Agência de Jornalismo Investigativo

Jorge Aldir, um dos mais conhecidos comentaristas esportivos de Natal, está entre os potiguares que não querem ver a Copa na Arena das Dunas. “Vamos passar 20 anos pagando o que não é nosso”, diz

6 de junho de 2014

29 de novembro 1972. Pelo menos 56 mil pessoas – a maior lotação já registrada no Estádio João Claudio de Vasconcelos Machado, o Machadão – assistem extasiadas Pelé jogando com a camisa do Santos contra o time da casa, o ABC futebol Clube, pelo Campeonato Brasileiro. Na torcida, Jorge Aldir Doudement, então com 14 anos, visitava Natal pela primeira vez para presenciar a partida. E vibrava ao ver o pernambucano Alberi Ferreira, que defendia o time da casa, roubar a cena e ser aplaudido de pé pela torcida, mesmo com a derrota do ABC por 2×0 para o adversário.

Jorge Aldir, comentarista esportivo há 38 anos
Jorge Aldir, comentarista esportivo há 38 anos

Hoje, 42 anos depois, Aldir contabiliza 38 anos como comentarista esportivo, sendo 23 somente nas rádios da capital potiguar. E incontáveis transmissões de jogos no antigo Machadão, cenário dos primeiros gols de grandes jogadores como Souza, Bebeto e Marinho Chagas. Partidas eternizadas em sua memória sempre do mesmo ponto de vista: as cabines de transmissão localizadas entre a arquibancada e as cadeiras cativas. Uma visão que se perdeu com a queda do tradicional Machadão, substituído pela Arena das Dunas, a arena multiuso que será palco de quatro dos 64 jogos da Copa do Mundo FIFA 2014.

“Meu pensamento é o da maioria dos potiguares: destruíram história, um patrimônio. Vamos passar 20 anos pagando por um estádio que não é nosso”, afirma Aldir, que já realizou 15 transmissões de jogos na Arena desde a sua inauguração. Em uma delas, o comentarista que o acompanha, Exmar Tavares, narrou o jogo segurando um guarda-chuva, e o técnico da equipe precisou proteger o equipamento, avaliado em R$ 25 mil, com uma maleta para não ser atingido pela água da chuva que invadia a sala de imprensa.

Apesar da sua paixão pelo futebol, Aldir não comprou o ingresso de nenhum dos quatro jogos do mundial de futebol que passarão  pela capital potiguar. Para ele, o brilho do esporte está ofuscado pela mercantilização e violência. Optou por assistir os jogos de casa. “Há uma legião de pessoas que lotarão o estádio para assistir as competições ou trabalhar no evento, mas a maioria terá um sotaque que não é o nosso. O objetivo é agradar o turista, não é uma festa para o norte-riograndense”.

Estádio Arena das Dunas: PPP criticada pelos potiguares
Estádio Arena das Dunas: PPP criticada pelos potiguares

Aqui para nós, deu certo”

A frase é de Demétrio Torres, secretário da Secopa em Natal, que comemora a realização dos primeiros eventos no equipamento. A Arena já começou a receber alguns jogos e shows, o maior deles, com Ivete Sangalo no Natal Music, realizado no dia 4 de abril. “A Arena das Dunas não é só para futebol, é como um Centro de Convenções, com capacidade para abrigar eventos de 200 até 40 mil pessoas”, destaca.

Após o mundial de futebol, deverão ser instaladas academias, lojas, escritórios e até um museu, com a intenção de gerar receita diariamente, sendo 50% destinada a OAS, construtora que administrará o estádio pelos próximos 20 anos, e 50% para o Estado. Após a Copa, serão retirados 11 mil assentos provisórios, que abrirão espaço para a instalação de outros tipos de negócios.

Para Demétrio, a demolição do Machadão é uma “matéria já vencida”. Ele acredita que a destruição do estádio, então com 39 anos, assim como a do Machadinho, versão menor utilizada para shows ou competições esportivas, foi necessária para que a Arena fosse construída em uma área central da cidade e, assim, pudesse se manter. “Lamentavelmente eram dois tipos de equipamentos que já tinham cumprido a sua missão. E aqui para nós, deu certo”, resume.

Chove chuva

O terreno onde foi construída a Arena era originalmente uma área ocupada por algumas granjas e 33 poços de abastecimento de água da cidade, o que contribui para o acúmulo de água em dias de chuva, daí os guardas-chuva nas antigas cabines de transmissão do Machadão. Em sua versão atual, os problemas persistem apesar das obras de drenagem ainda em fase de execução.

As intervenções para mobilidade urbana construídas no entorno da praça esportiva, que inclui dois viadutos, cinco túneis e duas passarelas foram ainda parcialmente paralisadas por causa da chuva. Mesmo assim, o secretário não vê nisto um ponto negativo. “É um estádio ventilado, aberto, projetado para 300 dias de sol. Os 60 que chovem não atrapalham. Só a aqueles que são contra o projeto”.

Sempre choveu na cabine do Machadão, um defeito que o Arena das Dunas não corrigiu
Sempre choveu na cabine do Machadão, um defeito que o Arena das Dunas não corrigiu. Foto: Arquivo Pessoal

Em uma entrevista concedida em 2011, meses antes da demolição do estádio, o potiguar Moacyr Gomes, arquiteto do Machadão, contou a história do estádio, que também considera a sua história. O projeto foi resultado do seu trabalho de conclusão de curso na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nos anos 50, onde se formou com nota máxima. Na ocasião explicou aos colegas: “Não fiz esse projeto como arquiteto, fiz como torcedor. Daí a razão dele ser estranho. O torcedor não gosta de sentar nas cabeceiras, ele gosta de sentar nas laterais, então projetei um estádio que tivesse uma grande quantidade de cadeiras de um lado e do outro, que ia diminuindo na medida em que eu fosse fazer a curva. Juntei minha ideia através de uma forma geométrica contínua e escrevi uma elipse falsa dentro de um círculo. Ou seja, as arquibancadas seguem o desenho de uma elipse – que é um ovo – mas ela é limitada por um círculo. Na medida que cada raio da elipse se encontrava com o raio do círculo, morria um degrau. E o segundo morria mais à frente”.

Poema de concreto

Nascia, assim, o estádio que ficou conhecido como “Poema de Concreto”, inaugurado em 4 de junho de 1972 por uma rodada dupla entre a Seleção Olímpica Brasileira contra o Vasco da Gama; e entre o ABC e o América de Natal, clássico potiguar. No dia anterior à partida, Moacyr recorda ter ficado até às 2h da madrugada junto a um engenheiro e um vigia, acertando os últimos detalhes, quando um caminhão, carregado de móveis para o vestiário dos atletas, chegou ao ginásio.

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“Mesmo de saída para casa, tirei a camisa, meu colega também, e fomos carregar o mobiliário pra dentro do vestiário para que no outro dia estivesse tudo arrumadinho, tudo no lugar”, contou. No dia seguinte, o Machadão fazia história também fora de campo, com os primeiros jogos com a presença de mulheres em Natal. Um marco para o esporte e a sociedade potiguar que foi demolido em 36 dias.

No dia 22 de janeiro de 2014, a Arena das Dunas foi inaugurada oficialmente. Mas a maioria dos torcedores tradicionais sequer  entrarão no estádio. Os quiosques da Praia da Redinha, no litoral Norte, a pouco mais de 10km da Arena, continuarão atraindo seus clientes para assistir o jogo na pequena TV, comendo uma ginga com tapioca , prato tradicional da região, à beira mar. E as ruas do Bairro das Quintas, Zona Oeste de Natal, estenderão suas tradicionais bandeirolas nos fios de energia, sobre a bandeira do Brasil, pintada no chão de paralelepípedo.

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