Enquanto Bolsonaro pediu voto e fez declarações machistas, centenas de cabos eleitorais de candidatos foram vistos entregando santinhos, cartões, bolsas e folhetos

Enquanto Bolsonaro pediu voto e fez declarações machistas, centenas de cabos eleitorais de candidatos foram vistos entregando santinhos, cartões, bolsas e folhetos

7 de setembro de 2022
21:13

Era difícil caminhar mais de dez metros na Esplanada dos Ministérios na manhã deste 7 de Setembro, em Brasília, sem cruzar com um cabo eleitoral distribuindo material de campanha sobre candidato a algum dos vários cargos eletivos nas próximas eleições. Eram centenas, talvez milhares de militantes entregando santinhos, cartões, bolsas, folhetos.

O clima de campanha eleitoral foi oficializado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição. Logo após o desfile militar, ele subiu num carro de som bancado por ruralistas do “Movimento Brasil Verde e Amarelo” na frente do Congresso Nacional e fez um discurso de cerca de dez minutos. No palanque, atrás ou ao lado de Bolsonaro, havia pelo menos oito candidatos. “Vamos todos votar, vamos convencer aqueles que pensam diferente de nós, vamos convencê-lo [sic] do que é melhor para o nosso Brasil”, disse Bolsonaro ao microfone.

Entrega de santinhos e folhetos na Esplanada

Um cabo eleitoral de Flávia Arruda, presidente estadual do partido de Bolsonaro, o PL, ex-ministra-chefe da Casa Civil no governo (2021-2022) e que agora tenta uma vaga ao Senado, disse à Agência Pública, sob a condição de não ter o nome publicado, que foram enviados à Esplanada cerca de 1,2 mil cabos eleitorais da candidata. Cada um, segundo ele, receberá R$ 1,5 mil até o dia da eleição em outubro. Indagado pela Pública como sabia que todos os cabos eleitorais estavam na Esplanada, ele explicou: “Quem não vier não recebe”.

Havia cabos eleitorais de bicicleta, em grupos e abordando transeuntes. Candidatos faziam transmissões ao vivo para suas redes sociais.

A poucos metros dos cabos eleitorais de Arruda, o candidato a deputado distrital Roberth Mytchuwm Machado Rego (Cidadania), conhecido como “Kalango Corredor”, conversava com eleitores espantados com a quantidade de tatuagens pelo seu corpo. “Sou o segundo homem mais tatuado do Brasil”, repetia “Kalango” como seu cartão de visitas.

Um dia antes da manifestação, na terça-feira (6), Francisco Burgardt (PTB), o “Chicão Caminhoneiro”, candidato a deputado federal por Santa Catarina, foi visitar um grupo de bolsonaristas que passou a noite num espaço de camping na região administrativa de Recanto das Emas, a cerca de 26 km da Esplanada. Em setembro do ano passado, Burgardt foi um dos líderes de um movimento de caminhoneiros que paralisou o trânsito de veículos em várias partes do país e entregou ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, uma pauta de reivindicações que incluía colocar para andar processos de impeachment contra ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). Na época deu uma entrevista coletiva à imprensa no térreo do Palácio do Planalto.

“Chicão” — que afirma que seu movimento, denominado UBC, União Brasileira dos Caminhoneiros, hoje tem “mais de 180 mil filiados” no país todo — diz à Pública que não “apoia instabilidade política”, pois “vai ser ruim para todo mundo”. “O nosso objetivo é nesse sentido. A gente quer demonstrar apoio para quem está na liderança do país para que tome as medidas que julgar necessárias para que a gente construa esse ambiente de equilíbrio entre os Poderes. Porque esse tensionamento que existe hoje não é bom para a gestão do Executivo, é péssimo para o Legislativo e péssimo para o próprio Judiciário que acaba levando que as pessoas acabem tendo esses posicionamentos extremos, né, de direita, de esquerda, eu acho que nós somos todos brasileiros, não precisamos ficar nessa guerra.”

A pastora evangélica Damares Alves (Republicanos), ex-ministra de Bolsonaro e candidata ao Senado no Distrito Federal, chegou atrasada ao carro de som, mas foi cercada por admiradores e distribuiu abraços, beijos e selfies. “Eu estava na tribuna, não no palanque [carro de som], não deu tempo de chegar ao palanque”, disse à Pública. Não faltou gente de sua campanha no evento. Pessoas com bandeiras da candidata pediam voto e distribuíam um panfleto feito exclusivamente para os atos de Sete de Setembro. O impresso com o número da candidata mostrava Damares ao lado de Bolsonaro e abraçada à primeira-dama, Michelle.

Damares Alves, candidata ao Senado

O clima de campanha também era evidente no espaço reservado na Esplanada para o discurso que Bolsonaro faria após a cerimônia oficial de comemoração do bicentenário da Independência. O público esperou no reservado das 9h00, quando começou o desfile cívico-militar, até por volta das 12h00 para ouvir Bolsonaro e seus aliados.

Ao menos duas pessoas distribuíam panfletos da candidata a deputada federal Júlia Lucy (União Brasil) que defendiam a militarização das escolas e a criação de mandatos para os ministros do STF. Dois homens usando material da campanha andavam de um lado para o outro carregando uma caixa de som que tocava uma paródia da música “Baile de Favela”. O funk bolsonarista fazia críticas a movimentos sociais, em especial ao movimento feminista, e comentários machistas a respeito de lideranças femininas da esquerda. Em um dos versos, afirmava que a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) “não sabe lavar panela”.

No palco, só discursaram o presidente, Michelle Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia e o empresário Luciano Hang — que, juntamente a outros empresários, defendeu o golpe militar em um grupo de WhatsApp que reunia empresários bolsonaristas. Jair Bolsonaro não fez ataque direto ao STF, mas afirmou, em tom de ameaça, que “com uma reeleição, temos certeza, traremos pra dentro das quatro linhas [da Constituição] todos que ousam ir pra fora delas”. “Todos sabem o que é o Supremo Tribunal Federal”, disse o presidente, que foi respondido com gritos de apoio pela plateia.

Bolsonaro ao lado de seus aliados

À tarde, a Esplanada ficou um deserto

Assim que Bolsonaro desceu do palanque, Bia Kicis (PL-DF), atual deputada federal e candidata à reeleição, tentou falar, mas teve o microfone cortado no meio de sua intervenção. O espaço se esvaziou rapidamente depois que o presidente desceu do trio para viajar e participar de um outro ato político em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Segundo o ex-deputado federal e candidato ao cargo José Medeiros (PL-MT), o corte do microfone ocorreu por ordem de policiais militares que estavam no carro de som. Segundo eles, a manifestação combinada pelos bolsonaristas com as forças de segurança estava marcada para começar às 13h00, portanto ainda uma hora depois das tentativas de discurso. Sem microfone, Medeiros gritou e gesticulou para a plateia.

“A PM está aí dentro, cortou o som. Com nós é assim, mas nós vamos ganhar contra PM do Ibaneis, vamo (sic) ganhar contra Bolsonaro contra o TSE, contra tudo. Está lá em cima, dois coronéis. Eles dizem que só 13h00. Mas qual é a jogada, é para poder dispersar o povo”, disse Medeiros à Pública.

No começo da tarde, Damares se dizia confiante sobre a suposta manifestação prevista para ocorrer à tarde, conforme o combinado pelos grupos bolsonaristas com o governo do DF. “Eu acho que às 13h00 começa, o pessoal está descendo para cá”, disse Damares, apontando para a direção da estação rodoviária de Brasília. A previsão, contudo, não se confirmou. À tarde, a Esplanada ficou um deserto.

Segundo o canal CNN, partidos como PDT, PT, PV, Rede e União Brasil pretendem entrar na Justiça alegando que o presidente Bolsonaro utilizou evento financiado com dinheiro público para fazer campanha eleitoral.

Fotógrafo: João Canizares

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João Canizares/Agência Pública

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