Buscar
Reportagem

Elas são referência nas lutas feministas. Agora, querem a descriminalização do aborto

As trajetórias de Lúcia Xavier, Bruna Benevides e Comba Marques convergem nas lutas contra preconceitos e por direitos

Reportagem
30 de setembro de 2023
10:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
As feministas e ativistas Lúcia Xavier, Bruna Benevides e Comba Marques lado a lado
João Canizares/Agência Pública

Brasília (DF) – “Em um momento, você está estudando pessoas que são referência. No outro, está ao lado delas”, disse, emocionada, Sofia Amaral, 22 anos, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (NEPEM), da UFMG. A pesquisadora falava para um plenário ocupado por feministas de várias regiões, durante seminário da Frente Feminista Antirracista, no último dia 28, na Câmara dos Deputados. Ali estavam militantes históricas pela igualdade de gênero do país. 

Lúcia Xavier, do coletivo Crioula, Bruna Benevides, da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), e Comba Marques, da Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (Cepia), têm longas e distintas trajetórias nos movimentos sociais. Juntas, elas convergem nas lutas contra preconceitos e pela conquista de direitos, entre eles a autonomia de interromper a gravidez de forma legal e segura no Brasil. Suas presenças foram celebradas durante as programações no seminário, que marcou o dia de luta pela descriminalização do aborto, em Brasília. 

Mais de 30 anos de movimento feminista negro fizeram de Lúcia Xavier (64) não apenas uma expectadora, mas uma agente ativa das transformações dos direitos das mulheres nos últimos anos. Em 1992, ela criou a ONG Criola, para promoção de direitos de mulheres negras, onde ocupa o cargo de coordenadora geral. Ainda na adolescência, já atuava na defesa de direitos de jovens em situação de vulnerabilidade, no Rio de Janeiro.

Lúcia Xavier, criadora do coletivo Crioula
Lúcia Xavier, coordenadora geral da ONG Criola

No Brasil, onde estudos apontam que mulheres negras estão entre as mais vulneráveis a abortos inseguros, Xavier lembra que, para mulheres negras, mesmo as conquistas feministas não garantem uma vitória completa. “Estamos em uma estrutura de uma sociedade racista, patriarcal e heteronormativa. Mesmo que a gente dê alguns passos, as desigualdades entre nós, mulheres negras e brancas, e de outros grupos, nos obrigam a ficar em constante defesa dos nossos direitos.” 

A coordenadora da ONG Criola lembra de outras batalhas por direitos, que, assim como a da descriminalização do aborto, foram disputadas passo a passo. “A instituição do divórcio no Brasil levou mais de 20 anos para que a lei fosse aprovada e constituída como um direito para as mulheres”, diz. “Então, mesmo que o direito ao aborto se torne uma realidade, ainda será manter uma luta constante para que não se tenha barreiras para o acesso”, considerou. 

Bruna Benevides, 43 anos, secretária de articulação política da Antra, se afirma feminista e diz que a pauta do aborto é urgente também para a comunidade trans. “Porque vai garantir a vida e saúde de homens trans, pessoas transmasculinas e não binárias, e também porque parte considerável da nossa comunidade tem útero e pode gestar, mas também não tem acesso ao aborto seguro. A criminalização invisibiliza outros corpos e identidades que fazem aborto clandestino, que acabam se colocando em risco por falta de acesso e garantia de proteção.”

De Fortaleza (CE), Benevides chegou a ser afastada do posto de sargenta da Marinha quando se declarou mulher trans. Há pelo menos dez anos, ela atua na defesa de direitos de travestis e pessoas trans pautada na perspectiva feminista. Esteve, por exemplo, na fundação do Fórum Estadual de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro. 

“Entrei na militância e no ativismo quando compreendi que a mesma estrutura que me colocava em vulnerabilidade devido ao meu gênero, colocava a população trans inteira”, contou. Ela compreende que a descriminalização do aborto deve ser uma luta importante também para a comunidade trans.

Bruna Benevides, da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)
Bruna Benevides, secretária de Articulação Política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)

“Sobretudo quando a gente pensa em mulheres negras de periferia, mulheres trans, travestis, que têm os seus relacionamentos com pessoas que gestam. Existem mulheres trans lésbicas, mulheres trans que estão casadas com homens trans. Embora essa seja uma pauta prioritária para as mulheres cisgêneras, ela não é exclusiva. Isso é importante para que a gente não acabe dificultando o acesso de outras pessoas que também estão em vulnerabilidade, enfrentando riscos e violências, e que seguem invisíveis para a luta por justiça reprodutiva”.

“A gente tá sempre começando de novo”, diz Comba Marques, presidente do conselho executivo da organização feminista Cépia e juíza aposentada da Justiça do Trabalho. Prestes à completar 77 anos, e com um currículo de mais de 40 anos de luta feminista, ela foi uma das protagonistas na luta por direitos das mulheres na Constituição de 1988, movimento conhecido como Lobby do Batom, coordenando nacionalmente a Campanha da Mulher pela Constituinte. 

Antes da Constituição Federal de 1988, as mulheres já tinham conquistado direito de voto no Brasil. Mas todo o resto do cenário era muito desfavorável. O Código Civil daquela época dizia, por exemplo, que a mulher era subordinada ao homem e que o marido era o chefe da sociedade conjugal.

Comba Marques, presidente do conselho executivo da organização feminista Cépia

“Nós conseguimos incluir que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos da Constituição. Inserimos também os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal como exercidos pelo homem e pela mulher”, diz Marques. “Também conseguimos escrever sobre direitos reprodutivos no Artigo 196, que cuida da saúde. Ainda conseguimos inserir a questão da violência doméstica, em um parágrafo que diz que o Estado tomará medidas para coibir violências nas relações de família. Isso deu origem aos dispositivos posteriores de amparo, como a Lei Maria da Penha”, listou.

O que Marques quer agora é tirar o aborto do roll de crimes e fortalecer, na área da saúde, a assistência a todos os métodos reprodutivos. “A Constituição tem toda possibilidade de acolher a descriminalização do aborto no Brasil”.

Marques começou sua trajetória no Centro da Mulher Brasileira, na década de 1970, quando tinha acabado de se formar advogada. Nessa época, ela já defendia a descriminalização do aborto e não imaginava que ainda estaria lutando por isso em pleno ano de 2023. “Muitas vezes sinto como se estivesse pior do que na época da ditadura militar, por causa do recuo civilizatório que tivemos no Brasil, nos últimos anos, com esse Congresso conservador. Mas não digo isso pra desanimar, não. Feminista nunca desanima, a gente busca novos caminhos”.

Organizações feministas em Brasília durante o dia 28 de setembro, Dia Nacional da Luta pela Descriminalização do Aborto
Organizações feministas em Brasília durante o dia 28 de setembro, Dia da Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto na América Latina e Caribe
Edição:
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública
João Canizares/Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 229 Quem está falando de política com a Gen Z? – com Lau Schultz

Criadora de conteúdo, Lau Schultz, fala sobre desafios para comunicar sobre política com o eleitorado jovem brasileiro

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas

Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas