janja fez um breve discurso, homenageando Marisa e as mulheres que não estavam no “chão de fábrica” em 1979 mas que serviram de “alicerce” para que seus maridos pudessem lutar por melhores salários sob a liderança de Lula. “Essas mulheres lideradas por dona Marisa foram uma força importante e são pouco lembradas. Sem a presença delas, presidente, talvez essa história toda tivesse sido diferente. A estrela da nossa bandeira, do nosso partido, traz à nossa memória o cuidado e o carinho de dona Marisa; foi ela quem bordou a primeira bandeira do PT e é a ela que eu dedico toda a minha admiração”, disse a primeira-dama.  

Em cima de um carro de som no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro acenou às mulheres em palavras e códigos. Também passou o microfone à esposa Fernanda, que disse que se Flávio for presidente, as mulheres “vão ter mais oportunidades e segurança” e que “quando as mulheres vencem, a família toda vence”. Logo após, Fernanda escreveu com batom nas costas do marido: “O Brasil vai vencer”. 

O batom virou um símbolo importante para a extrema direita brasileira desde os atos golpistas de janeiro de 2023, quando Débora Rodrigues dos Santos, que ficou conhecida como a “Débora do Batom” escreveu a frase “perdeu mané” na estátua “A Justiça” em frente ao Supremo Tribunal Federal. Michelle Bolsonaro chegou a discursar com um batom em riste em manifestações em 2025 e a gravar vídeo com o objeto pedindo anistia dos golpistas. 

Depois do ato simbólico – repare que a frase foi escrita nas costas do candidato, não no peito – Flávio disse à esposa que ela era sua “espinha dorsal” e que sem ela  “não conseguiria ficar de pé todos os dias e enfrentar as dificuldades e os desafios para trabalhar pela nossa pátria amada Brasil”.  Mais um simbolismo: frequentemente as mulheres são mencionadas em cultos evangélicos como a “coluna” da família e da casa, alguém que não tem o protagonismo mas é importante como alicerce nos bastidores. Postura que a própria Michelle Bolsonaro também assumiu durante o governo de seu marido. 

Nada é por acaso com a família que entende muito bem a linguagem das redes sociais e os símbolos que tocam seus seguidores.

Mencionando o alto número de feminicídios, Flávio aproveitou para atacar Lula, dizendo que as mulheres foram abandonadas e “assassinadas por vagabundo covarde pelo simples fato de ser mulher” sob seu governo. Adotando tom punitivista e insistindo em uma ideia absurda, falou que vai proteger as mulheres do Brasil e que abusador e estuprador de mulher e criança vai “mofar na cadeia e só vai sair depois que fizer castração química”. Como se o alto número de estupros e violência de gênero estivessem relacionados à biologia do macho e pudessem ser “desligadas” quimicamente. Mas essa é toda uma outra história, para uma outra coluna.

A realidade agora é mais simples e mais dura. Em uma eleição muito importante para a vida das mulheres, seguimos do lado de fora. Fora do topo e das “chapas competitivas”. Quando convém, nos chamam de “base”, “coluna”, “alicerce”, “fortaleza doméstica”, sempre como força que sustenta um outro. Mas sustentar não é decidir. 

O aceno está lá. 

O lugar de mando, não.

Ricardo Stuckert
Fernando Frazão/Agência Brasil

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