AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

Na hora de fazer não gritou

Essa frase, ouvida por muitas mulheres na hora do parto, é uma das tantas caras da violência obstétrica que vitima uma em cada quatro mulheres brasileiras. Nossa repórter foi uma delas

Eu tive meu filho em um esquema conhecido por profissionais da área da saúde como o limbo do parto: um hospital precário, porém maquiado para parecer mais atrativo para a classe média, que atende a muitos convênios baratos, por isso está sempre lotado, não é gratuito, mas o atendimento lembra o pior do SUS, porém sem os profissionais capacitados dos melhores hospitais públicos nem a infraestrutura dos hospitais caros particulares para emergências reais. Durante o pré-natal, fui atendida por plantonistas sem nome. Também não me lembro do rosto de nenhum deles. O meu nome variava conforme o número escrito no papel de senha da fila de espera: um dia eu era 234, outro 525. Até que, durante um desses “atendimentos” a médica resolveu fazer um descolamento de membrana, através de um exame doloroso de toque, para acelerar meu parto, porque minha barriga “já estava muito grande”. Saí do consultório com muita dor e na mesma noite, em casa, minha bolsa rompeu. Fui para o tal hospital do convênio já em trabalho de parto.

Quando cheguei, me instalaram em uma cadeira de plástico da recepção e informaram meus acompanhantes que eu deveria procurar outro hospital porque aquele estava lotado. Lembro que fazia muito frio e eu estava molhada e gelada, pois minha bolsa continuava a vazar. Fiquei muito doente por causa disso. Minha mãe ameaçou ligar para o advogado, disse que processaria o hospital e que eu não sairia de lá em estágio tão avançado do trabalho de parto. Meu pai quis bater no homem da recepção. Enquanto isso, minhas contrações aumentavam. Antes de ser finalmente internada, passei por um exame de toque coletivo, feito por um médico e seus estudantes, para verificar minha dilatação. “Já dá para ver o cabelo do bebê, quer ver pai?” mostrava o médico para seus alunos e para o pai do meu filho. Consigo me lembrar de poucas situações em que fiquei tão constrangida na vida. Cerca de uma hora depois, me colocaram em uma sala com várias mulheres. Quando uma gritava, a enfermeira dizia: “pare de gritar, você está incomodando as outras mães, não faça escândalo”. Se eu posso considerar que tive alguma sorte neste momento, foi o de terem me esquecido no fim da sala, pois não me colocaram o soro com ocitocina sintética que acelera o parto e aumenta as contrações, intensificando muito a dor. Hoje eu sei que se tivessem feito, provavelmente eu teria implorado por uma cesariana, como a grande maioria das mulheres.

Não tive direito a acompanhante. O pai do meu filho entrava na sala de vez em quando, mas não podia ficar muito para preservar a privacidade das outras mulheres. A moça que gritava pariu no corredor. Até que uma enfermeira lembrou de mim e me mandou fazer força. Quando eu estava quase dando a luz, ela gritou: “pára!” e me levou para o centro cirúrgico. Lá me deram uma combinação de anestesia peridural com raquidiana, sem me perguntar se eu precisava ou gostaria de ser anestesiada, me deitaram, fizeram uma episotomia (corte na vagina) sem meu consentimento – procedimento desnecessário na grande maioria dos casos, segundo pesquisas da medicina moderna – empurraram a minha barriga e puxaram meu bebê em um parto “normal”. Achei que teria meu filho nos braços, queria ver a carinha dele, mas me mostraram de longe e antes que eu pudesse esticar a mão para tocá-lo, levaram-no para longe de mim. Já no quarto, tentei por três vezes levantar para ir até o berçario e três vezes desmaiei por causa da anestesia. “Descanse um pouco mãezinha” diziam as enfermeiras “Sossega!” Eu não queria descansar, só estaria sossegada com meu filho junto de mim! O fotógrafo do hospital (que eu nem sabia que estava no meu parto) veio nos vender a primeira imagem do bebê, já limpo, vestido e penteado. Foi assim que eu vi pela primeira vez o rostinho dele, que só chegou para mamar cerca de 4 horas depois.

Faz exatamente nove anos que tudo isso aconteceu e hoje é ainda mais doloroso relembrar porque descobri que o que vivi não foi uma fatalidade, ou um pesadelo: eu, como uma a cada quatro mulheres brasileiras, fui vítima de violência obstétrica.

Uma em cada quatro mulheres sofre violência no parto

O conceito internacional de violência obstétrica define qualquer ato ou intervenção direcionado à mulher grávida, parturiente ou puérpera (que deu à luz recentemente), ou ao seu bebê, praticado sem o consentimento explícito e informado da mulher e/ou em desrespeito à sua autonomia, integridade física e mental, aos seus sentimentos, opções e preferências. A pesquisa “Mulheres brasileiras e Gênero nos espaços público e privado”, divulgada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo, mostrou que uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto. As mais comuns, segundo o estudo, são gritos, procedimentos dolorosos sem consentimento ou informação, falta de analgesia e até negligência.

Mas há outros tipos, diretos ou sutis, como explica a obstetriz e ativista pelo parto humanizado Ana Cristina Duarte: “impedir que a mulher seja acompanhada por alguém de sua preferência, tratar uma mulher em trabalho de parto de forma agressiva, não empática, grosseira, zombeteira, ou de qualquer forma que a faça se sentir mal pelo tratamento recebido, tratar a mulher de forma inferior, dando-lhe comandos e nomes infantilizados e diminutivos, submeter a mulher a procedimentos dolorosos desnecessários ou humilhantes, como lavagem intestinal, raspagem de pelos pubianos, posição ginecológica com portas abertas, submeter a mulher a mais de um exame de toque, especialmente por mais de um profissional, dar hormônios para tornar o parto mais rápido, fazer episiotomia sem consentimento”.

“A lista é imensa e muitas nem sabem que podem chamar isso de violência. Se você perguntar se as mulheres já passaram por ao menos uma destas situações, provavelmente chegará a 100% dos partos no Brasil” diz Ana Cristina, que faz parte de um grupo cada vez maior de mulheres que, principalmente através de blogs e redes sociais, têm lutado para denunciar a violência obstétrica tão rotineira e banalizada nos aparelhos de saúde.

“Algumas mulheres até entendem como violência, mas a palavra é mais associada a violência urbana, fisica, sexual” diz a psicóloga Janaína Marques de Aguiar, autora da tese “Violência institucional em maternidades públicas: hostilidade ao invés de acolhimento como uma questão de gênero” que entrevistou puérperas (com até três meses de parto) e profissionais de maternidades públicas de São Paulo. “Quando a gente fala em violência na saúde, isso fica dificil de ser visualizado. Porque há um senso comum de que as mulheres podem ser maltratadas, principalmente em maternidades públicas” acredita. E dá alguns exemplos: “Duas profissionais relataram, uma médica e uma enfermeira, que um colega na hora de fazer um exame de toque em uma paciente, fazia brincadeiras como ‘duvido que você reclame do seu marido’ e ‘Não está gostoso?”

Em março de 2012, um grupo de blogueiras colocou no ar um teste de violência obstétrica, que foi respondido de forma voluntária por duas mil mulheres e confirmou os resultados da pesquisa da Fundação Perseu Abramo. “Apesar de não terem valor científico, os resultados mostraram que 51% das mulheres estava insatisfeita com seu parto e apenas 45% delas disse ter sido esclarecida sobre os todos os procedimentos obstétricos praticados em seus corpos” lembra a jornalista mestre em ciências Ana Carolina Franzon, uma das coordenadoras da pesquisa. “Nós quisemos mostrar para outras mulheres que aquilo que elas tinham como desconforto do parto era, na verdade, a violação de seus direitos. Hoje nós somos protagonistas das nossas vidas e quando chega no momento do parto, perdemos a condição de sujeito” opina Ana Carolina.

Desse teste nasceu o documentário “Violência Obstétrica – A voz das brasileiras” (que você pode assistir no fim da matéria) com depoimentos gravados pelas próprias mulheres sobre os mais variados tipos de humilhação e procedimentos invasivos vividos por elas no momento do parto. Uma das participantes diz que os profissionais fizeram comentários “sobre o cheiro de churrasco da barriga durante a cesárea”.

Mas talvez o relato mais triste seja o da mineira Ana Paula, que após planejar um parto natural, foi ao hospital com uma complicação e, sem qualquer explicação por parte dos profissionais, foi anestesiada, amarrada na cama, mesmo sob protestos, submetida a episiotomia, separada da filha, largada por várias horas em uma sala sem o marido e sem informações. Seu bebê não resistiu e faleceu por causas obscuras. Ana Paula denunciou o falecimento de sua filha ao Ministério da Saúde pedindo uma investigação e em paralelo denunciou a equipe, convênio médico e o hospital que a atenderam ao CRM de Belo Horizonte. Diante do silêncio do Conselho, que abriu uma sindicância em novembro de 2012 e não forneceu mais informações, a advogada de Ana Paula, Gabriella Sallit, entrou com uma ação na justiça.

“O processo da Ana Paula foi o primeiro que trata a violência obstetrica nestes termos. Não é um processo contra erro médico, ou pelo fim de uma conduta médica. É sobre o procedimento, a violência no tratar. É um marco porque é o primeiro no Brasil” explica a advogada. “É uma ação de indenização por dano moral que lida com atos notoriamente reconhecidos como violência obstétrica. Tudo isso tem respaldo na nossa legislação”, diz.

Para prevenir a violência no parto, infelizmente comum, a advogada aconselha que as mulheres escrevam uma carta de intenções com os procedimentos que aceitam e não aceitam durante a internação. “Faça a equipe assinar assim que chegar ao hospital. E antes de sair do hospital, requisite seu prontuário e o do bebê. É um direito que muitas mulheres desconhecem. Isso é mais importante do que a mala da maternidade, fraldas e roupas. Estamos falando de algo que pode te marcar para o resto da vida”.

Direitos legais desrespeitados nas maternidades

Além do nosso código penal e dos vários tratados internacionais que regulam de forma geral os direitos humanos e direitos das mulheres em especial, a portaria 569 de 2000 do Ministério da Saúde, que institui o Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento do SUS,  diz: “toda gestante tem direito a acesso a atendimento digno e de qualidade no decorrer da gestação, parto e puerpério” e “toda gestante tem direito à assistência ao parto e ao puerpério e que esta seja realizada de forma humanizada e segura” e a LEI Nº 11.108, DE 7 DE ABRIL DE 2005 garante às parturientes o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato nos hospitais do SUS. Mas dificilmente essas normas são seguidas, como explica a pesquisadora Simone Diniz (leia entrevista na íntegra), formada em Medicina Preventiva pela Universidade de São Paulo, que participou da pesquisa “Nascer no Brasil: Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento”, grande e minucioso panorama realizado pela Fiocruz em parceria com o Ministério da Saúde  – ainda sem data para lançamento.

“O parto é muito medicalizado e muito marcado pela hierarquia social da mulher no Brasil. Para algumas questões de saúde, como para quem tem HIV, precisa de um antiretroviral ou de uma cirurgia, você tem o mesmo procedimento público e privado, existe um padrão do que é considerado como aceitável. Para o parto não. A assistência ao parto para as mulheres de menor renda e escolaridade e para aquelas que o IBGE chama de pardas e negras, é muito diferente das mulheres escolarizadas, que estão no setor privado, pagantes. Normalmente as mulheres de renda mais baixa têm uma assistência que não dá nenhum direito a escolha sobre procedimentos. Os serviços atendem essas mulheres para um parto vaginal com várias intervenções que não correspondem ao padrão ouro da assistência, como ficar sem acompanhante e serem submetidas a procedimentos invasivos que não deveriam ser usados a não ser com extrema cautela, como o descolamento das membranas, que é muito agressivo, doloroso, aumenta o risco de lesão de colo e infecções, a  ruptura da bolsa, como aceleração do parto. É uma ideia de produtividade que parte do pressuposto que o parto é um evento desagrádavel, degradante, humilhante, repulsivo, sujo e que portanto aquilo deve ser encurtado. No setor público é pior, mas é preciso levar em conta que no setor privado, 70% das mulheres nem entra em trabalho de parto, vão direto para cesarianas eletivas”.

Cesariana desnecessária: mais uma violência contra a mulher

A imposição de uma cesariana desnecessária também tem sido vista pelos pesquisadores e pelas próprias mulheres como uma forma de violência porque além de um procedimento invasivo, oferece mais riscos a curto e longo prazo para a mãe e o bebê. “Hoje nós sabemos que existe muito mais segurança nos partos fisiológicos do que nas cesáreas. Não tenha dúvidas de que elas são um recurso importante que salva vidas quando realmente necessárias. Mas no parto fisiológico o bebê tem menor chance de ir para uma UTI neonatal, de ter problemas respiratórios, metabólicos, infecções, tem o melhor prognóstico de todos” explica Simone Diniz. “O bebê nasce estéril e a medida que ele entra em contato com as bactérias da vagina durante o parto, é colonizado por elas e isso fará com que ele desenvolva um sistema imune muito mais saudável do que se nascer de cesárea e for contaminado por bactérias hospitalares. Esse é conhecimento recente, mas já saíram pesquisas sobre risco diferenciado de asma, diabete, obesidade e uma série de doenças crônicas”.

Apesar do índice máximo de cesarianas aconselhado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ser o de 15%, o Brasil lidera o ranking na América Latina, segundo a Unicef, com mais de 50% de nascimentos através da cirurgia. O índice sobe consideravelmente quando se olha apenas para os hospitais particulares. Em 2010, 81,83% das crianças que nasceram via convênios médicos, vieram ao mundo por cesarianas. Em 2011, o número aumentou para 83,8%, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Há ainda hospitais particulares como o Santa Joana, em São Paulo, que no primeiro trimestre de 2009 apresentou taxa de 93,18% cesarianas, segundo o  Sistema de Informações de Nascidos Vivos (SINASC). Questionada a respeito, a ANS declarou por meio de assessoria de imprensa que “vem trabalhando, desde 2005, para a diminuição do número de partos cesáreos, mas o problema é bastante complexo e multifatorial, envolvendo a organização do trabalho do médico, dos hospitais e a própria cultura e informação da população brasileira”. Disse ainda que “não existe limite para a realização de partos cesáreos” e que isso depende da indicação médica.

No filme “O Renascimento do Parto”, ainda sem data de estreia no Brasil, mas que já possui uma versão resumida no Youtube, o pediatra Ricardo Chaves questiona: “Eu quero saber o seguinte: nós combinamos com o bebê que ele vai nascer sexta-feira, quatro da tarde? Ele respondeu que tem condição de nascer?”

Nos consultórios, a prática é assustar a mulher

Os profissionais têm opiniões diferentes a respeito do grande volume de cesarianas. Para a médica obstetra representante do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) Silvana Morandini, “a medicina defensiva está indicando mais a cesárea. Se o bebê tem circular de cordão no pescoço, se é um feto muito grande, se tem placenta marginal, qualquer diagnóstico que possa dar problema, aumenta a prescrição”. Ela chama isso de “conduta defensiva”, por “medo de dar errado”. Silvana também acredita que “o grande número de cesáreas é cultural. A mulher brasileira tem a ideia de que com o parto vaginal vai ficar com o períneo mais flácido”.

Já o obstetra especialista em parto humanizado Jorge Kuhn acredita que “a grande culpada pelo boom de cesarianas foi a mudança do modelo obstétrico. Antigamente o modelo era centrado na obstetriz. O médico era chamado nos casos de complicação. A transformação do parto domiciliar em hospitalar, na década de 1970, aumentou a incidência de cesarianas. É lógico que esse índice também cresceu por outras razões,  como gravidez múltipla, idade avançada e riscos reais ”. Ele explica que outro fator importante foi a entrada dos convênios médicos nos planos de parto. “Eles perceberam que para vender planos de saúde, um bom argumento era o de que a mulher faria o pré-natal com o mesmo médico que faria o parto e isso é a maior cilada. Porque o médico prefere ficar no consultório a sair para ganhar tão pouco. Dizem que a mulher escolhe a cesariana, mas o parto normal é desconstruído no consultório consulta a consulta. Frases como ‘nossa, mas esse bebê está crescendo muito’ dão a conotação subliminar de que a mulher não poderá ter parto normal. Circular de cordão, bacia estreita, feto grande, feto pequeno, pouco líquido, muito líquido, pressão arterial alta, diabetes, nada disso é indicação de cesariana. Foi se criando o conceito de que o corpo da mulher é defeituoso e requer assistência. Que ela precisa ser cortada em cima ou embaixo para poder parir”.

Um médico obstetra com 15 anos de formação, que atende a convênios e preferiu ter sua identidade preservada, confirma a fala de Jorge Kuhn.

Ele explica que com o valor irrisório pago pelos convênios (cerca de 300 reais por parto normal ou cesárea) não compensa para o profissional largar o consultório cheio ou sair de casa de madrugada para passar 10, 12 horas acompanhando um parto normal. “Eu digo para as minhas pacientes logo nas primeiras consultas que se elas optarem por marcar uma cesariana eu farei, mas se optarem por um parto normal vão ter com plantonista”. Para ele, apesar das pesquisas e das indicações internacionais como a da OMS, a cesariana é a melhor opção para a mãe e o bebê. “No hospital particular eu acho que acontece o real parto humanizado. Porque tem uma assistência muito maior. Com 5 para 6 cm de dilatação a gente instala a anestesia, aí a paciente já não sente dor, faz a tricotomia (raspagem dos pêlos) porque é mais higiênico, rompe a bolsa, acelera o trabalho de parto. Minha filha nasceu por cesárea, minhas sobrinhas também. Se eu achasse tão bom o parto normal teria feito. Claro que se o médico marcar a cirurgia para muito antes, o bebê pode nascer prematuro, com problemas respiratórios, pode complicar sua saúde a longo prazo. Mas no parto normal existe mais risco de asfixia e paralisia cerebral. Se você for perguntar, 90% dos filhos de médicos nascem por cesárea”.

Jorge Kuhn, que foi recentemente denunciado pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro e responde a processo no CREMESP por ter declarado em um programa de televisão ser favorável ao parto domiciliar para gestantes de baixo risco, lembra que para o hospital também é muito mais lucrativo e conveniente que se façam cesarianas. “Eles sabem quais são os recursos humanos e materiais que têm em vésperas de feriados, principalmente os mais prolongados, e têm os agendamentos da sala certinhos. Fazer uma cesariana em trabalho de parto resulta em maior custo para o hospital. Quando a mulher ficou tantas horas em trabalho de parto e passa para uma cesárea, isso é um problema. Uma vez eu perguntei para um gestor quanto eu custava, fazendo mais partos normais. Ele disse que o problema é quando meus partos normais viravam cesáreas, porque já tinha gasto tempo e material naquele parto e gastava com a cirurgia. Mas tanto faz em termos de custo. O agendamento que facilita. Nenhum hospital no Brasil tem condições de atender partos normais como a OMS aceita, com no máximo 15% de cesarianas. Não têm estrutura física para isso, é uma fórmula difícil de fechar. Mas basicamente é uma tríade: comodidade dos médicos e hospitais, indiferença das mulheres e mercado. Sempre é uma questão de dinheiro”.

Ana Cristina acrescenta que quanto mais complicado for o parto, mais lucro o hospital terá. “Anestesia, cirurgia, drogas, antibióticos, compressas, equipamento, equipe de enfermagem. Se rolar uma UTI neonatal por dois dias, já vai mais uma boa grana, quase a de um parto. E esses equipamentos todos da UTI estão pagos, precisam ser usados para gerar lucro. A UTI custa muito caro. Então qual é o problema? É que nós estamos colocando bebês para nascer em uma estrutura muito cara, que precisa se pagar”.

Para incrementar, alguns hospitais particulares oferecem alguns “extras” a seus pacientes, conta Simone Diniz. “Existe uma coisa chamada ‘janela de plasma’, que fica no centro cirúrgico e dá para um pequeno auditório anexo. É uma janela opaca que fica transparente quando o bebê nasce e o médico pode apresentá-lo à plateia. Algumas famílias fazem festas, com serviço de catering etc. Isso não pode acontecer em um parto normal, certo? Precisa ser agendado com antecedência. Aí você vê como hoje o parto fisiológico é subversivo, porque subverte toda essa lógica hospitalocêntrica”.

Alternativa subversiva

O modelo alternativo, hoje conhecido como parto humanizado, se baseia em exemplos usados há muitos anos em países como Holanda e Alemanha, e é centrado na autonomia da mulher, pensando o parto como algo fisiológico, natural, com pouca ou nenhuma intervenção médica. O direito da mulher sobre o seu próprio parto também é uma das principais bandeiras de um movimento feminino que cresce a cada dia no Brasil, principalmente através de blogs e articulações por redes sociais.

No filme inglês Freedom For Birth, que conta a história da parteira húngara Ágnes Geréb, processada criminalmente e condenada a dois anos de prisão porque, até 2011, não havia regulamentação para os profissionais que assistiam partos domiciliares, a antropóloga americana Robbie Davis-Floyd critica o modelo atual, em que o corpo da mulher é tratado como uma máquina, e o parto como um processo mecânico disfuncional, que precisa das intervenções médicas para trazer o bebê ao mundo porque não confia na fisiologia natural do parto. Em seu estudo “Birth as an American rite of passage (1984)” ela lembra que o parto, até pouco tempo, era vivido como algo exclusivamente feminino e privado, com as mulheres dando a luz em suas casas amparadas por outras mulheres: parteiras, mães, amigas mais experientes. A ideia de “mulher empoderada”, que escolhe onde, como e com quem quer parir, ou no mínimo opina a quais procedimentos quer ou não se submeter é o centro deste pensamento.

O parto humanizado pode acontecer em casas de parto, em casa (somente para gestantes de baixo risco, que são a maioria) e até em salas especiais que muitos hospitais estão criando com esta finalidade. A equipe geralmente é reduzida, com uma enfermeira obstetra (ou médico que siga esta filosofia), um neonatologista e uma doula – profissional treinada a dar suporte físico e emocional à mulher desde o pré-natal. Na hora do parto, a doula orienta sobre exercícios e posições, respiração e fornece um arsenal de recursos não farmacológicos para alívio da dor, como massagens, bolas, óleos, exercícios e banhos. A mulher pode comer, tomar água, andar e ficar na posição que se sentir mais a vontade para parir. Cada vez mais mulheres têm optado por este modelo, mas nem todas têm acesso. Um parto domiciliar custa de 5 a 10 mil reais (somando os honorários de todos os profissionais). No hospital, além da equipe, é preciso pagar a internação em pacotes de parto, que podem custar em média mais 8 mil reais.

Apesar de em 2011 o governo federal ter lançado a Rede Cegonha, que tem como objetivo humanizar o parto e criar casas de parto normal integradas ao SUS, ainda há poucas opções e somente em grandes centros urbanos – até 2014, segundo o Ministério da Saúde, serão 200 em todo o país. Com pouca ou nenhuma divulgação, sobram leitos em muitas delas. A Casa de Parto de Sapopemba em São Paulo, por exemplo, referência no atendimento a gestantes de baixo risco, não só não é divulgada, como não se consegue entrevistar os profissionais que atendem na Casa. Alertada por colegas jornalistas, eu tentei entrar em contato através da assessoria de imprensa da prefeitura mas não obtive resposta, apesar da insistência. Durante a reportagem, conheci uma enfermeira obstétrica que foi demitida por ter concedido entrevista a um jornal sem autorização. Uma reserva que faz lembrar o que acontece com os programas de redução de danos – cala-se a respeito para evitar polêmica, ou a adesão excessiva em relação às dimensões previstas por essas políticas públicas.

Simone Diniz conta que a própria mulher que resolve esperar o trabalho de parto é hostilizada. “As pesquisas indicam que entrar em trabalho de parto aumenta muito o risco de você sofrer violência. É muito interessante o grau de hostilização da mulher em trabalho de parto. No setor privado, acham o fim da picada que aquela mulher queira dar trabalho para eles. Uma mulher contou que como insistiu muito com o médico que queria parto normal, ele indicou um psicólogo dizendo que ela tinha traços masoquistas!” O Conselho Federal de Medicina é totalmente contra o parto domiciliar. Assim como os conselhos regionais que quiseram caçar o registro de Jorge Kuhn. O Conselho de Enfermagem (COFEN) também tentou por muito tempo fechar o novo curso de obstetrícia da USP Leste, mas desde dezembro de 2012, o curso ganhou, através de liminar do Ministério Público, não só o direito ao funcionamento como ao registro específico no COFEN.

Por mim você pode cortar a mulher em quatro…

Essa “caça às bruxas do parto humanizado” não é exclusividade brasileira – vide Àgner Gereb. Jorge Kuhn conta que quando chegou ao Brasil após uma temporada aprendendo sobre parto humanizado na Alemanha, foi procurar os gestores de grandes hospitais para implantar essas técnicas de redução de cesarianas, mas que foi recebido com declarações como“por mim você pode cortar a mulher em quatro desde que me entregue um bebê bom”. Ainda assim, o obstetra é otimista: “O filósofo Schopenhauer dizia que toda verdade passa por três estágios: No primeiro, ela é ridicularizada. No segundo, é rejeitada com violência. No terceiro, é aceita como evidente por si própria. Estamos no segundo estágio”.

Outra alternativa bonita para quem procura por um parto “empoderado” (no sentido de dar poder à mulher sobre o parto) é a Casa Ângela, em São Paulo. Criada pela Associação Comunitária Monte Azul, a Casa de Parto, instalada na periferia da zona sul da cidade, se mantém com financiamentos de parceiros nacionais e internacionais e, desde o começo de 2012, faz uma média de 10 partos por mês, e acompanha mais de 250 mães e bebês. O nome homenageia a parteira alemã Ângela Gehrke, que nas décadas de 1980 e 1990, atendeu a mais de 1500 mulheres da favela Monte Azul e foi referência de parto humanizado no Brasil. Ângela morreu de um câncer em 2001 mas o trabalho com a comunidade foi retomado alguns anos depois.

A casa é linda, iluminada, arejada e no dia que visitei, um cheiro de bolo assando perfumava o ambiente. Nada ali lembrava o ambiente hospitalar. Anke Riedel, obstetra coordenadora do projeto, me conta que por causa da grande procura de mulheres de outras regiões e até outras cidades, a casa criou um plano de sobrevivência, no qual cobra um pequeno valor para quem não é da comunidade. O pacote padrão, que inclui o pré-natal, a triagem para fatores de risco no parto (as regras são rígidas e somente as gestantes que não apresentam riscos podem ser atendidas na casa), o parto e o acompanhamento do puerpério e do bebê por um pediatra, custa 3.500 reais, que pode ser negociado conforme as condições financeiras do casal. “Como não recebemos qualquer ajuda do governo, essa foi a forma que encontramos de manter a casa e poder atender às gestantes, além do apoio dos parceiros”. Na equipe, obstetrizes atendem às gestantes e, em casos de urgência, a casa possui equipamento e ambulância próprios para remoções para hospitais próximos. Segundo Anke, algumas vezes estas remoções acontecem, mas nunca houve uma de urgência.

