Buscar
Nota

Resgate de trabalhadores escravizados no campo sobe 44% e atinge pico em 10 anos, diz CPT

10 de outubro de 2023
11:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A cada dia do primeiro semestre de 2023, quase oito pessoas foram resgatadas de trabalho escravo (análogo à escravidão) no campo, em contexto de conflitos rurais. No primeiro semestre deste ano, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o total foi de 1.408 pessoas salvas desta condição, a maior marca para os seis primeiros meses do ano na última década (2014-2023) — e um aumento de 44% dos salvamentos em relação ao mesmo período do ano passado.

Das 102 ações de resgate realizadas neste ano, envolvendo autoridades policiais e ministérios públicos, a maioria das violações de condições de trabalho foram flagradas na indústria sucroalcooleira, da cadeia produtiva da cana-de-açúcar. Na sequência, aparecem lavouras permanentes, agronegócio e mineração, desmatamento, produção de carvão vegetal e a pecuária.

“Constatamos recentemente uma queda desses casos na produção de cana, que chegou a praticamente zero (2020) e, por isso, criamos a falácia de que [o trabalho escravo setor] acabou. Mas não é verdade. E vimos esses dados ressurgirem, em 2021, 2022. E a questão é que casos assim não costumam afetar cinco, dez pessoas; o número é muito maior. Neste ano, em poucos casos em Goiás e São Paulo, já chegamos quase no total”, afirma à Agência Pública o coordenador da campanha “De olho aberto para não virar escravo”, frei Xavier Plassat, da CPT do Tocantins.

Conflitos atingiram mais de meio milhão de pessoas

Apenas em 2023, 973 conflitos no campo foram registrados pela CPT, 714 deles, disputas por terras — maior fatia do total levantado, seguido pelo trabalho análogo à escravidão rural. A estimativa é que 527 mil pessoas, de um total de 101.984 famílias, tenham sido atingidas durante esses episódios, direta ou indiretamente — de despejos a danos de bens materiais, roçados e até residências.

Os abusos no campo passam longe de incomuns e foram base para o desenvolvimento do Mapa dos Conflitos, uma parceria entre a Agência Pública e a CPT, que mostra como se relacionam os conflitos no campo com desmatamento, queimadas, violência, desigualdade, agrotóxicos, água e mineração na Amazônia Legal entre os anos de 2011 e 2020. Desde então, os crimes de ameaças de morte e tentativas de assassinato caíram na área, ainda que outros tipos de violência continuem em ascensão. 

A maior parte dos registros apontam o Pará como principal palco dos conflitos (327), seguido de Roraima (134) e Mato Grosso (45).

Indígenas e amazônicos são os mais atingidos

As violências sofridas no contexto dos conflitos do campo vão além das agressões e ameaças e passam até mesmo por contaminações dos alimentos — inclusive por agrotóxicos. Nesse cenário, os indígenas (38,2%), seguidos da população sem terra (19,2%), são as maiores vítimas dessa disputa.

Ainda aparecem com destaque posseiros, quilombolas, assentados e ribeirinhos. E do outro lado do conflito, em geral, aparecem os donos de terras, ligados ao agronegócio, e os próprios governos federal e estadual — em geral por permitir que áreas invadidas se mantenham sob domínio distinto de sua finalidade (a exemplo de garimpos ilegais em terras indígenas demarcadas ou não).

“Muitas vezes, as empresas querem impor algumas dessas concessões sem escutar as comunidades, então os povos reforçaram que quem manda nos territórios são eles, que agirão para impedir essas ondas de violência”, explica o agente da CPT no Pará, Francisco Alan Santos.

Edição:

Notas mais recentes

Últimas pesquisas e fim da propaganda eleitoral marcam semana antes do primeiro turno


Paulo Gonet segue no caso Master após decisão do Conselho do Ministério Público Federal


Nossa Senhora Aparecida: boato sobre padroeira domina redes e chega ao TSE


Deputadas de Minas pedem suspensão de decreto de Zema que beneficiou mineradora Cedro


Lula discursa na ONU e Conselho do Ministério Público avalia ações de Gonet no caso Master


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão
Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias
Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia
Antonio Cezar Correia Freire, conhecido como Cezinha de Madureira, é um jornalista, radialista e político brasileiro, filiado ao Partido Liberal. Deputado federal por São Paulo desde 2019

Valéria Linhares nega relação com Cezinha de Madureira mas foi sócia de seu filho em rádio

|

Deputado do PL e advogada são investigados por tráfico de influência em tribunais superiores e ligados a André Mendonça

Quilombolas lutam por território ancestral contra imobiliária no interior de São Paulo

|

Descendentes de escravizados disputam título de terra contra empresa e denunciam ação da polícia

Lula proíbe bets e cita relato de mãe que perdeu o filho para apostas ao assinar Medida

|

Vânia Borges, que perdeu o filho para as apostas online, esteve com o presidente após matéria da Pública com seu relato

Análise da Abin aponta extrema-direita no Brasil como “facilitadora” de ofensiva de Trump

|

Desde novembro de 2025 análises sobre risco “crítico” de interferência vem sendo produzidos pela agência de inteligência
Garimpo na Terra Indígena Baú em 2026.

Indígenas Kayapó se colocam em risco para bloquear garimpo ilegal na Terra Indígena Baú

|

Dois meses após operação da PF, número de invasores quadruplicou, dizem órgãos; há suspeita de participação de facções