Agência de Jornalismo Investigativo

Gabinete que coordena ações da inteligência brasileira confima visita de agente da Stratfor – mas se nega a revelar mais.

2 de maio de 2012
15:32
Este texto foi publicado há mais de 10 anos.

No final de março, ao ser procurado para a reportagem Os Alunos de Clouseau, realizada a partir dos documentos da empresa de inteligência Stratfor vazados pelo WikiLeaks, o GSI garantiu que o ministro José Macedo Soares daria uma entrevista à Pública quando voltasse de férias.

Macedo Soares aparece nos documentos relatando diversas informações sensíveis à agente da Stratfor, uma empresa de inteligência que tem entre seus clientes diversas corporações e também alguns departamentos do governo americano. Ele teria dito que a inteligência brasileira capturou vários ‘terroristas’ em São Paulo – pessoas da Al Qaeda, Hezbollah, e até pessoas ligadas aos ataques de 11 de setembro – mas não iria admitir isso publicamente. Também teria afirmado que há alvos de terrorismo no Brasil, inclusive uma “casa noturna israelense” em São Paulo. Além disso, Bhalla teria ouvido que o combate à entrada de precursores químicos na Amazônia teria ajudado na explosão do consumo de crack no país.

Depois de publicada a reportagem, o GSI respondeu por escrito. As respostas, enviadas em meados de abril, são um verdadeiro show de falta de transparência no trato governamental. Das dez questões, apenas cinco foram, parcialmente, respondidas.

O GSI confirma a visita da analista, no dia 06 de janeiro de 2011, “em virtude de solicitação formulada por um colega do Ministério das Relações Exteriores” – sem revelar o nome. Além do ministro, estavam presentes no encontro o Secretário de Acompanhamento e Assuntos Institucionais, Carlos Alberto Matias, e outro assessor do GSI (de novo, sem dar o nome).

O encontro teria sido “sobre os trabalhos realizados pela Stratfor, a instalação dessa empresa no Brasil e a intenção da Sra. Reva Bhalla de visitar outros órgãos, tais como os Ministérios da Defesa e Relações Exteriores”. Ele escreve ainda, que, “na ocasião, foi entregue a ela um mapa, sem valor geopolítico”. Além disso, Reva Bhalla teve a oportunidade de cumprimentar o Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional em seu gabinete, brevemente.

A assessoria não responde se o GSI ou a Abin assinam os boletins da Stratfor, mas diz que o Ministro os assina em caráter particular.

Sobre os questionamentos a respeito das relações do Núcleo do Centro de Coordenação das Atividades de Prevenção e Combate ao Terrorismo com agências de segurança e inteligência americanas, o GSI apenas informa que o órgão “encontra-se inativo”.

As perguntas sobre como esse órgão atuava, de que forma os terroristas mencionados por Bhalla nas trocas de e-mail foram capturados ou quais seriam as medidas tomadas contra o terrorismo haja vista a Copa do Mundo de 2012, não foram respondidas.

A pergunta feita sobre a afirmação de Bhalla a respeito da expansão do crack no Brasil – que seria um efeito colateral do controle aos insumos para fabricação de cocaína – também não foi respondida pelo órgão. O GSI não ofereceu nenhum dado a respeito do controle aos insumos que entram no país.

Baixe aqui a íntegra da resposta.

 

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