Em vez de maca e soro, uma leoa com o bebê nos braços

Fui convidada a conhecer Aline, de 26 anos e seu marido Marcos, da mesma idade, moradores da comunidade que tiveram seu bebê na casa na noite anterior. Quando entrei no quarto, a primeira surpresa. Nada de maca ou soro. Apenas um casal deitado em uma cama com o bebê nos braços, com luz baixa e largos sorrisos no rosto. Aline me mostrou a pequena Sofia, que veio ao mundo sem qualquer intervenção médica ou farmacológica. Ela conta que o bebê nasceu na banheira, à luz de velas e música ambiente, com o marido fazendo massagem e ajudando nas posições. Que se apaixonou pela Casa assim que conheceu a proposta e que durante o pré-natal, ela foi bem orientada e tratada pelo nome, ao contrário do atendimento no posto de saúde em que era uma “mãezinha”.

Um nó aperta minha garganta, é impossível não fazer comparações. Marcos diz que estava orgulhoso da mulher, que mais parecia uma leoa poderosa no parto. Compara ao que já tinha visto na televisão ou nas novelas: “Aquelas mulheres gritando, deitadas, aquele desespero. Nada disso aconteceu. Teve hora que a enfermeira abraçava, dava beijo na testa dela, esse afeto fez diferença. No hospital você fica vendo seu parto acontecer.” Flashes do meu parto não param de vir à mente. Sou feliz por Aline e Marcos. E muito revoltada por mim mesma. Vendo e ouvindo essas histórias de amor, assistindo a vídeos de partos humanizados, dignos, nos quais as mulheres foram protagonistas do nascimento dos seus filhos, só posso chegar a uma conclusão: violaram meu momento. Roubaram meu parto de mim.

* Infográficos de Emídio Pedro

Mapa da Violência obstétrica: denúncias pela internet

Depois de um parto traumático e extremamente violento e um segundo humanizado, empoderado e em casa, Isabella Rusconi e Carlos Pedro Sant’Ana criaram o Mapa da Violência Obstétrica. A ferramenta é inédita no Brasil e permite ao internauta denunciar onde e quais tipos de violência obstétrica sofreu. “Acredito que um dos melhores modos de ter uma leitura real de um problema é mapeando situações, dando uma leitura gráfica do problema para facilitar a sua compreensão” explica Carlos. “Embora seja um problema invisível para muita gente —principalmente para os homens— e silenciado por muitas mulheres —por vergonha ou por desconhecimento de que foi vítima— é necessário mostrar que é uma realidade agressiva no Brasil e mostrar que existem alternativas, que é necessário criar um novo sentido de respeito humano e mudar o modo como lidamos com o parto. Talvez mostrando relatos de vítimas da violência obstétrica, possamos chegar a outras mulheres que passaram por essa violência sem o saber ou sem o reconhecer, e as arrancar de sua Síndrome de Estocolmo”…

https://violenciaobstetrica.crowdmap.com/

 

 

 

Quanto custa nascer no Brasil? *

SUS – grátis, independente do tipo de parto

Hospitais particulares com médicos particulares – de 10 a 30 mil reais o pacote de parto que inclui equipe médica e internação.

Independente do tipo de parto (cesárea, normal ou humanizado). Se houver complicações no parto, mãe ou bebê precisarem de UTI o valor pode triplicar.

Hospitais particulares, via convênio médico – cesáreas marcadas muitas vezes são cobradas à parte, no valor médio de 3 mil reais. Cesáreas em trabalho de parto e partos normais geralmente são atendidos por plantonistas e não são cobrados à parte.

Parto domiciliar (com o mínimo de intervenções para gestantes de baixo risco) com enfermeira obstétrica e doula – de 3 mil a 5 mil reais em média ; Com médico e doula – 10 a 15 mil reais

Parto em casa de parto humanizado ONG – cerca de 3 mil reais incluindo pré-natal, parto com enfermeira obstetra e atendimento pós parto com pediatra durante o puerpério.

Quanto ganham os médicos

Particulares (independente do tipo de parto) – de 8 mil a 20 mil reais por procedimento.

SUS (por plantão, período de 12 horas) – R$ 700 (valor médio)

Saúde suplementar –R$ 300 por parto normal e R$ 240 por cesariana (valores médios)

*Fontes: ANS, MS e profissionais de saúde

 

 

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Comentários

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  • http://www.facebook.com/tsbegue Thaís Sbegue

    Muito importante esse registro! Meus parabéns (:

    Precisamos muito lutar contra essa cultura de violência.

    • Andrea Dip

      Obrigada Thais, que a informação sirva de arma! Um abraço

  • http://www.facebook.com/denise.niy Denise Niy

    Nomear a violência obstétrica é trazê-la à tona! Obrigada por abordar o tema, sinal de que estamos dando os primeiros passos na direção de uma assistência mais digna e respeitosa!

    • Andrea Dip

      Obrigada Denise! Também espero! Um abraço

  • ymara

    Lindo trabalho. Só conseguiremos modificar a mentalidade dos profissionais de saúde dando a eles conhecimento. Isso deveria ser ensinado nas faculdades e cursos. Digam não a falta de respeito, dignidade e amor no parto!

    • Andrea Dip

      É isso Aí Ymara, precisamos gritar cada vez mais alto, não?

  • Veronica F. Garcia

    Excelente trabalho! Abordar a obstetrícia no Brasil unindo dados com depoimentos, especialmente de parturientes, é uma forma de sensibilizar a todos. Também sonho com o dia em que TODAS as brasileiras possam optar, como as holandesas, dinamarquesas etc., por um parto normal em casa ou no hospital, sempre com atendimento profissional humanizado, e não por uma cirurgia violenta ou um parto humilhante.

    • Andrea Dip

      Obrigada Veronica, eu também espero. Afinal é um direito nosso, não? Um abraço.

  • Cecilia Hildebrand

    Parabéns pela reportagem, já divulguei com quem pude!! precisamos de mais gente como vc!!

    • Andrea Dip

      Obrigada Cecilia! Espalhar a informação é muito importante nessa história. Um abraço

  • http://twitter.com/liliantdias Lilian Tavares Dias

    Parabéns a todos os envolvidos neste excelente trabalho!
    Espero que sirva também para conscientizar os profissionais que atendem as parturientes, para que cada vez menos mulheres sejam violentadas em seu momento mais sublime.

    • Andrea Dip

      É isso aí Lilian, obrigada. Um abraço pra ti.

