Buscar
Nota

Com desmatamento no Cerrado em alta, governo revela como quer frear a destruição

29 de novembro de 2023
12:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Para o governo Lula, a receita para frear o desmatamento no Cerrado passa por uma gestão integrada dos recursos naturais com governos dos estados e por brecar o avanço descontrolado da agropecuária. É o que revela a versão final do novo plano de combate ao desmatamento no bioma, o PPCerrado, oficialmente lançado nesta terça (28) em evento na sede do Ministério do Meio Ambiente e mudança do Clima.

Acompanhado presencialmente pela Agência Pública, o evento também serviu para o anúncio dos dados oficiais de desmatamento no bioma entre agosto de 2022 e julho de 2023, produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Ao todo, o Brasil perdeu 11 mil km2 de áreas nativas no bioma neste período – 75% do total foi devastado na grande fronteira agrícola do país, situada entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, no chamado Matopiba.

Desde o governo de transição havia preocupações com o futuro do Cerrado no governo Lula, como reportado à época pela Pública. O que se viu no evento desta terça reforça – ao menos publicamente – o desejo da atual gestão em unir ambientalismo e agronegócio em torno de uma produção agrícola mais sustentável no bioma.

Governo quer aumentar proteção das águas do Cerrado

Segundo o que foi apresentado no evento, para o governo há seis pontos fundamentais para o sucesso do PPCerrado: 

  1. ampliar a fiscalização ambiental, presencial e remota;
  2. aumentar a rastreabilidade de produtos agropecuários; 
  3. criar novas Unidades de Conservação – ao menos 45 processos estariam em estudos no Meio Ambiente; 
  4. integrar dados estaduais e federais de autorizações para desmatamento e sanções por desmates ilegais; 
  5. revisar normas que permitem aos estados autorizarem desmatamentos; 
  6. vincular a concessão de outorgas de uso de água à conservação de Cerrado nativo em terras privadas.

Com tais medidas, o governo busca também proteger os recursos hídricos do bioma – mais conhecido como “berço das águas” do Brasil, por ter nascentes de 8 dos 12 principais rios do país. Mas o Cerrado tem sofrido com um ‘libera-geral’ de outorgas de água para uso do agronegócio, como mostrado pela Pública em 2021.

“Fica cada vez mais evidente a importância do Cerrado no ciclo hidrológico do país, então nós temos de pensar em modo de integrar os dados e as gestões ambiental, hídrica e territorial”, afirmou à Pública o secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente, André Lima.

De acordo com o secretário extraordinário, a ideia é reunir a Agência Nacional de Águas, o Ministério do Desenvolvimento Regional, atual responsável por gerir a política de recursos hídricos do governo federal, e os governos estaduais neste novo modelo de gestão no Cerrado.

“Os estados são os grandes responsáveis pelas autorizações de desmatamento e pelas emissões de outorga [de uso de água], então precisamos integrar e estudar nossas bacias hidrográficas, nascentes e aquíferos, tudo para manter uma produção hídrica suficiente para abastecer populações, a agropecuária e a produção energética no país”, disse Lima.

O papel do agronegócio na destruição

Na ótica do Meio Ambiente, uma série de fatores explica o aumento da devastação no bioma: de um modo geral, todos guardam relação com o avanço do agronegócio no Cerrado.

Entre os fatores de risco, destaque para a crescente especulação fundiária e a dificuldade de se monitorar quais desmatamentos são irregulares, considerando o fato que governos estaduais autorizam grandes supressões de Cerrado nativo sem os devidos estudos.

Além disso, a devastação também se explica pela gestão ineficaz das águas e pela falta de um manejo adequado do fogo no Cerrado.

O fato de existirem poucas unidades de conservação integral no bioma, como comunidades quilombolas e terras indígenas já tituladas, também influencia em sua destruição – algo já destacado em evento realizado na Câmara dos Deputados em setembro, como relatado na coluna Entrelinhas do Poder.

Japão quer investir em recuperação de pastagens no Cerrado, diz Agricultura

Além da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede), também compareceram ao evento desta terça o ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira (PT), e representantes dos ministérios da Agricultura, Casa Civil, Ciência e Tecnologia.

Veio do representante da Agricultura a promessa de angariar recursos internacionais para a recuperação de áreas degradadas no Cerrado. Segundo o assessor especial do ministério da Agricultura, Carlos Ernesto Augustin, há tratativas com a Agência Japonesa de Cooperação Internacional (JICA) para a assinatura de um acordo para a recuperação de terras degradadas no Cerrado.

“Nossas tratativas com a JICA são claras: o pré-requisito número um é que não haja nenhuma área com problemas fundiários entre aquelas beneficiadas. Serão recursos voltados somente para áreas de pastagens já consolidadas e, de preferência, degradadas”, afirmou à Pública o assessor da Agricultura.

“Estamos elaborando todos os detalhes do plano, para que se estimule a produção de bioinsumos, captura de carbono, matéria-verde, como todos os certificados trabalhistas em dia. Será um processo bem rigoroso, para que tudo que for produzido nessas áreas tenha o selo de sustentabilidade”, disse ainda Augustin.

Vale lembrar que esta mesma agência do governo japonês concedeu, ainda nos anos 1980, milhões de dólares em investimentos agrícolas para tornar o Cerrado um polo de produção de grãos e alimentos. Uma das consequências dos aportes financeiros foi o aumento dos conflitos por terras e grilagens na região – especialmente na área que compõe o Matopiba.

Edição:

Notas mais recentes

Quem é Fernando Cerimedo, preso em investigação sobre ataque a tiros à ex-companheira


MPF move ação contra Renan e MBL por xingar indígenas do Pará no Instagram


Corrida eleitoral: Campanha começa com Lula em Minas Gerais, Flavio desmarca Juiz de Fora


Corrida Eleitoral: sabatinas eleitorais continuam enquanto Congresso volta de recesso


Senado dos EUA aprova Daniel Perez antes de aval do Brasil para vaga de embaixador


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas
Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas