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WIKILEAKS: DEA infiltrou agentes em círculo de Cartes para investigar lavagem de dinheiro

Presidente paraguaio foi apontado como chefe de uma das organizações mais importantes de tráfico de drogas internacional

Reportagem
23 de abril de 2013
00:09
Este artigo tem mais de 13 anos

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Horácio Cartes, o presidente eleito no Paraguai pelo partido Colorado no último domingo, foi investigado pela DEA, a agência anti-drogas americana, como traficante de narcóticos e dono de um grande esquema de lavagem de dinheiro internacional, baseado na tríplice fronteira – Brasil, Argentina e Paraguai. Em 2009, seu grupo chegou a ser infiltrado por agentes da DEA em uma operação secreta batizada de “Coração de Pedra”.

Um documento diplomático da embaixada americana em Buenos Aires, de 5 de janeiro de 2010, vazado pelo WikiLeaks, descreve os pormenores da operação policial. O objetivo era “interromper e desmantelar a operação de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro na área da tríplice fronteira entre Argentina, Paraguai e Brasil, e em outras partes do mundo”.

À época em que o documento classificado como “confidencial – não para estrangeiros” foi escrito, a investigação havia “estabelecido ligações entre tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outras organizações criminosas”, tendo como alvo específico Horácio Cartes. Sete agências do governo americano trabalharam na investigação, incluindo o escritório da DEA em Buenos Aires, a equipe de investigação financeira da força-tarefa de crime organizado e a divisão de confisco de dinheiro lavado do Departamento de Justiça – contando com o apoio do Banco Central (Federal Reserve Bank), da Procuradoria-Geral dos Estados Unidos, e da divisão de controle de bens estrangeiros do Tesouro Americano.

O documento cita uma investigação sobre lavagem de dinheiro no banco Amambay, de propriedade de Cartes. Após uma investigação inicial, Cartes foi designado como “Alvo Organizacional de Prioridade Consolidada” (CPOT, na sigla em inglês). Para o governo americano, nomes incluídos na lista de Alvo Organizacional de Prioridade Consolidada, editada todo ano pelo Departamento de Justiça, representam “as organizações mais significativas de tráfico de drogas internacional que ameaçam os Estados Unidos”

Infiltrando o grupo de Cartes – com identidade falsa

Usando a estratégia de aproximação para alvejar o comando internacional e os centros de controle dessas organizações criminosas baseadas na Tríplice Fronteira, agentes enfocaram as atividades investigativas em um esforço para desenvolver essa investigação com o objetivo de apresentar um agente disfarçado da DEA ao CPOT designado Horacio CARTES”, explica o documento. “Através da utilização de uma fonte colaboradora da DEA em Buenos Aires e outros funcionários da DEA disfarçados, agentes se infiltraram no empreendimento de lavagem de dinheiro de Cartes, uma organização a qual se atribui a lavagem de uma grande quantidade de dinheiro dos Estados Unidos, gerada por meios ilegais, inclusive por meio da venda de narcóticos da Tríplice Fronteira para os Estados Unidos”.

A partir daí, o plano teria três etapas. Primeiro, os agentes iriam se aproximar de William Cloherty, lobista de Cartes em Washington e diretor da Tabacos USA Inc., de propriedade do recém-eleito presidente paraguaio. “Acredita-se que Cloherty tenha uma perspectiva histórica de operações de tabaco entre o Paraguai e os Estados Unidos e, mais diretamente, informações que digam respeito à produção e venda de tabaco e à movimentação de dinheiro obtido com o negócio de Cartes”. Depois, seria a vez de “apresentar um segundo agente disfarçado a Cartes” e a seus representantes Osvaldo Gane Salum – que também é do partido Colorado – e Juan Carlos Lopez Moreira – que atualmente encabeça a equipe de transição do governo. O agente infiltrado portaria documentos falsos, como relata o documento: “Para cumprir com essa tarefa, os documentos do agente disfarçado precisam ser obtidos. Isso será realizado nas próximas semanas por membros envolvidos na investigação”.

A DEA utilizaria “técnicas de investigação básicas, como entrevistas, debriefings, verificações de registros e possíveis encontros de agentes disfarçados”. O objetivo final era “interromper e desmantelar a organização de tráfico de drogas de Cartes”.

Phillip Morris e British Tobacco contra Cartes

A intrincada e custosa operação “Coração de Pedra” foi planejada em um belo resort na cidade do Panamá durante 3 dias – entre 6 e 9 de dezembro de 2009.

O encontro foi realizado para compartilhar informações entre as agências citadas e empresários do ramo de tabaco – e coordenar um plano de “ataque”. Além das agências envolvidas – incluindo agentes da DEA de Assunção, Lima e Buenos Aires – estavam representantes das empresas líderes do mercado americano: Ewan Duncan, Terry Hobbs e Richard Pandohie, da British American Tobacco; Russell, da Reynolds American; Derek Ogden, da Imperial Tobacco; e Dave Zimmerman e Mike Grogan, da Phillip Morris USA.

A seguir, o documento traz dados sobre Cartes, “chefe da organização de lavagem de dinheiro”, e sobre pessoas ligadas a ele que também deveriam ser investigadas, como a empresa Tabacos USA, INC, cujos sócios são, além do presidente paraguaio, sua irmã Sarah Cartes e William Cloherty– esse, também “lobista”. Também são listados os sócios diretos de Cartes, Osvaldo Gane Salum e Juan Carlos Lopez Moreira, qualificados como “membros da organização criminosa envolvida na importação de cigarros falsificados da América do Sul para o território continental dos EUA”.

O texto finaliza dizendo que os escritórios da DEA em Assunção e Buenos Aires “irão continuar a trabalhar juntamente com todos os outros escritórios interessados em desenvolver agressivamente essa investigação”.

Não há infomações sobre o desfecho da operação Coração de Pedra e o governo americano não se pronunciou sobre o caso.

Outro documento do WikiLeaks levanta uma suspeita ainda mais preocupante sobre o novo presidente do Paraguai. Trata-se de um despacho da embaixada de Assunção de 15 de outubro de 2008, intitulado “O rei da efredrina é preso no Paraguai”. O documento confidencial relata que a agência anti-narcóticos paraguaia – que é financiada e treinada pela DEA americana – havia detido três cidadãos mexicanos, incluindo o suposto líder do tráfico de efedrina do cartel de Sinaloa, maior cartel de drogas mexicano na atualidade.

Segundo o documento, o mexicano Jesus Martinez Espinosa, que já era investigado pelo governo argentino pela morte de três empresários ligados ao tráfico de efedrina, foi preso juntamente com dois outros mexicanos membros do cartel, Jorge Almanza Guzman e Leobardo Gaxiola, depois que o último foi pego no aeroporto de Assunção com 5,6 quilos de efredrina escondido em pacotes de chá.

Martinez, preso em seguida no hotel em que estava na capital “disse às autoridades que tinha planos de investir no Paraguai em parceria com um empresário paraguaio chamado Cartes, mas se recusou a dar mais informações”, segundo o documento. “Ele disse que estava planejando investir no setor turístico, em uma cadeia de restaurantes, e importação-exportação de carros americanos”.

Após a prisão, Jesus Martinez Espinosa foi extraditado para a Argentina, onde foi condenado, no ano passado, a 14 anos de prisão por tráfico de efedrina.

Procurado pelo jornal ABC Color, Horacio Cartes negou que seja ele o empresário mencionado no documento do Wikileaks. Também afirmou que, depois do vazamento, reuniu-se com os embaixadores de países da América do Sul para exlicar que todas a suas atividades são legais. Ele disse que procurou a embaixada americana, e saiu de lá “satisfeito”.

Questionado repetidamente pela imprensa nacional e internacional sobre possíveis vínculos com narcotráfico, o empresário nega veementemente.

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