Buscar
Nota

Assassinatos de quilombolas quase dobraram no governo Bolsonaro, aponta estudo

17 de novembro de 2023
11:31
Este artigo tem mais de 2 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A média anual de quilombolas assassinados de 2018 a 2022, que inclui o último ano do governo de Michel Temer e os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro, quase dobrou em relação ao período de 2008 a 2017, aponta um estudo divulgado nesta sexta-feira (17) pelas organizações não governamentais Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) e Terra de Direitos.

No período analisado de cinco anos (2018-2022) pela segunda edição do levantamento “Racismo e violência contra quilombos no Brasil”, de 163 páginas, foram assassinados 32 quilombolas (média anual de 6,4 casos ao ano). Nos dez anos anteriores, o número total havia sido de 36 (média anual de 3,4). Os dados do período anterior a Bolsonaro foram distorcidos pelo ano de 2017, também durante o governo Temer, quando morreram 18 quilombolas em apenas 12 meses – destacaram-se duas chacinas, uma no Quilombo Iúna (BA), com seis mortos, e outra no Quilombo Lagoa do Algodão (AL), com quatro mortos.

Dados sobre os 32 homicídios registrados de 2018 a 2022 mostram que quase a metade dos mortos foi de “lideranças reconhecidas pelas comunidades” (15 casos); em 10 das 26 comunidades em que esses crimes ocorreram não há processo de regularização do território aberto no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Os números indicam, segundo a Conaq e a Terra de Direitos, que territórios à espera de regularização, a ser definida pelo governo federal, estão mais vulneráveis à violência.

De acordo com as entidades, conflitos fundiários foram a motivação de 43% dos 32 crimes analisados. Foi o caso de Juscelino Fernandes Diniz e de Wanderson de Jesus Rodrigues Fernandes, pai e filho que viviam no Quilombo Cedo, em Arari, no Maranhão, o estado campeão nos assassinatos, com nove casos, seguido por Bahia, Pará e Pernambuco, com quatro homicídios cada um. Em 5 de janeiro de 2020, Juscelino e Wanderson foram assassinados em casa, na frente da família, por um grupo de pistoleiros encapuzados. No ano anterior ao crime, pai e filho haviam sido presos depois que retiraram cercas elétricas instaladas no território por invasores e que impediam o livre acesso à comunidade.

“Dentre os 269 quilombos pesquisados, 190 (71%) registraram algum tipo de conflito territorial promovido por diferentes atividades econômicas, por obras de infraestrutura, ou atos administrativos dos órgãos municipais, estaduais ou federal que resultam em sobreposição aos territórios”, apontou o estudo. “Conflitos envolvendo latifúndios atingem mais de um terço (37%) dos quilombos analisados. Especulação imobiliária ou turismo e as atividades do agronegócio também impactam grande parte das comunidades que registraram a ocorrência de conflito.”

Segundo as entidades, que citam um levantamento da Fundação Palmares, há hoje 1.805 processos inconclusos em tramitação no Incra para regularização de territórios quilombolas. A violência contra quilombolas no ano de 2023 deverá continuar alta. De janeiro até a semana passada, pelo menos onze assassinatos ocorreram em territórios quilombolas ou vinculados à luta quilombola. 

O caso de maior repercussão foi o assassinato de Maria Bernadete Pacífico Moreira, a Mãe Bernadete, de 72 anos, em 17 de agosto passado, em uma comunidade na região metropolitana de Salvador (BA). Nesta quinta-feira (16), a Justiça acolheu a denúncia apresentada pelo Ministério Público contra cinco homens. O MP concuiu que o assassinato ocorreu porque Bernadete “lutava contra o tráfico de drogas na região”. 

Nove casos de feminicídio

O levantamento relativo a 2018-2022 observa ainda que “a garantia do território é essencial para a amenização da violência resultante de conflitos fundiários”, mas observa que também “é preciso avançar na efetivação de outras políticas públicas para proteção das famílias”. A violência de gênero, por exemplo, é constante em todas as fases do processo de titulação”.

Dos 32 assassinatos, pelo menos nove foram identificados como feminicídios. As vítimas tinham de 19 a 62 anos. Só em 2019 ocorreram cinco casos do gênero. A liderança quilombola Elitânia de Souza da Hora, por exemplo, foi morta a tiros em 27 de novembro daquele ano após sair de uma aula na Faculdade de Serviço Social na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia). As suspeitas da investigação e da família recaem sobre um ex-companheiro de Elitânia que chegou a ser preso logo depois do crime, conforme a imprensa noticiou na época.

Edição:

Notas mais recentes

Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Senado deve avaliar PEC do fim da escala 6×1 no Plenário após primeiro turno das eleições


Aposta online: 12 dos 17 parlamentares da Bancada das Bets seguem mais 4 anos no Congresso


Recordar é votar: 7 dos 13 investigados pela CPI da Covid saem eleitos das urnas


Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Processo da Advocacia da União contra bets tem 14 empresas que passaram impunes por CPI

|

Ação pede R$ 1 bilhão por danos coletivos; parte das empresas estava nos documentos da CPI, que “terminou em pizza”

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

|

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

|

Ex-Forças Armadas governarão dois estados e ocuparão oito cadeiras no Congresso, sendo quatro no Senado
Vânia Borges do Amaral e presidente Lula

O tempo das bets e a hora da luta: a perda familiar que não está em jogo no STF

|

Mãe que perdeu filho para bets fala de emoção por MP que proíbe apostas no Brasil na véspera da suspensão de plataformas
Brasília (DF), 04/10/2026 - Pessoas chegam para votação das Eleições 2026 na Unieuro

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

|

O 1º turno puniu apenas parte dos políticos ligados a Vorcaro, poupou outros e deixou Flávio Bolsonaro para o 2º turno
Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.

Virada de Flávio no 1º turno: escândalos podem ter favorecido desejo antissistema

|

Para especialistas, campanha nas redes, voto útil e governo Lula sem apelo renovado também colaboraram para resultado

Quando o trabalho impede o voto

|

De longas jornadas a quem decide fazer hora extra, trabalhadores estão entre os milhões que ficam sem votar
Imagem feita com auxílio de IA mostra o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o cartaz do Filme Dark Horse

Why a Bolsonaro biopic is at the center of Brazil’s presidential election

|

A Hollywood-style film about Jair Bolsonaro is wrapped up in Brazil’s biggest bank fraud probe

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição