Buscar
Nota

Aeronáutica impede voos de entidade Yanomami que iriam comprovar volta do garimpo

17 de janeiro de 2024
13:38
Este artigo tem mais de 2 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A Aeronáutica se recusou a autorizar que a principal entidade representativa dos indígenas Yanomami, a HAY (Hutukara Associação Yanomami), pudesse fazer sobrevoos que iriam denunciar a extensão e a volta do garimpo na terra indígena. O primeiro pedido foi feito em 21 de dezembro e reiterado diversas vezes desde então, sem resposta positiva. Os sobrevoos estavam marcados para ocorrer de segunda-feira (15) a hoje (17). Sem a autorização, o trabalho foi cancelado.

Ofício dirigido ao chefe do Estado-Maior da Aeronáutica solicitando autorização para sobrevoo de monitoramento na região

A Agência Pública procurou o Comando da Aeronáutica nesta segunda-feira para que explicasse sua posição. O órgão, contudo, não encaminhou resposta até a publicação deste texto.

A recusa da Aeronáutica coincide com a volta de inúmeros voos ilegais e clandestinos de garimpeiros entrando e saindo na terra indígena quase um ano depois que o Ministério da Saúde declarou uma emergência sanitária e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ordenou a operação de retirada dos garimpeiros. A atividade dos aviões garimpeiros é uma afronta direta ao bloqueio do espaço aéreo que está sob responsabilidade da própria Aeronáutica.

Outros sobrevoos na Terra Indígena Yanomami foram liberados nos últimos meses pela Aeronáutica. No ano passado, uma comissão externa dominada por senadores da direita pró-garimpo sobrevoou pelo menos duas vezes a terra indígena com apoio dos próprios militares. Diversos voos para dentro do território foram autorizados para comitivas de integrantes do governo federal em Brasília.

No dia 3 de janeiro, a HAY dirigiu um ofício ao chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, o tenente-brigadeiro do ar João Tadeu Fiorentini, que ocupa o cargo desde 23 de dezembro de 2022, ainda no governo de Jair Bolsonaro. Mesmo após a posse de Lula, Fiorentini permaneceu na chefia do EMAER. Sediado em Brasília, o EMAER tem por finalidade “elaborar o planejamento, de mais alto nível, para o cumprimento da missão da Aeronáutica”, além de assessorar o comandante da Aeronáutica.

A Pública também indagou à Aeronáutica o motivo pelo qual o EMAER seria o responsável por conceder uma autorização de voo, mas igualmente não houve resposta.

Por que isso importa?

  • O presidente Lula determinou, há um ano, a retirada do garimpo ilegal com o bloqueio aéreo da região
  • Cabe à Aeronáutica o controle aéreo na região, que teriam novos voos ilegais, também segundo denúncia dos Yanomami

A HAY informou ao chefe do EMAER que a finalidade dos sobrevoos, a serem feitos em parceria com o Greenpeace Brasil e o ISA (Instituto Socioambiental), era “verificar a situação das áreas afetadas pelo garimpo ilegal”. “Estão previstos sobrevoos nas regiões de Parima, Auaris, Waikás, Palimiu, Uraricoera, Apiaú, Alto Catrimani, Baixo Catrimani, Aracaçá, Homoxi, Xitei, Papiu e Alto Mucajaí. É importante frisar que não haverá pouso em nenhuma comunidade, nem atividade de solo dentro do território”, informou a HAY no ofício assinado por Dário Yanomami, vice-presidente da HAY e filho do maior líder Yanomami, Davi Kopenawa.

Sem qualquer resposta do EMAER, quatro dias depois, a HAY voltou a pedir uma manifestação, lembrando que a autorização era necessária “para organizar o avião, tripulantes e passageiros” em tempo hábil. Em 9 de janeiro, o EMAER respondeu que o documento da HAY “deu entrada no nosso sistema no dia 04/01/2024 o qual [sic] já está sendo tratado na subchefia”.

A entidade dos Yanomami procurou o EMAER depois que a Aeronáutica alegou que aquela era a única instância responsável por tal autorização. Em 21 de dezembro passado, data do primeiro pedido de autorização, a HAY havia buscado o DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo). Vinculada ao Comando da Aeronáutica, a competência do DECEA, como seu próprio nome diz, é justamente “planejar, gerenciar e controlar as atividades relacionadas com o controle do espaço aéreo” no país. O DECEA alegou que a decisão cabia ao EMAER.

A HAY também procurou o MPI (Ministério dos Povos Indígenas) e a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), que informaram que a autorização de voos cabia à Aeronáutica.

Edição:

Notas mais recentes

Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Senado deve avaliar PEC do fim da escala 6×1 no Plenário após primeiro turno das eleições


Aposta online: 12 dos 17 parlamentares da Bancada das Bets seguem mais 4 anos no Congresso


Recordar é votar: 7 dos 13 investigados pela CPI da Covid saem eleitos das urnas


Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Processo da Advocacia da União contra bets tem 14 empresas que passaram impunes por CPI

|

Ação pede R$ 1 bilhão por danos coletivos; parte das empresas estava nos documentos da CPI, que “terminou em pizza”

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

|

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

|

Ex-Forças Armadas governarão dois estados e ocuparão oito cadeiras no Congresso, sendo quatro no Senado
Vânia Borges do Amaral e presidente Lula

O tempo das bets e a hora da luta: a perda familiar que não está em jogo no STF

|

Mãe que perdeu filho para bets fala de emoção por MP que proíbe apostas no Brasil na véspera da suspensão de plataformas
Brasília (DF), 04/10/2026 - Pessoas chegam para votação das Eleições 2026 na Unieuro

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

|

O 1º turno puniu apenas parte dos políticos ligados a Vorcaro, poupou outros e deixou Flávio Bolsonaro para o 2º turno
Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.

Virada de Flávio no 1º turno: escândalos podem ter favorecido desejo antissistema

|

Para especialistas, campanha nas redes, voto útil e governo Lula sem apelo renovado também colaboraram para resultado

Quando o trabalho impede o voto

|

De longas jornadas a quem decide fazer hora extra, trabalhadores estão entre os milhões que ficam sem votar
Imagem feita com auxílio de IA mostra o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o cartaz do Filme Dark Horse

Why a Bolsonaro biopic is at the center of Brazil’s presidential election

|

A Hollywood-style film about Jair Bolsonaro is wrapped up in Brazil’s biggest bank fraud probe

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição