AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

Napalm no Ribeira: perícia é inconclusiva

Para promotor estadual, prova material complementa depoimentos orais colhidos pela reportagem realizada pela Pública no ano passado

A pedido do promotor estadual de Justiça de Direitos Humanos Eduardo Ferreira Valério, o Instituto de Criminalística de São Paulo concluiu a perícia nos fragmentos de bombas encontrados pela Pública em julho do ano passado no Vale do Ribeira, região que sofreu bombardeios feitos pela Força Aérea durante um cerco aos membros da guerrilha de Carlos Lamarca, em 1970. Relatos de 12 moradores da região, documentos do governo francês, testemunhos escritos da época e notícias de jornal reunidos pela Pública revelaram que a Operação Registro jogou bombas de napalm sobre a região civil, ao longo de 45 dias, entre junho e julho daquele ano (saiba mais).

Segundo o laudo, os fragmentos encontrados são compostos por placas de alumínio e aço. Não foram achados resquícios de explosivos, e a perícia não conseguiu detectar do que se trata as numerações marcadas nas duas alças e nos tampões encontrados (clique aqui para ver na íntegra). A perícia é inconclusiva, já que os vestígios de explosivos podem ter desaparecido ao longo dos 45 anos em que as peças permaneceram no meio da vegetação dos montes da região da Capelinha, ao relento. “A perícia não demonstrou sua utilização, nem teria como fazê-lo, sobretudo por conta do tempo decorrido. Então, a conclusão pericial indiciária conjuga-se aos depoimentos orais e ao registro em vídeo da apreensão e fecha-se o conjunto probatório. Alcança-se, assim, o registro histórico do episódio, que é um dos objetivos a serem buscados na justiça de transição”, diz o promotor, acrescentando que a submissão das peças ao Instituto de Criminalística de São Paulo dá aos objetos um reconhecimento oficial.

Para o promotor, os fragmentos encontrados pela reportagem são uma prova material, algo muito raro. “A maior parte dos registros históricos acerca das gravíssimas violações dos direitos humanos durante a ditadura militar consiste em depoimentos e testemunhos, além, é claro, de documentos. A apreensão de remanescentes físicos, corpóreos, de uma ação tão absurda como um bombardeio constitui-se num reforço no conjunto de provas que as Comissões da Verdade, Brasil afora, vêm reunindo”, diz. “E é preciso também destacar que trata-se de situação impressionante: de acordo com as narrativas, o governo militar bombardeou população civil, em zona rural paupérrima!” Segundo ele, o Ministério Público do Estado de São Paulo está constituindo um grupo de trabalho com promotores de Justiça e procuradores de Justiça, inclusive aposentados, para estudar os relatórios finais das Comissões da Verdade Nacional e Estadual e verificar se cabe ao MP alguma ação no âmbito da justiça de transição.

A Operação Registro foi a maior mobilização da história do II Exército. Foram empregados 2.954 homens, entre membros do Centro de Informações do Exército, regimentos de infantaria e paraquedistas das forças especiais, policiais da Policia Militar e Rodoviária de São Paulo e do Dops, além da Marinha e da Força Aérea, para vasculhar a área e capturar nove integrantes da organização VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) comandados pelo capitão Carlos Lamarca, que instalou dois centros de treinamento de guerrilha na área.

Bomba encontrada na Capelinha

Bomba encontrada na Capelinha

Os pedaços de metal encontrados no Vale do Ribeira foram entregues ao Ministério Público Estadual durante uma audiência da Comissão Estadual da Verdade que discutiu os bombardeios no Ribeira. Procurada pela reportagem, a Força Aérea Brasileira limitou-se a dizer, através de sua assessoria de imprensa: “Não temos registros sobre os fatos em tela”. Após a publicação da reportagem, um morador enviou uma foto de uma bomba encontrada na região a Ocimar Bim, ex-diretor do Parque Estadual do Rio Turvo (ao lado). Segundo relatos dos moradores, diversas bombas semelhantes foram encontradas nas últimas décadas.

[relacionados]

 

 

Tags: , , , ,

Comentários

Opte por Disqus ou Facebook

  • NVTRGLP

    Naquela época era quase impossível adquirir armamento. Estes martires da liberdade conseguiram 3 metralhadoras e 63 fuzis…retirados de dentro do exercito. Este era o arsenal dos herois massacrados com bombas napalm e tortura e terrorismo. (fonte livro Lamarca pag . 39).
    Hoje os traficantes detem armamento em quantidade e qualidade infinitamente maior e nem por isso o exercito age de forma irracional. Na época o que a repressao buscava era tão somente o dinheiro que os martires se apropriaram da casa de uma das amantes do gov Ademar de Barros, cerca de 90 milhoes em valores atuais. Nada foi usado. Nao deu tempo. Somente financiaram o Pasquim…
    A repressão queimou todos os arquivos e eliminou todas as pessoas. So se salvou quem foi para o exterior. Até Fleury foi pro saco. O capitao da aeronautica Sergio Macaco é o maior heroi do Brasil. Recusou-se a odedecer ordem de carnificina geral e irrestrita. 300 mil pessoas iam morrer. Pagou caro por isso.
    Nao existe periodo mais corrupto que a ditadura civil de 64. Sou filho de um militar e vi muita coisa. Marin frequentava minha casa.

    • Olá, aqui é a Natalia Viana, autora do texto. Gostaria muito de ouvir mais a sua história. peço que me escreva no natalia@apublica.org. Um abraço,

      Natalia Viana

À espera de Belo Sun

| por , | 7 de novembro de 2017

Indígenas Juruna veem o peixe rarear em seu território enquanto o maior projeto de ouro a céu aberto do Brasil se aproxima; documento dos Juruna exige o direito à consulta prévia, previsto em tratado internacional em vigor no país desde 2003

No mapa, o trabalho escravo no Brasil

No mapa, o trabalho escravo no Brasil

| por | 31 de outubro de 2017

Levantamento mostra presença de empreiteiros entre a maioria dos empregadores, composta por fazendeiros e empresários do agronegócio. Irmão da senadora Kátia Abreu, que estava na lista divulgada pela Globo, é o único ausente na nova lista do MTE