Agência de Jornalismo Investigativo

Repórteres que receberam nossas microbolsas contam como foi o processo de fazer as reportagens independentes

27 de abril de 2015
13:51
Este texto foi publicado há mais de 7 anos.
Foto de Joseh Sillva
Foto de Joseh Sillva

Produzir uma reportagem investigativa requer tempo, cuidado, apuração minuciosa e muita conversa com fontes e editores. É por isso que o Concurso de Microbolsas da Pública – agora na sua quinta edição, “Criança e Água” – não oferece apenas financiamento aos repórteres, mas um longo trabalho de produção conjunta das investigações.

Desde 2012, já foram concluídas quatro edições do concurso, distribuindo R$ 68 mil reais para 16 microbolsistas. Uma das reportagens realizadas através do projeto foi “Cadeias Indígenas na Ditadura”, de André Campos. A matéria, finalista do Premio Iberoamericano de Periodismo 2014, da respeitada organização IPYS, trata dos centros de detenção para indígenas considerados “infratores” pela ditadura militar. Histórias impactantes, como essas: “Meu avô chegou a ser arrastado com o cavalo de um militar, amarrado pelos pés, porque tinha saído da aldeia’, revela Douglas Krenak. ‘Eu, uma vez, fiquei 17 dias preso porque atravessei o rio sem ordem, e fui jogar uma sinuquinha na cidade’, rememora José Alfredo de Oliveira, também índio Krenak”.

André Campos considera o trabalho um dos projetos mais interessantes que já fez como repórter. “Uma coisa muito bacana das microbolsas da Pública é que não é só um apoio financeiro para a realização de reportagens. É também uma oportunidade de trocar ideias com profissionais que têm uma vivência muito legal no jornalismo e falar sobre a pauta e sobre o encaminhamento da apuração”.

Logo que o resultado é divulgado, os microbolsistas começam a se reunir com os editores da Pública responsáveis pela coordenação das reportagens. O concurso permite que os repórteres entreguem o tipo de produto que acharem mais adequado para sua investigação: texto, infográficos, foto e vídeo. Tudo é discutido colaborativamente.

Um exemplo é a reportagem “Tem água para ver, mas não para beber” feita pelo Coletivo Nigéria em 2013. A reportagem trata da população que sofre com a seca mesmo no interior do Ceará, mesmo morando nos arredores do Castanhão – o maior açude do estado – que abastece a indústria, o agronegócio e a capital, Fortaleza. “Foi uma experiência muito rica, desafiadora. Com a microbolsa praticamente pagamos os custos da reportagem, já que escolhemos também fazer em formato de documentário, que aumentou os custos. Mas foi bastante gratificante ver que a divulgação dela chegou a níveis que ainda não tínhamos experimentado”, conta Yargo Gurjão, um dos integrantes do Coletivo Nigéria.

O caminho até a divulgação da apuração é cheio de desafios. “Para mim, uma das maiores dificuldades foi saber como ‘encaixar’ todo o material que recolhemos em campo nos moldes de uma reportagem investigativa”, conta Isabel Harari, uma das vencedoras do concurso de microbolsas sobre Energia, feito em 2014 em parceria com o Greenpeace Brasil. “Como pegar um depoimento de uma hora e meia de um xeramoi (ancião), em que ele conta, de forma não linear, a história de sua vida, a violências a que foi submetido, muitas vezes sem lembrar direito, pois a história é muito dolorosa, e usar isso para comprovar e explicar para o leitor da matéria o que aconteceu no processo de construção da Itaipu”, completa.

Isabel Harari e Stefano Wrobleski fizeram a matéria “Os Ecos de Itaipu”, sobre os índios Guarani que foram expulsos de suas terras durante a ditadura militar para a construção da hidrelétrica de Itaipu. “Algumas das conversas mais emocionantes e tocantes que tivemos vieram depois de dias se relacionando com os entrevistados. Mais do que uma forte experiência pessoal, isso certamente se refletiu no resultado final da reportagem, aguçando nossa sensibilidade ao priorizar informações e lidar com os temas mais difíceis”, lembra Stefano.

Concurso de Microbolsas “Criança e Água”

Até o dia 15 de maio, repórteres de todo o Brasil podem inscrever pautas sobre o tema “Criança e Água”. Nesta edição, feita em parceria com o projeto Prioridade Absoluta, do Instituto Alana, o objetivo é mostrar como as crianças – que pela constituição devem ser prioridade absoluta dos governos – estão sendo afetadas pela crise hídrica que afeta todo o país.

Para fazer a inscrição, é necessário apresentar um plano de trabalho, pré-apuração e especificar o material que será entregue. “É importante ter clareza do tamanho do recorte do tema abordado e tentar seguir um plano. Uma grande reportagem pode trazer dificuldades de se lidar quando é grande a quantidade de informações e dados para se trabalhar”, conta Stefano. Isabel também divide impressões sobre a experiência e dá dicas para quem tem interesse em participar do concurso: “Acredito que o processo tenha sido tão ou mais importante do que o resultado final, então diria para que as pessoas que querem se inscrever levem em consideração que o concurso também é uma forma de aprendizado.”

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