Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Da Redação

O governador, a censura e “a raça em extinção”

Codiretora da Pública, Marina Amaral, relembra a cobertura do massacre do Carandiru, em outubro de 1992

Da Redação
31 de janeiro de 2020
12:00
Este artigo tem mais de 6 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Reprodução

Texto especialmente produzido para os apoiadores da Agência Pública. Apoie o jornalismo investigativo e receba materiais exclusivos como este na Newsletter Semanal dos Aliados!

Segunda-feira, 5 de outubro de 1992. Três dias depois do massacre no maior presídio de São Paulo a imprensa enfim obteve permissão para entrar no palco da chacina que deixou 111 mortos e mais de cem feridos 30 minutos depois da invasão da Polícia Militar por ordem do secretário de Segurança Pública do então governador Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB).

A liberação para os jornalistas veio depois da falsa informação divulgada pelo governo de São Paulo na noite da fatídica sexta-feira, 2 de outubro, de que oito presos haviam morrido “em confronto entre detentos rebelados e a Polícia Militar”. Não apenas o número era mentiroso. Investigações posteriores comprovaram que houve uma execução: apenas 26 dos 111 mortos foram atingidos fora de suas celas.

Havia interesse político na ordem para encerrar rapidamente a agitação provocada por uma briga entre presos que, de acordo com o depoimento de agentes carcerários, poderia ser resolvida pelos próprios funcionários do presídio sem derramamento de sangue. No dia seguinte, 3 de outubro, haveria o primeiro turno das eleições municipais que levariam Paulo Maluf, do PDS, à prefeitura de São Paulo. O candidato do então governador Fleury Filho, Aloysio Nunes, ficou em terceiro lugar, atrás do petista Eduardo Suplicy, apesar dos esforços para abafar o ocorrido. A essa altura, jornalistas da TV Globo e do jornal “Notícias Populares” já divulgavam a informação de que eram mais de cem os detentos mortos pela PM.

Repórter da TV Cultura, sem experiência em jornalismo policial, tive que conter o horror ao atravessar o pátio com uma água tingida de vermelho batendo nas nossas canelas. Um indisfarçável cheiro de carniça sobrepunha-se ao da cândida usada para lavar o “rio de sangue” que tomou conta do pavilhão 9 depois da entrada da polícia.

Desesperados, os presos nos pediam para entrar nas celas, ouvir suas histórias, ver as marcas da execução. “Senhora, senhora, eles entraram atirando para matar, jogaram gente no fosso do elevador, atiçaram os cachorros pra terminar o serviço”, dizia um menino negro, magro, com o rosto ainda retorcido pelo medo.

Atordoada, encontrei apoio no colega mais experiente, o jornalista Caco Barcellos, que orientou o nosso cinegrafista a focar as marcas na parede, a poucos centímetros do chão, comprovando o relato dos presos: os companheiros de cela haviam sido mortos rendidos, deitados, com as mãos na cabeça. Um dos beliches estava perfurado de baixo para cima, revelando a execução deliberada de seu ocupante.

Generoso, Barcellos acabou ajudando todos nós, e o imitamos entrevistando os presos sem esperar permissão. Foi também ele que abriu a porta para uma coletiva de imprensa forçada com o diretor do presídio, Ismael Pedrosa, que pretendia se fechar na sala apenas com a TV Globo. A solidariedade de Caco não era apenas com os colegas, mas com as vítimas, que mereciam ter a verdade estampada em todos os jornais, rádios, emissoras de TV.

Ainda impactada pelo sofrimento dos presos, mas com o sentimento de dever cumprido, gravei o off na perua da TV Cultura e o enviei para emissora junto com os VTs (estávamos na era do videotape) pelo motoqueiro, enquanto partia para a pauta seguinte. Meia hora depois, gelei ao ouvir no rádio a ordem para que eu voltasse direto para a Cultura porque havia um “erro” no off gravado. Naqueles tempos pré-celular, as peruas das equipes de reportagem tinham rádio-transmissores para se comunicar com a chefia. Todos os carros ouviam os recados, e voltei para a emissora envergonhada pelo “erro”.

Ao chegar na redação, porém, encontrei um texto burocrático escrito por um editor que eu deveria gravar no lugar daquele enviado, que não tinha erro algum. Segundo o chefe de reportagem, “por questão de tempo”, todas as entrevistas com os presos tinham sido cortadas assim como as imagens que mostravam o que eles diziam. Uma explicação completamente furada já que aquela era de longe a reportagem mais importante do dia.

Tomei então a única atitude que me pareceu digna. Recusei-me a gravar o off – o que foi feito por um locutor – e pedi que retirassem o meu crédito. Meu único consolo foi assistir a matéria de Caco Barcellos, na íntegra, no Jornal Nacional. Dois meses depois, pedi demissão da TV estadual que deveria ser pública mas que se mostrava atrelada aos interesses do governador.

Lembrei-me dessa história ao ouvir o presidente Jair Bolsonaro, o único deputado a parabenizar da tribuna do Congresso o governador Fleury pelo massacre do Carandiru, dizer que nós, jornalistas, somos “uma raça em extinção”. Não somos, não, presidente. Mesmo que as injustiças se perpetuem – ninguém até hoje foi punido pelo massacre de 27 anos atrás -, nós continuaremos mostrando a sujeira por baixo do tapete. E, pode acreditar: não há autoritarismo que dure para sempre em um país em que a sociedade defende a liberdade de imprensa. Por mais que, de vez em quando, ela se equivoque em outras escolhas.

Seja Aliado da Pública. Apoie o jornalismo investigativo liderado por mulheres e receba conteúdos exclusivos como este!

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 228 O fracasso do Estado em proteger mulheres – com Juliana Brandão

Coordenadora de gênero e raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública analisa as falhas de crimes contra a mulher

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas

Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas

Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede

Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal

Terras raras brasileiras estão no radar do Departamento de Defesa dos EUA

|

BNDES incentiva produção para transição energética, mas empresas firmam laços com a indústria militar norte-americana

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), discursou na convenção partidária e oficializou sua candidatura.

Lula aposta no combate ao feminicídio para fortalecer apoio entre eleitoras em 2026

|

Apesar de acenar para as mulheres, nenhuma mulher, nem mesmo Janja, havia sido escalada para discursar no evento

Estudo denuncia como contribuinte brasileiro subsidia Coca-Cola em “mágica tributária”

|

Big Food inflacionaria preço de xarope da Zona Franca de Manaus e faria uso de royalties fantasmas para evitar impostos