Buscar
Nota

Cerrado: Plano de combate a desmatamento aposta em ampliar terras indígenas e quilombolas

14 de setembro de 2023
13:13
Este artigo tem mais de 3 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

“A expansão das Unidades de Conservação e o reconhecimento dos direitos originários dos povos indígenas e comunidades tradicionais, com destaque aos quilombolas”, é o caminho para “reduzir o desmatamento” no Cerrado. É o que diz o novo Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no bioma, lançado na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (13), na semana alusiva ao Dia Nacional do Cerrado, 11 de setembro. 

Após ser engavetado durante todo o governo Bolsonaro, a nova versão do plano está disponível para consulta pública pelos próximos 30 dias. Segundo o documento, “proporcionalmente, o nível de conservação fornecido pelas Terras Indígenas foi muito mais significativo no Cerrado” do que em Unidades de Conservação – que, por sua vez, também apresentam índices baixos de desmatamento, “7,45% do total registrado em 2022”, restrito a poucas unidades, de acordo com o ministério. 

“Apenas 0,72% do desmatamento registrado no último ano está em Terras Indígenas, que abrangem, por sua vez, 4,5% da área do bioma. Esse dado reforça o papel dos povos indígenas como guardiões não só da Amazônia, mas também do Cerrado”, segundo o plano, chamado de PPCerrado pelo governo.

Infográfico mostra extensão do bioma cerrado, com a marcação dos territórios quilombolas demarcados
Presença de população quilombola nos municípios do Cerrado e Territórios Quilombolas demarcados

Especialistas reforçam urgência em reverter devastação

A Agência Pública conversou com um dos responsáveis pela elaboração do material, o diretor na Secretaria Extraordinária de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial Raoni Rajão. Ele lembrou que metade do desmatamento no Cerrado é ilegal, e o restante, por vezes, é liberado por secretarias ambientais de estados e municípios sem os devidos estudos.

“Se não conservarmos o que ainda resta de Cerrado nativo, não serão somente as populações locais que sofrerão. O próprio agronegócio vai sofrer com desabastecimento de água, o mesmo setor que lidera a conversão do bioma em soja”, disse. O Código Florestal permite altos níveis de desmatamento legal no bioma – a regra prevê que apenas 20% da área de qualquer propriedade no Cerrado seja conservada.

Segundo Rajão, o código tem sido “letra morta” na prática, especialmente na fronteira agrícola do Matopiba, entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde mais se devasta o bioma.

“Nesta versão do PPCerrado lembramos que dois terços da expansão da soja no Matopiba ocorreu sobre áreas de vegetação nativa. Cerca de um terço de toda a área de soja na região tem favorabilidade média ou baixa para esta cultura, ou seja, não é um desmatamento para produzir comida, mas para especulação imobiliária, para revenda de terras no mercado”, afirmou.

Pesquisadora do Cerrado há mais de 30 anos, a professora da Universidade de Brasília (UnB) Mercedes Bustamante, também participou do evento e reforçou a necessidade de maior empenho na proteção do bioma. “Essa proteção demanda uma articulação de políticas em vários níveis – tanto na fiscalização e monitoramento, quanto no estímulo a práticas sustentáveis e interação entre os entes federativos”, disse à Pública, logo após o evento.

“Espero que o PPCerrado tenha a ambição necessária para o enfrentamento do problema. Não podemos esperar mais, não temos mais tempo para errar. Temos de ser certeiros, inclusive na escala das ações futuras, porque não se trata mais de uma ação paliativa, de contenção de danos: temos de ter ações de cura”.

Mercedes Bustamante, professora da UnB
Edição:
Divulgação Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima

Notas mais recentes

Lula discursa na ONU e Conselho do Ministério Público avalia ações de Gonet no caso Master


Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula


STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

O clã dos Cury

|

Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, o 3º colocado nas pesquisas vem de uma família há décadas no poder
Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições
Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista
Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF
Câmeras Smart Sampa

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas