AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

Ocupando os próprios corpos

Dois meses antes dos jovens indignados ocuparem Wall Street, os estudantes chilenos ocupavam seus próprios corpos em uma longa greve de fome pela educação superior gratuita: 71 dias sem comer

Por Rôney Cristiam Rodrigues, especial para a Pública

Na noite da quinta-feira, dia 20 de outubro, cerca de 60  estudantes ocuparam por cerca de oito horas, o prédio do Congresso Nacional do Chile enquanto parlamentares debatiam com o ministro da Educação, Felipe Bulnes, o orçamento para o setor em 2012. Depois do fracasso da tentativa de negociação com o governo, que foi interrompida em meados de outubro, os estudantes querem um plebiscito sobre a reforma da educação.

Ao deixar o prédio, foram recebidos por um cordão de isolamento e jatos de água. São os “pingüins” ou “encapuzados” que há sete meses estão nas ruas chilenas pedindo educação superior gratuita – todas as universidades são pagas no Chile. O governo estima que pelo menos 1.700 pessoas foram presas desde o começo dos protestos.

No começo de outubro, os secundaristas – conhecidos como pinguins, por causa dos uniformes azuis-escuros e brancos –, através de seu porta-voz, Alfredo Vielma, declararam romper a mesa de negociações por considerar que o “governo se mostrou intransigente com sua postura”.

Mais tarde, Camila Vallejo, líder da Federação dos Estudantes da Universidade do Chile (Feich), somou-se à decisão dos pinguins alegando “a pouca capacidade de diálogo do governo”.

O movimento chama a atenção pela longevidade, mas também pela intensidade. São os mesmos “penguino”, jovens chilenos sem muita expectativa para um futuro promissor, que protagonizaram uma longuíssima greve de fome há cerca de um mês, em protesto pela falta de diálogo do governo.

Enquanto não começa

Terça-feira, 23 de agosto. Na sala atulhada de carteiras escolares, com colchonetes e lençóis bagunçados, Maura Roque olha alguns cartazes feitos em cartolinas coloridas. Passa vagarosamente os olhos por cada frase, cada palavra, cada nome: “Johanna, feia, te adoramos”; “Mami, te amo. Ass. Papo”; “Jamais nos verão calados”. São mensagens de familiares, amigos, conhecidos, conhecidos de conhecidos, mensagens que preenchem uma parede inteira.

Maura tem 17 anos, cabelos negros e está em greve de fome há 34 dias, juntamente com mais três estudantes do Liceu Dario Salas, localizado no centro de Santiago. Há quatro dias dois pais também se juntaram à greve. Ela usa uma máscara cirúrgica, pois sua imunidade está baixa; têm olheiras fundas, pálpebras caídas e olhos com uma expressão vazada e que se movem preguiçosamente. No jejum prolongado, o organismo adapta-se para a conservação de energia e nutrientes e, como reflexo disso, recorre à diminuição dos gastos energéticos. Daí esses olhos preguiçosos e vazados.

Mas a lentidão dos movimentos é o de menos, ela tem muitas outras coisas para se preocupar, como uma possível insuficiência renal, uma arritmia cardíaca ou uma acidose que pode levá-la a morte. Enquanto Maura corre os olhos sobre os cartazes, o seu corpo, na falta de glicose, consome a gordura para produzir energia; depois de gastar toda essa gordura, o organismo da adolescente poderá entrar num ciclo autofágico, usando músculos e órgãos vitais para sobreviver.

Em média, o jejum é considerado fatal depois de 60 dias. Alguns grevistas, no entanto, sobrevivem por mais de 100 dias consumindo apenas vitaminas, líquidos, sal e açúcar não refinado. E essa é a estratégia de Maura e dos grevistas do Liceu Dario Salas.

Além desse colégio, por todo o Chile, jovens interromperam sua alimentação para pressionar o governo. Alguns foram hospitalizados em estado grave de saúde.

