Apoie!

Seja aliada da Pública

Seja aliada

Agência de Jornalismo Investigativo

O Copa Pública falou com representantes do Ministério Público sobre o estádio mais atrasado da Copa . As coisas andam meio nebulosas…

17 de abril de 2012
Especial: Copa Pública

A Arena das Dunas, estádio que está sendo construído em Natal para os jogos da Copa de 2014, já passou por vários percalços. Os primeiros aconteceram durante o processo de licitação das obras em 2010, quando o Ministério Público questionou vários itens do edital e apontou que o contrato estipulava  ônus excessivo para o Estado do Rio Grande do Norte e amenizava riscos para o parceiro privado. Depois, já no começo de 2011, o MP chegou a recomendar ao BNDES que suspendesse o empréstimo de R$ 300 milhões para a obra por conta de irregularidades no edital. No final de 2011, uma licença ambiental dada às pressas, liberou o uso de areia de uma área de proteção ambiental, que fica pertinho das dunas de Jenipabu para as obras.

Neste ano, a Arena das Dunas foi alvo de críticas da Fifa por causa do atraso na construção – o estádio fechou o mês de março com 20% das obras concluídas e teve duas paralisações: a primeira no dia 19 de março, quando os trabalhadores reivindicaram  melhores condições de trabalho e aumento salarial, e a segunda depois que a OAS (empresa responsável pelas obras) demitiu 14 funcionários alegando baixa produtividade e deficiência técnica. As demissões revoltaram  os trabalhadores, que pararam novamente  no último dia 3, e só voltaram ao trabalho na quinta-feira (12), apesar da liminar do Tribunal Regional do Trabalho da 21a Região que os obrigava a voltar no dia 9.

Copa Pública ouviu representantes do Ministério Público Federal e Estadual e ainda um representante  do Comitê Popular Copa 2014 e do Conselho estadual de Direitos Humanos  para saber como anda a Arena das Dunas –mas recebeu respostas imprecisas e vagas, na contramão da tendência por transparência no Brasil. Segundo Luis Lopes, presidente da comissão do Ministério Público Estadual que acompanha as obras da Copa para 2014, há procedimentos instaurados sobre irregularidades mas o MP aguarda documentos do governo: “Ainda está no prazo. O governo estadual diz que tem como provar a regularidade. As obras estão dentro do cronograma e nós achamos que as irregularidades são sanáveis”. Já o procurador da república  do MPF, Rodrigo Telles de Souza, disse que não há um prazo estabelecido para que estes documentos sejam apresentados. E reclamou: “A gente está tendo uma dificuldade em dar andamento aos procedimentos porque a Procuradoria do Rio Grande do Norte, aliás do Brasil todo, carece de procuradores. Há uma sobrecarga de trabalho e a gente não tem conseguido dar um andamento ideal a estes ou a outros procedimentos”.

Quando questionados sobre as recomendações dadas em 2010 e 2011, o procurador estadual Luis Lopes disse que o MPF teria mais detalhes, e o procurador Rodrigo Telles, do MPF disse não se lembrar exatamente:  “Olha, faz um bom tempo, mas as discussões giravam em torno do financeiro do contrato. Os detalhes específicos não me recordo”.

Ambos, porém, admitiram que há pontos nebulosos no projeto. Luis Lopes afirmou que o Ministério Público pode até pedir a suspensão da obra até que as pendências sejam regularizadas: “Mas vamos tentar fazer com que não aconteça para que a obra saia, afinal já houve gasto de dinheiro público. O jogo já começou, vamos torcer para que termine dentro das regras”. Rodrigo Telles explicou que o Estado alegou que não teria como acatar todas as recomendações  do Ministério Público sem ônus financeiro: “Então algumas questões não foram corrigidas. A gente não pode dizer que a obra é 100% regular porque pende esta análise de consistência, viabilidade econômico-financeira do projeto e tem que ser verificada a questão de sobrepreço e faturamento. Mas por enquanto a gente não tem o que dizer”.

Para Marcos Dionisio Medeiros Caldas, da coordenação do Comitê Popular Copa 2014 e do Conselho Estadual de Direitos Humanos, o maior problema é “a total falta de transparência em todas as obras da Copa”. Ele lembrou que  no caso do Machadão, estádio que foi destruído para dar lugar à Arena, houve um pequeno protesto por parte da comunidade, sem sucesso. “No ano passado houve uma reunião com o arquiteto do Machadão  e ele colocou que, respeitando todas as normas da FIFA para a construção dos estádios, as obras de reforma ficariam em torno de 89 milhões. E o Estado optou não por essa obra mas pela demolição do Machadão e pela construção do Arena das Dunas, que jogou o orçamento em mais de 450 milhões de reais e destruiu a história da cidade”. E lamentou que a Copa não esteja sendo uma oportunidade para o país  fazer obras de melhoria para a população: “Ao invés disso, a Copa tem sido um gol contra  ao Brasil. E um gol contra bastante caro”.

 

Seja aliada da Pública

Faça parte do nosso novo programa de apoio recorrente e promova jornalismo investigativo de qualidade. Doações a partir de R$ 10,00/mês.

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

Comentários de nossos aliados

 Ver comentários

Esta é a área de comentários dos nossos aliados. Quer se tornar aliado? Clique aqui!

Carregando…
Você precisa ser um aliado para comentar.
Só aliados podem denunciar comentários.
Fechar

Explore também

O deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que renunciou à presidência da Câmara.

| De olho | Cunha vai acionar o STF contra cassação

31 de julho de 2016 | por

Na volta do recesso parlamentar, deputado afastado tenta deixar análise do seu caso no plenário da Câmara para depois das eleições municipais; Senado retoma processo do impeachment

Transposição do rio São Francisco: via de mão única

6 de fevereiro de 2014 | por

Na primeira matéria do projeto Reportagem Pública, a repórter viaja ao Eixo Leste – e mostra como a população está sendo afetada pelas obras

Por trás do “salve” do PCC

2 de agosto de 2018 | por e

Trazemos um trecho inédito do livro "A guerra: a ascensão do mundo do crime no Brasil" e a reflexão dos autores sobre como a organização de tráfico mudou o conceito de crime no país

Mais recentes

Dos barões amigos de meu avô às prisões de hoje

18 de junho de 2019 | por

O repórter Matias Maxx conta a história por trás de sua bombástica reportagem sobre a vida de presos não pertencentes a facções

Crédito de bancos permite “fluir a economia” ligada ao trabalho escravo, diz procurador do MPT

17 de junho de 2019 | por

Segundo Rafael de Araújo Gomes, é a primeira vez no mundo que uma ação tenta responsabilizar os bancos pelo financiamento de empresas denunciadas na lista suja

Disputa por terra pode ter levado a assassinato de sindicalista no Pará

13 de junho de 2019 | por

Polícia Civil de Rio Maria trabalha com duas linhas principais de investigação para a morte com sinais de execução de Carlos Cabral; nossa reportagem esteve lá e conta como os conflitos de terra fazem da região a líder de chacinas no país

Login para aliados

Participe e seja aliado.

Fechar