  • Guilherme

    Belo trabalho. Minha mãe morreu durante o meu parto por negligencia médica. Fizeram cesariana nela e deram anestesia. Deixaram minha mãe sozinha, quando ela teve refluxo e se engasgou. Como ela ficou muito tempo sem respirar, foram causados sérios problemas cerebrais, e ela morreu após três dias na UTI. Em meio a dor sentida pela familia, ninguém se quer pensou em processar ou pedir qualquer reparação ao hospital. Que esse trabalho de vcs, da Agência Pública, abra a cabeç de outras famílias, para que elas não repitam a mesma historia que a minha.

    • Andrea Dip

      Oi Guilherme, puxa sinto muito mesmo, que triste sua história. Eu também espero que a reportagem ajude a jogar luz sobre esse assunto e mudar a história de outras mulheres. Um abraço

  • Lili Szili

    Excelente trabalho!!!! Você conseguiu relatar de uma forma linear exatamente o “mapa obstétrico brasileiro”. Vou fazer a minha parte ativista de “divulgar” o material ao máximo de pessoas que conseguir. Parabéns Andrea Dip!!!!

    • Andrea Dip

      Obrigada Lili! Vamos gritar alto e forte! Um abraço

  • Henrique Alexandre

    Cara Andrea, muito obrigado pela matéria. Além de trazer à tona mais uma das formas de preconceito contra a mulher e desmistificar um tema velado por esse mesmo preconceito, você conseguiu fazer com que eu me sentisse na pele de cada uma das vítimas dessa agressão. Senti a angústia, tristeza e a raiva ocasionadas pela sensação de impotência diante do abuso num momento tão delicado da vida de uma mulher. Resta, porém, o sentimento de esperança, pela expectativa de ver sua matéria espalhada por todo o Brasil, dando às futuras mães a possibilidade de exigir aquilo que deveria ser um pressuposto na relação interpessoal: DIGNIDADE.

    • Andrea Dip

      Obrigada Henrique, eu também espero. Deveria ser algo básico, não? Um abraço.

  • http://www.facebook.com/people/Grilo-Dúvida/1535006980 Grilo Dúvida

    Parabéns pelo belíssimo artigo! Poucas situações deixam as pessoas mais vulneráveis do que a hora do parto. É uma hora que a mãe precisa de muita ajuda e apoio, mas parece que os profissionais se aproveitam da situação para tornar as coisas ainda mais difíceis. O pai também precisa ser tratado com mais respeito – há muitos hospitais que negam ao pai o direito de participar do parto.

    Meu primeiro filho nasceu no Hospital da Criança Nossa Senhora de Lourdes. Fizemos um curso pré-natal no hospital, no qual falaram o tempo todo da importância da presença do pai no parto, e de como o hospital incentivava a prática. Quando chegamos para o parto, simplesmente me impediram de entrar, sem explicação alguma. Não deixaram nem eu dizer “boa sorte”.

    O parto é um momento importantíssimo, e este movimento precisa ser muito forte. Todo sucesso!

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100004005042777 Facebook User

    Que matéria bem feita! Compartilharemos com certeza.

  • http://www.facebook.com/people/Lucia-Irene-Reali-Lemos/1401678937 Lucia Irene Reali Lemos

    Tô sem fôlego! Que trabalho maravilhoso, que pesquisa! Parabéns pela forma com que abordastes um tema tão belo (o ato de parir uma vida) e tão triste (os atos cometidos por profissionais desqualificados e canalhas). Fui mãe do meu primeiro filho com 17 anos e saí do hospital (SUS) com feridas no colo do útero por conta dos “toques” das auxiliares de enfermagem, deram remédios que induziram as contrações e eu não tinha dilatação, fiquei 3 dias internada sofrendo horrores e somente no terceiro dia é que fizeram uma cesarea de emergência, pois meu filho estava morrendo…eu tive uma parada cardíaca na sala de parto…Hoje meu filho tem 33 anos e nunca esqueci o quanto sofri. Se hoje, com a experiência que tenho, escutasse o que a frase da chamada da matéria denuncia, eu responderia: “-Sim, na hora de fazer eu gritei sim, de prazer, de tesão, de amor e não vim aqui pra sofrer dor e maus tratos… vou te denunciar! ” É isso, hoje as mulheres podem e tem como e a quem denunciar.

  • Tere Marcellino

    Nossa que materia, muito bem feita, parabéns.
    Tive meu filho a 7 meses atrás. Foi cesariana pois minha gravides era de alto risco, Fui atendida por 2 médicos, o meu e o que estava de plantão. Pela equipe médica fui bem atendida, mas pela enfermagem, não gostei. Muitas foram antipáticas, não passavam informações, se chamavam no quarto não apareciam.

    Mas imagino o sofrimento dessas mães. Alguns dias veio uma carta do SUS na minha casa, querendo saber se ocorreu tudo certo no parto e se recomendaria uma maternidade pública, disse que NÃO.

    Espero que essa situação mude no nosso país, afinal já tem uma mulher no poder, então que ela faça valer nossos direitos.

  • Deisy Matsui

    Nossa isso foi muito bom…Há três anos ganhei meu maior presente, minha filha, mais em compensação não tenho mais vontade de ter outros filhos, quando lembro tudo que eu passei, o médico me deu remédio pelo soro para adiantar o parto, mais o meu problema é que não tinha dilatação, passei dois dias assim, sendo levada a cesária com urgência porque o coração dela estava parando de bater, ela nasceu “preta” (apesar de sermos mestiças), estava faltando oxigênio pra ela, mais graças a Deus, ela nasceu normal. Tive muitas complicações pós parto, uma enfermeira disse que era normal aquele médico fazer isso, e a minha médica falou que as vezes isso acontece.

  • http://erickmendonca.com.br/ Erick Mendonça

    Uma triste realidade, demonstra toda a covardia que permeia nossos serviços de saúde, públicos e até privados. É um absurdo sem tamanho. Quem tem um filho e passou por essa situação, acredito que muitos como diz a reportagem, sabe como é.

  • http://www.facebook.com/ninicerino Nini Cerino

    Tive meu filho de parto natural, porém induzido, com analgesia, pelo SUS, em Santa Catarina. Foi um dia maravilhoso na minha vida e do meu ex-marido, que acompanhou todo o procedimento. Todos me atenderam muito bem. Do romper da bolsa, em casa, até o nascimento, passaram-se 22h50min. O nenê nasceu forte, saudável e está aqui ao meu lado, brincando (hoje tem 4 aninhos). Pelo que vejo nas pesquisas, fui realmente uma exceção???