No Liceu Dario Salas, Johanna Choapa entra por aquela porta, 17 anos, toca de lã, cabelos pintados de vermelho e se senta ao lado de Maura. Diz um oiiii estendido, que sai abafado pela máscara cirúrgica que também usa.

“Bem, podemos começar”.

Começando

Antes de começar a entrevista, vale voltar ao começo da história. E ela começa com Pinochet, que governou o país por 17 anos, até 1990. Três dias antes de entregar o poder, ele promulgou a Lei Orgânica Constitucional de Ensino, que delegou grande parte da educação chilena ao setor privado.

O resultado é que todo o ensino superior no Chile é pago, e caro. Para poderem cursar uma universidade, os estudantes precisam de crédito, que chegam a pagar por até 20 anos depois de formados.

Há mais de 4 meses, as universidades chilenas estão paradas reivindicando educação gratuita e de qualidade. Esse é considerado um dos mais fortes movimentos desde o retorno da democracia chilena. Os “penguinos” estão determinados e irredutíveis.

O governo chegou a apresentar propostas de reformas do sistema educacional, como a desmunicipalização da educação secundária,uma mudança constitucional que assegure a melhoria do ensino e a redução das taxas de juros dos créditos concedidos, mas os estudantes rechaçaram. Eles querem um plebiscito para que se faça uma nova Constituição.

O ministro Bulnes apresentou uma proposta de mais bolsas de estudo, aumento no orçamento destinado à educação e maior fiscalização, mas os estudantes insistem que estas continuam sendo medidas paliativas. Também querem uma reforma do ensino médio, que é de baixa qualidade.

“Ocupamos nosso corpo como meio de pressão”

Gravador ligado, outro começo.

Como explicar a um estudante brasileiro a situação que vocês vivem aqui no Chile?

MAURA: Nós ocupamos nosso corpo como meio de pressão. Levamos anos indo a marchas e não resultou em nada. Depois, recorremos a tomar os colégios, foram mais de 200 colégios tomados em nível nacional e sabe o aconteceu? Nada. Então, recorremos ao apelo mais forte da humanidade, que é a greve de fome. Mas me parece que não faz sentido nesse país, porque se passou mais de um mês e nada muda.

JOHANNA: Até nos colocaram um recurso de proteção, porque somos menores de idade… Mais que nada, nós estamos utilizando um meio de pressão ao governo, porque ele já não se dá conta, porque a educação não é grátis e, tampouco, de qualidade. Nós estamos lutando… E chegamos a esse ponto.

MAURA: É que o governo ganha muito dinheiro com a educação.

JOHANNA: Então não lhes convém mudar nada, porque quando lhes convém alguma coisa eles fazem assim (estala os dedos) e resolve. Eles não mudam as coisas porque vão perder muito dinheiro.

MAURA: Estamos lutando por algo que é de todos, por nossos filhos, nossos netos…  Já não é algo só dos universitários.

E o que pensam os seus pais?

MAURA: Não estão de acordo, mas respeitam a nossa decisão e, por isso, apoiam. Mas dizem que (imitando uma voz de autoridade, talvez a do pai) é atentar contra nossas vidas e que não-sei-o-que-mais.

JOHANNA (Levantando as sobrancelhas): Afinal, é um suicídio lento.

MAURA: É… E não tem como concordar com seus filhos se matando, entende? Mas estão apoiando, todo o tempo preocupados….

E por quanto tempo vocês acreditam que a greve de fome persistirá?

MAURA: Creio que uns meses mais.

E vocês tem algum medo?

JOHANNA: Eu acho que não. Não tenho nenhum medo, eu pessoalmente… (Pausa, pensativa). Estou lutando pelos meus direitos, eles não querem me dar e não deveria ser assim. Nós, que estamos em greve de fome, estamos dispostos a dar vida para a educação.

