Agência de Jornalismo Investigativo

"Intervenção militar, esse é nosso hino nacional agora", disse Villar em áudio

2 de novembro de 2022
10:25

Jackson Villar, o evangélico organizador da motocicleta ‘Acelera para Cristo’ em São Paulo em 2021, o mesmo que falou em ameaçar indecisos, agredir eleitores de Lula e quebrar urnas eletrônicas, teve os últimos dois grupos de Telegram banidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na noite desta terça-feira, 1 de novembro.

Ainda na sexta-feira (28/10), outros dois grupos de Villar com mais de 200 mil participantes já haviam sido excluídos em decisão do TSE após denúncia da Agência Pública. Na decisão, Alexandre de Moraes argumentou que a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE informou a existência de “manifestação pública sabidamente inverídica a respeito das urnas eletrônicas, com a finalidade de promover um ataque institucional de teor incendiário e incentivar o extremismo” nas mensagens.

Agora, a motivação da exclusão é uma articulação ilegal em apoio aos bloqueios de estradas por bolsonaristas que acontecem desde a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último domingo (30/10).  “Nós estamos apoiando e vamos ajudá-los. Eles não querem mais saber do presidente, eles querem intervenção militar. Nós vamos levar água, comida. Eles tão passando pra mim pra orientar os pontos que eles estão parando”, disse Villar a seus seguidores. Segundo ele, “Intervenção militar, esse é nosso hino nacional agora”. Vilar afirma ainda em vídeo que está em “guerra contra o sistema” e afirma que caminhoneiros e motociclistas pró-Bolsonaro não devem sair das ruas.

Segundo a lei 14.197/2021, atentar contra as instituições democráticas é crime e pode levar de 4 a 12 anos de reclusão. 

Até o fechamento deste texto os bloqueios não haviam sido totalmente debelados pelas autoridades. Havia 167 pontos pelo país, segundo o Uol.  

As novas afirmações de Villar foram realizadas ontem (1/11) no chat do grupo CANAL NOVA DIREITA #70MILHÕES #PARALISAÇÃOGERAL com mais de 46 mil membros. O grupo já havia sido denunciado pela reportagem Matar e quebrar urnas”: evangélico líder de motociata incentiva crimes no Telegram, no dia 27 de novembro. Com a extinção dos outros grupos, o número de integrantes dobrou. 

Cerca de 500 pessoas online acompanharam e se revezavam para falar no chat liderado por Villar onde articulavam ajuda aos manifestantes golpistas. Um dos membros disse:  “Assim, não é hora de ficar discutindo o sexo dos anjos, como eu já cansei de falar, é ação coordenada, seguir liderança. E a nossa liderança aqui é Jackson Villar. Está entendido?”, diz um dos participantes.

Villar também teve bloqueado na noite de ontem o grupo PARALISAÇÃO NOVA DIREITA (antigamente chamado de ‘Carta a Bolsonaro’), com mais de 8 mil integrantes. 

Mobilização

“Esquece urna, esquece Alexandre de Moraes, esquece tudo. Nesse grupo aqui não se fala disso mais. Não fala de nada de eleição aqui mais. A única coisa que a gente fala aqui é pedir pra compartilhar o link dos grupos e dizer que estamos apoiando os caminhoneiros. Porque eles vão jogando pra mim as informações e eu vou jogando aqui. Eu tô no grupo dos líderes dos caminhoneiros”, disse Villar. 

A reportagem registrou mensagem com pedidos para que seguidores contribuam com envios de valores via PIX para o CNPJ da organização Associação Mensagem de Esperança Campinas, que está em nome de Celina do Carmo Vaz Quesada, sogra do comerciante. Com isso, segundo Villar, ele poderia comprar suprimentos e água.

A certa altura das conversas, um integrante sugere que “Lula ganhou” e que não “adianta a gente peitar a rua, isso não vai mudar o que está acontecendo”. Ele é interrompido por Villar.  “Cara, vai pra outro grupo, aqui você está no grupo errado. A Nova Direita está apoiando os caminhoneiros, tá bom?”.