  • Ricardo

    PELOS DADOS DA REPORTAGEM PUDE RECEBER QUE O SUS PAGA O VALOR CORRESPONDENTE A REGULAGEM DE DOIS AQUECEDORES A GÁS POR UM TÉCNICO AQUI EM CURITIBA, O QUE LEVA MENOS DE MEIA HORA. RECENTEMENTE UM VEIO À MINHA RESIDÊNCIA REGULOU O AQUECEDOR EM 10 MINUTOS E SAIU COM R$ 120,00 NO BOLSO. QUANTO TEMPO SERÁ QUE O MÉDICO CIRURGIÃO-OBSTETRA LEVA PARA FAZER UM PARTO NORMAL OU CESÁREO? QUE TRISTE O QUE O SUS PAGA PARA O MÉDICO ATENDER O POVO.

  • Carlos

    Andrea Dipe caros leitores,

    Sou médico e gostaria de me manifestar o texto, de forma pacífica. E espero que minha crítica seja construtiva. Meu propósito não é desmantelar o seu texto, Andrea, até porque sabemos que boa parte do que foi dito de fato acontece, infelizmente.

    Embora sua matéria tenha fundamento e eu concorde com parte do que você escreveu, existem conceitos inseridos nele que, lidos por um leigo, são certamente são interpretados de forma equivocada. E quando me refiro a “leigo”, também me refiro a você, respeitosamente, porque me refiro às pessoas que não têm conhecimento médico a ponto de entender o que faz sentido e o que não tem o menor sentido ser escrito num texto como o seu.

    Dou exemplos. O início do seu texto me chamou muito a atenção. Você se refere ao descolamento da membrana, uso da ocitocina, anestesia e episiotomia de forma muito negativa. Negativa demais, eu diria. Aquele que a lê passa a ver tais procedimentos como práticas desviadas da conduta médica correta.

    O defeito grosseiro do seu texto não está em citar tais práticas, mas em condená-las de forma geral, como se todos eles tivessem sido incorretamente aplicados.

    Não se descola a membrana de uma gestante porque a “barriga está grande”. Nem se realiza a episiotomia para “facilitar” a saída do bebê do corpo da mãe apenas para ganhar tempo. Existem indicações para isso. Indicações médicas, precisas, éticas e corretas.

    Talvez tenham errado em não perguntar a você se você queria receber analgesia (e não anestesia, como erroneamente você também escreveu. São coisas totalmente diferentes.), mas antes de escrever você também deveria ter consultado um especialista da área para saber que sem anestesia você teria um período expulsivo prolongado, o que pode prejudicar o seu bebê, não você. A episiotomia, por vezes, é necessária sim, pois, se não realizada, pode levar ao rompimento do seu períneo e você ficar com incontinência fecal. Você leu sobre isso? Sem considerar o estresse ao qual o bebê está submetido (fisiologicamente) num parto.

    Um outro ponto que me chama a atenção é o seu pai querer bater no funcionário da recepção. Sugiro uma matéria sobre a violência contra profissionais da saúde (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, recepcionistas de hospitais). Ameaças, agressões verbais e físicas entre outras barbaridades são também realidade no Brasil. E entenda: os médicos, enfermeiros e recepcionistas não têm culpa das mazelas do Sistema de Saúde. E infelizmente temos que enfrentar todos os dias pessoas como o seu pai, que querem resolver o problema do familiar na porrada.

    O seu texto, Andrea, alerta a população sobre muita coisa, mas tem um caráter bastante parcial e negativo sobre coisas que não deveriam ser discutidas numa matéria como esse, pelo menos não dessa forma. Você tem toda a liberdade para escrever, mas neste caso lhe faltou a pesquisa sobre o que mencionei acima, dentre outros erros grosseiros.

    Continue escrevendo sobre o assunto. Concordo plenamente que isso precisa ser discutido. Mas não demonize o processo como um todo quando falta informação a você (e aos leitores) necessária para uma formação de opinião. Informar errado é pior que não informar.

    Obrigado,

    Carlos

    • http://www.facebook.com/people/Ana-Cristina-Duarte/100001165648559 Ana Cristina Duarte

      Carlos, sou profissional da saúde, sou obstetriz, atendo partos em hospitais, e posso dizer que há muito equívoco da sua parte. Se me permitir, começo com a episiotomia. Faz mais de 30 anos que TODOS OS ARTIGOS publicados em revistas importantes, incluindo metanálises, comprovam que a episiotomia de rotina é extremamente desvantajosa. Difícil para um homem entender, como eu senti, na minha própria pele, as consequências de uma episiotomia. O único homem que compreende o meu drama pessoal é meu marido, que durante 1 ano, teve que se privar de uma vida sexual normal, por causa das dores que eu sentia na região do corte e cicatriz. Portanto eu posso dizer como mãe, profissional, autora e avisita: o senhor talvez esteja desatualizado.

      O descolamento de membranas tem sido feito silenciosamente nos consultórios sem qualquer consentimento prévio da gestante. Elas chegam para mim na gestação seguinte dizendo sempre a mesma história: a partir de 36 (ou 37) semanas, ele fazia exame de toque todas a vezes e doía demais! E depois ele dizia que ia sangrar e talvez desse cólica. Não foi uma história não, Carlos, são centenas de relatos.

      Acredite em mim, o famigerado enema ainda é feito na maior parte do país.

      Vamos falar sobre ocitocina: ainda não visite um único hospital público nesse país onde as mulheres não estivessem, todas, sendo infundidas com ocitocina em gotejamentos de todos os tipos, inclusive absolutamente descontrolados. Perdi a conta de quantas vezes, nessas visitas, vi gotejamentos de 30 a 60 gotas por minuto. Me admira que esses bebês nascessem vivos.

      Se o senhor trabalha em um hospital público onde não se use mais que 90% de infusão de ocitocina, eu gostaria de conhecer! Muito!

      O termo anestesia está corretíssimo. Na maioria dos hospitais do Brasil não existe analgesia. Em alguns existe anestesia raquidiana de expulsivo, que imobiliza a mãe e obriga o obstetra a partir para um fórceps salvador, tamanho o bloqueio motor provocado na mãe.

      Em São Carlos-SP, por exemplo, simplesmente não existe a palavra peridural. E portanto não existe analgesia de parto. E nós sabemos que essa raqui paralisante de expulsivo acaba provocando vários problemas em cascata, incluindo, em muitos casos, o nascimento de um bebê com Apgar baixo.

      Enfim, eu acho que Andrea foi cirurgicamente precisa em sua matéria.

      E sim, seria uma ótima idéia falar, em outra matéria, sobre a violência sofrida por profissionais de saúde. Mas em termos de proporção, posso te garantir que esse número é bem menor do que o de mulheres que sofreram violência em seus partos.