MAURA: Sempre há medo, de ser reprimido, de sumir como na época da ditadura e não ver mais a sua família. Esse medo sempre vai existir, pelo menos aqui no Chile todos sentimos.

Como nossos filhos

“Os médicos falaram que temos que andar com as máscaras quando temos visitas, mas não estamos acostumados com isso”, diz Sílvia Mellado, 35 anos, tirando a máscara cirúrgica. “E também as máscaras ajudam em relação à exposição: é uma desculpa para tapar o rosto”.

Sem a máscara, agora ela respira aliviada.

Ou nem tanto. Silvia é mãe de três filhos e decidiu entrar em greve de fome com os estudantes do liceu Dario Salas.

“Minha filha vai para a faculdade e isso nos afeta diretamente; está muito difícil assumir o pagamento da universidade deles se já nem conseguimos pagar a nossa. Estou pagando há 20 anos um curso que não pude terminar”, diz, balançando a cabeça inconformada.

Sergio Yañez, 47 anos, também está em greve de fome. “Não temos porque aceitar que um garoto saia da faculdade endividado por mais 20 anos de sua vida. Pense: saindo da universidade aos 26 anos ele vai pagá-la até quase seus 50. Isso não é justo. Nós, como pais, não podemos ser indiferentes a isso”.

Segundo pesquisa do instituto ImaginAcción, as manifestações têm apoio de 80,9% da população, enquanto o governo de Piñera conta com apenas 26%, o indicie mais baixo desde a queda de Pinochet.

Há uma explicação: o Chile vem crescendo economicamente há anos, mas a desigualdade cresceu em proporções semelhantes. Em 2006, 13,7% da população vivia em situação de pobreza extrema, ou seja, com menos de um dólar por dia. Três anos depois, esse número cresceu para 15,1%. Isso no período em que a economia cresceu vertiginosamente, alcançando em 2010 o PIB histórico de US$ 200 bilhões, similar a países como Irlanda, Israel e Portugal. Os 20% mais ricos aumentaram sua renda em 9%.

Sergio continua, gesticulando muito: “A luta passou a fronteira, já é um movimento social. Abarca não somente os estudantes, mas muitas outras coisas que descontentam os chilenos”. Ele pausa para respirar. “Quero algo que sirva para o futuro, para os filhos dos meus filhos, e a greve de fome foi uma forma que encontrei de exigir respostas rápidas e prontas”.

Silvia intervém “Não concordamos com o que estão fazendo, estamos em total desacordo, mas eles têm uma convicção tão grande que decidimos acompanha-los para que tenham mais força. Assim vamos encurtar o prazo desta greve”.

“O exemplo deles é nossa maior força; nós não fomos capazes de exercer essa força, seja na ditadura ou na transição para a democracia”, lamenta Sergio.

Vinte dias depois,enquanto se dirigia, em marcha, ao Ministério da Educação para conversar pessoalmente com ministro Felipe Bulnes sobre a greve de fome, Silvia Mellado foi golpeada e presa pela polícia chilena enquanto tentava tirar sua filha das mãos de um carabinero.

Poucos dias depois, Johanna e Maura foram internadas por desidratação e glicemia, além de apresentar problemas respiratórios. Maura se recusou a permanecer hospitalizada e saiu no dia 25 de setembro, seguindo em sua greve na Universidade do Chile.

Fim da greve, sinal de fortaleza

No dia 28 de setembro o governo atendeu uma exigência dos estudantes para acabarem com a greve: a assembleia coordenadora dos estudantes secundários poderia estar presente na mesa de diálogo com o governo.

E, com 71 dias, a greve de fome foi encerrada. Os estudantes foram encaminhados ao Hospital San Borja, para repouso e exames.

A doutora Tania Muñoz disse que as jovens apresentavam um “deterioramento eminente” de seus estados físicos.

Mesmo assim, Maura diz a greve acabou como sinal de fortaleza: “nosso lugar é nas trincheiras do povo organizado, mantendo os colégios tomados”.

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