Em vários momentos, integrantes sugeriram o uso do termo “resistência civil” em vez de “intervenção militar” numa tentativa de despistar o tom antidemocrático do movimento, mas Villar deu de ombros e  afirmou que não era necessário mudar a narrativa. 

Ele também se mostrava preocupado com a possível suspensão do grupo. “Presta atenção, se vocês não divulgarem aqui o quanto antes, vão derrubar aqui de novo. Pega o link e compartilha pelo amor de deus”, disse aos seus seguidores. 

Silêncio

As 44 horas de silêncio de Bolsonaro após a derrota para Lula causaram as mais variadas interpretações dos integrantes dos grupos de Villar. O artigo 142 da Constituição Federal, promulgada em 1988, foi um dos citados. Os comentários afirmavam que seria necessário uma espera de “72 horas de manifestações públicas sem excitação do presidente” para “dar artigo 142” ou que o presidente poderia “assinar” o artigo 142 “para intervenção pontual no Sistema Eleitoral Brasileiro”. Outra interpretação equivocada atribui ainda ao texto constitucional a definição de “poder moderador” das Forças Armadas. O artigo 142 da Constituição, no entanto, não prevê nada disso.

Villar reclamou ainda que sofre perseguição. “Cê acha que a esquerda cai de pau em cima de mim? Só cai em cima do Jackson. A presidente do PT impugnou minha campanha para federal, mais de um milhão de votos, campanha ganha. Fui impugnado faltando três dias para a eleição. Por que você acha que a esquerda, Alexandre Frota, esses demônios, falam mal de mim? Por que você acha que Alexandre de Moraes fechou o nosso grupo com 190 mil pessoas? Hein? É porque tem alienado aqui? Não, é porque tem uma mente pensante. É uma mente que sabe fazer as coisas. Entendeu?”.

Como revelou a Pública, em 2018, Villar já havia tentado vaga como deputado federal pelo PROS, mas não se elegeu — o PROS estava coligado com o PT na ocasião. Nestas eleições, o empresário evangélico tentou novamente concorrer a uma vaga de deputado federal pelo partido Republicanos. Ele angariou apoio nas redes da senadora eleita Damares Alves, gravou propaganda eleitoral ao lado do candidato ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mas teve a pré-candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral.

Nas redes, ele diz que o PT foi o culpado pela impugnação de sua campanha. “O PT impugnou minha campanha com acusações falsas! Mas a gente não se deu por derrotado! Vamos pra cima deles com mais força ainda!”. Mas, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), ele teve o registro indeferido a pedido do Ministério Público Estadual por não apresentar certidões e declarações necessárias ao processo de candidatura e por omissão na prestação de contas das eleições de 2018.

“Capitólio brasileiro”

O TSE já havia bloqueado outros 27 grupos do Telegram que defendiam um golpe militar e conclamavam seguidores a organizar manifestações em apoio à causa. Cada grupo atuava em uma unidade da federação. Ao todo, eles somavam 153.273 seguidores.

O TSE diz que vai continuar monitorando grupos desse tipo para evitar que manifestações antidemocráticas perturbem o ambiente do país para a diplomação e posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

A ação visa evitar que haja no Brasil um movimento parecido com o ocorrido nos Estados Unidos, quando o Capitólio foi invadido por apoiadores de Donald Trump armados que queriam evitar a diplomação de Joe Biden. 

Precisamos te contar uma coisa: Investigar uma reportagem como essa dá muito trabalho e custa caro. Temos que contratar repórteres, editores, fotógrafos, ilustradores, profissionais de redes sociais, advogados… e muitas vezes nossa equipe passa meses mergulhada em uma mesma história para documentar crimes ou abusos de poder e te informar sobre eles. 

Agora, pense bem: quanto vale saber as coisas que a Pública revela? Alguma reportagem nossa já te revoltou? É fundamental que a gente continue denunciando o que está errado em nosso país? 

Assim como você, milhares de leitores da Pública acreditam no valor do nosso trabalho e, por isso, doam mensalmente para fortalecer nossas investigações.

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Reprodução

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