      Atenciosamente,

      Ana Cristina Duarte
      Obstetriz
      São Paulo, SP

      • Carlos

        Ana Cristina, sucintamente deixo minha observação.
        Eu não condenei de forma alguma as verdades que a autora expôs. O que não achei correto foi a generalização com que foram conduzidas as afirmações.
        Quanto à episiotomia, pelo seu comentário de que eu esteja destualizado, imagino que você não tenha entendido o que eu disse. Eu não sou defensor e não carrego uma bandeira “pró-episio” por aí, que fique claro. O que me referi, explicando novamente a você e a todos, é sobre o erro de se generalizar, quando existem indicações precisas para isso.
        E gostaria que ficasse claro, para que eu não seja mal compreendido como fui agora: 1) mais do que ninguém, eu e você – profissionais da saúde – sabemos das indicações de determinados procedimentos; 2) eu também sei que descolamentos, enemas, episiotomias e anestesias são feitas de forma desenfreada.
        Quanto ao termo anestesia, você, como profissional da saúde, deveria também ter cuidado ao endossar o erro do termo. Concordo com você sobre os exageros, mas GENERALIZAR não é algo adequado em Medicina. Pelo menos é algo que ao menos os médicos não fazem, ou não deveriam fazer. E mesmo que você não seja médica, entra no hall da equipe da saúde e deveria ter o mesmo cuidado.
        Esteja atenta ao fato de que eu não neguei absolutamente nenhuma dessas afirmativas da autora. Apenas recomendei moderação ao GENERALIZAR os atos descritos. Para mim, o erro da autora mora aí, não no conteúdo em si. Compreende?
        Desculpe, mas precisão cirúrgica é um termo um tanto exagerado para este texto, embora eu reconheça sua importância e sua qualidade na avaliação dos dados.
        Entendo você, sua profissão, seu drama pessoal e seu ativismo. Não sou contra isso. Sou a favor, inclusive!
        Só não concordo com generalizações sobre um assunto que envolve decisões médicas, técnicas e por que não (mesmo que às vezes) bem pensada?!
        Talvez seja um pouco difícil para você imaginar e se colocar num consultório diante de uma paciente, mas faça um esforço: imagine se todas as gestantes se recusassem a fazer certos procedimentos, mesmo quando bem indicados, por conta de um texto que disse que o procedimento A ou B é errado, exagerado ou invasivo?!
        O assunto tem de ser tocado, deve ser discutido, mas com cautela. Só isso. Não estou discutindo o conteúdo e muito menos fazendo comparações desproporcionais sobre violência com gestantes x profissionais de saúde.
        E que todos que aqui estão lendo saibam, enfim, que ouvir outras opiniões também é construtivo. É fácil demonizar a cirurgia bariátrica (redução de estômago) porque um vizinho morreu, ou um conhecido passou mal. Calma, pessoal! Da mesmo forma, esta é uma prática que vem sendo aplicada em excesso, mas não se pode GENERALIZAR que a bariátrica é algo sempre ruim, sempre indicado de forma exagerada ou errônea.
        Espero ter sido claro sobre o que achei incorreto no texto. E se mesmo com estes erros o texto for considerado uma precisão cirúrgica, nessa cirurgia eu não entro em campo nem sob protestos.

        • Viviane

          Excelente carlos! Vc foi super coerente! Não podemos sair por ai generalizando. Daqui a pouco teremos umahisteria coletiva.

        • Kiwi Bertola

          Carlos, é triste ver que apesar do assunto ser tão sério você ainda insiste em defender sua classe profissional de forma leviana. O texto não generaliza. Ele fala sobre dados, sobre histórias reais. Quando você diz que “imagine se todas as gestantes se recusassem a fazer certos procedimentos, mesmo quando bem indicados” na verdade não é que você tem medo como profissional de não salvar uma vida. Você tem medo de não conseguir fazer o que bem entender com a paciente sem ter que explicar exatamente como e pq está tomando aquela decisão. Médico detesta ser questionado, pq acham que pacientes não têm a capacidade do discernimento. Que não fazer 8 anos de faculdade faz com que a pessoa não tenha capacidade de escolher o melhor tratamento. E é exatamente por esse tipo de atitude que as mulheres estão buscando cada vez mais outras formas de parto.

  • PAMELA

    Sábias palavras,pura verdade,passei por isso agora a pouco SUS como somos mal atendida e sofremos agressões justamente em um momento tão importante, só nos e Deus sabemos…Sofri e vi muitas mamães que estavam justa no mesmo quarto sofrerem agressões psicológicas e outras!Parabéns é isso mesmo que passamos nesses hospitais pagos pelo sus…Só nos e Deus sabemos tudo que passamos(hosp. de são paulo)PARABÉNS,LINDA REPORTAGEM!

  • Viviane

    Concordo com o Carlos, claro que o parto deve serhumanizado, já vi situaçoes escabrosas feitaspor enfermeiras obstetrizes, médicos e técnicos de enfermagem mas no texto constam muitas falas sem embasamento científico e que podem gerar pânico na mãe além de serdeletérios para o bebê. Procedimentos bem feitos e bem indicada podem salvar a vida do bebê e da mãe. Basta saber conversar e explicar o motivo. Até a cesariana pode ser humanizada. Meu filho teve que nascer de cesárea, mto bem indicada e foi lindo! Carrego essa cicatriz com mto orgulho pois foi assim que, pela minha parte, salvei meu filho.

    • Kiwi Bertola

      Viviane, essa história de “procedimentos bem feitos e bem indicados podem salvar vidas” é a desculpa básica que todos os médicos usam pra fazer o que bem entenderem sem a autorização da parturiente e sem a devida orientação. Todo mundo sabe que cesáreas quando bem indicadas salvam vidas. Falta dizer também na mesma frase e na mesma quantidade de vezes que cesáreas quando mal indicadas também podem matar.

  • Ignes Ferber

    Minha mãe, do final da década de 20, conta horrores quando foi ter seus filhos (hoje o mais velho já passou dos 60 anos, a na aos nova já está nos 40). Quem quiser entrevista_la entre em contato. igferber@hotmail.com

  • odin

    Quero aproveitar esta oportunidade para dizer-lhe tudo o que eu foi testado para ter aids hiv, eu era HIV positivo por cerca de 3 anos, e eu estava realmente deprimido sabendo que eu não poderia encontrar cura em qualquer lugar :::::::::::::: Eu estava cansado de compra vacinas que ajudarão a reduzir o efeito de aids hiv porque não houve mudança. Como eu estava pesquisando na internet um dia eu vi um post de um homem que usa poderes espirituais e ervas para curar a aids hiv, então eu fiz um contato com o homem e ele explicou-me sobre o que eu preciso saber antes que ele possa me enviar as ervas. Em sua explicação eu entendo porque aids hiv era um mistério e decidiu encomendar para as ervas, surpreendente para mim as ervas foi enviado para mim, porque eu duvidava que a cura até que eu era capaz de usá-lo e depois de um mês eu fui ao meu médico e ele confirmou que eu estava negativo novamente. Então, eu estou feliz em testemunhar para o mundo e dizer-lhe sobre o Dr. Odin.

    Contacte-lo por e-mail em: ODINCURAHIV@GMAIL.COM
    :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

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