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A história da comunidade religiosa em Maceió que se tornou refugiada ambiental após a Braskem afundar parte da cidade

Reportagem
21 de dezembro de 2023
16:00
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21 de dezembro de 2023 · A história da comunidade religiosa em Maceió que se tornou refugiada ambiental após a Braskem afundar parte da cidade

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Uma mulher grávida, com dores de parto, tenta escapar de um grande dragão vermelho. Ele quer tragar seu filho. A fuga é narrada no capítulo 12 do livro de Apocalipse, da Bíblia, que revela o fim do mundo para o cristianismo. A besta poderosa tem sete cabeças e dez chifres. Sua cauda arrasta um terço das estrelas do céu e as lança sobre a terra. Mas a mulher resiste e se esconde. “O dragão é a Braskem”, diz a pastora Odja Barros, da Igreja Batista do Pinheiro – um dos últimos imóveis desocupados na área atingida pela mineradora, em Maceió (AL). 

Em alguns locais da capital alagoana, o cenário é mesmo apocalíptico. Bairros desocupados se tornaram áreas fantasmas. Moradores choram suas perdas. As crateras que a Braskem abriu com a exploração de sal-gema cresceram silenciosas durante anos, bem debaixo dos pés de quem vivia nos bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol. Até que, em 2018, tremores de terra e grandes rachaduras nas casas denunciaram o afundamento do solo causado pela exploração desenfreada. Eram as primeiras trombetas anunciando o desastre. 

Imagem aérea da Igreja Batista do Pinheiro em Maceió
Igreja Batista do Pinheiro, um dos últimos imóveis desocupados na área atingida pela Braskem, em Maceió

Mais de 14 mil imóveis, onde moravam 55 mil pessoas, foram desocupados desde então. No fim deste ano, o risco de colapso da mina 18, no bairro do Mutange, causou pânico. No começo de dezembro, moradores de 23 imóveis foram obrigados a deixar suas casas às pressas, no meio da noite, como fugitivos. O rompimento parcial da mina 18 aconteceu no dia 10 de dezembro, na Lagoa Mundaú. A prefeitura garante que a mina não representa mais risco para a população, mas pesquisadores não descartam a possibilidade de formação de novas crateras. 

A Igreja do Pinheiro foi um dos últimos imóveis desocupados, entre os 23 que ainda eram habitados nas áreas identificadas como de risco. Com mais de 50 anos de existência, e reconhecida como Patrimônio Material e Imaterial de Alagoas, ela se tornou um símbolo de resistência numa tragédia que já é considerada o maior crime ambiental urbano da história do Brasil. 

Cinco anos atrás, quando as primeiras desocupações começaram, eles decidiram permanecer no local. Pelo acordo assinado em 2019 pela Braskem, com Ministério Público Federal e Defensoria Pública da União, a mineradora torna-se dona da área dos imóveis que indenizar. “A única maneira que uma comunidade de fé, com pouco poder, tem diante de uma grande empresa como a Braskem é resistir, nos negando a ser comprados”, diz a pastora Odja Barros. 

Ficar não foi uma decisão anticientífica, nem ignorância, explica o pastor Wellington Santos. A igreja contesta o mapa de risco da Braskem, que determina áreas de desocupação, com base em uma análise técnica da própria Defesa Civil de Maceió e um parecer do professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e engenheiro civil Abel Galindo Marques, que tem estudado os impactos causados pelas atividades da Braskem em Maceió. Ambos foram feitos em 2021 e atestam a segurança do imóvel. 

Na rua da igreja há imóveis marcados pela Braskem como comprometidos. “Nas casas todas tem um número em vermelho, que chamo a marca da besta do apocalipse. Nós não temos porque não fizemos acordo com a Braskem”, diz o pastor Wellington. Ele explica que a igreja está a 300 metros de uma das avenidas principais da cidade, a Fernandes Lima, um corredor de ônibus que não foi interditado. 

“Tem um prédio onde atualmente funciona a Defesa Civil a poucos metros do templo, outros prédios públicos, escolas funcionando muito próximas”, diz o pastor. “Comunidades de locais mais pobres e mais vulneráveis aos afundamentos, que querem estar no mapa da Braskem para receber indenização não foram incluídos, enquanto áreas mais ricas, que estão mais longe dos locais de risco, foram. Por que a Braskem fez um mapa mais extenso para um lado da rua do que para o outro?”, questiona. 

“Não estamos abertos a negociar com a Braskem, ainda que a gente sofra o prejuízo”

Na manhã do último domingo (16), o culto da Batista do Pinheiro aconteceu no auditório Sindicato dos Urbanitários de Alagoas, no bairro do Farol. A igreja tem aproximadamente 400 membros, mas apenas cerca de 30 pessoas estavam presentes. O pastor Wellington fez a pregação: “A certeza que eu tenho é que nossas bocas se encherão de riso, mas não nos faltaram lutas e lágrimas. Pode durar o tempo que for, nós voltaremos a sorrir e a celebrar em nosso território”, disse, enquanto fiéis davam as mãos e oravam. Alguns choravam abraçados.

Pastor Wellington Santos durante culto no último domingo (16)

“Boa parte das pessoas que frequentam os cultos moravam perto da igreja. Gente do bairro, idosos que vinham andando para o culto e tiveram que ir morar longe. Pessoas de classe baixa, pobres”, disse o pastor à reportagem. É o caso de Conceição Bonfim, de 74 anos, que foi retirada do bairro do Pinheiro, onde morou por mais de cinco décadas. “Eu ia para a igreja a pé. Conhecia as pessoas no bairro, vi gente casar, ter filhos. Agora não conheço minha vizinhança e é complicado ir ao culto, porque meu marido é cadeirante. Fico vendo on-line”.

Adilene Acioli, 52 anos, estava no culto do último domingo. Ela mora próximo à igreja, mas em um local que não foi interditado, no bairro de Pitanguinha. “É logo do outro lado. Não sei o que pode acontecer na minha área. A gente sofre porque vê o sofrimento dos amigos. O prédio da nossa igreja é memória. Tem a energia do ambiente. Nossa igreja é um ponto de força e resistência para muita gente”, lamenta.

A comissão jurídica da igreja pediu a revisão da ordem judicial que os impede de voltar ao imóvel. Este pedido ainda está sendo avaliado pela Justiça. A Braskem informou que “não atesta áreas de risco”, apenas a Defesa Civil de Maceió. A Defesa Civil não respondeu os questionamentos até a publicação.

Para a pastora Odja, sua comunidade de fé é hoje de “refugiados ambientais”. Eles também se denominam como “peregrinos e peregrinas” e “desterrados”. Enquanto a igreja está interditada, os cultos estão sendo realizados em locais abertos e espaços provisórios. O auditório do sindicato foi cedido também porque a Batista do Pinheiro tem proximidade com organizações de esquerda e movimentos sociais, graças à tradição de lutas políticas e sociais. 

Desde 1985, na reabertura democrática, eles se alinharam às teologias da Libertação e da Missão Integral, que partem da premissa de uma teologia latino-americana voltada para o social. Da congregação saíram fundadores de movimentos sociais, agrários e partidos de esquerda. 

Em 2016, a igreja foi desligada da Convenção Batista por aprovar a inclusão de pessoas LGBTQIA+ entre os membros. Em 2021, a Batista do Pinheiro foi a primeira igreja cristã de Alagoas a realizar um casamento homoafetivo. “Ampliamos nossa pauta para discutir também racismo ambiental, religioso, nos aproximamos do MST e de partidos progressistas. Éramos chamados de igreja vermelha. Em 2016, viramos a igreja dos viados”, conta o pastor Wellington. “Temos uma tradição de luta dos corpos que estão à margem. A luta contra a fome, por saneamento. A luta que a gente trava contra a Braskem faz parte da nossa cosmovisão teológica ”, explica. 

“Não faremos acordo com a Braskem, ainda que a gente sofra o dano. Não queremos que ela se torne dona do nosso terreno”, reforça a pastora Odja. “Não temos esperança de vencer o dragão, porque ele é absolutamente poderoso e assustador, por causa das alianças que faz com outros poderes. Essa é uma comunidade que não se rendeu, nem se vendeu. Essa é a lógica do evangelho de Cristo. Ele foi levado à cruz pelo poder religioso e político, mas venceu o mundo não se dobrando, nem se vendendo”. 

A líder religiosa acaba de lançar um livro chamado “Tirando o véu do Apocalipse”, onde atualiza a mensagem bíblica profética para uma perspectiva social brasileira. Para ela, o Apocalipse nos ajuda a ler nosso tempo e a discernir as estruturas do mal que causam destruição. “Elas operam como dragões. Estão destruindo a terra, a humanidade. A Braskem tem sido uma das operadoras desse mal. Marisqueiras, pescadores estão ameaçadas por esse grande dragão chamado Braskem”, diz. 

Odja Barros acredita que a mensagem de Apocalipse, muitas vezes temida, também traz esperança. “É uma mensagem para esperançar pequenas comunidades de fé, que resistem ao mal”. Mas ela acredita que as profecias do fim já estão se cumprindo.“As pessoas esperam o fim do mundo total, mas o fim já está acontecendo para muitas populações neste momento”. 

Edição:

Após a publicação da reportagem, a Assessoria de Imprensa da Braskem contestou os dados de remoção de moradores. A empresa sustenta que foram “cerca de 40 mil moradores retirados das áreas de desocupação mapeadas pela Defesa Civil, nos últimos 4 anos”. E que, “após o alerta relativo à Cavidade 18, houve realocação emergencial dos moradores de 23 imóveis que se recusavam a sair da área.”

A petrolífera também destacou que “o Ministério de Minas e Energia divulgou uma nota em que descarta novas ocorrências no local e aponta que as áreas adjacentes, das demais minas, seguem sem indícios de instabilidade. A análise foi feita com bases em dados da Defesa Civil de Maceió, e conta ainda com aval do Serviço Geológico do Brasil e da Agência Nacional de Mineração”.

Ailton Cruz/Agência Pública
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Reprodução
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Ailton Cruz/Agência Pública
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