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Na Bahia, um “desbunde” movido a gás

Festa com a presença de autoridades em uma ilha paradisíaca mostra falta de limites entre o público e o privado

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20 de janeiro de 2024
06:00
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“Desbunde” é uma gíria dos tempos da ditadura – que no próximo mês de março completa 60 anos, ainda com muitos segredos guardados. No final dos anos 1960, “desbundar” significava abandonar a luta armada, render-se à dor ou ao medo, ironizando o desertor como se ele simplesmente preferisse a curtição dos hippies à resistência guerrilheira. 

Mais tarde, na minha geração, que se tornou adulta quando a ditadura já estrebuchava, “um desbunde” passou a ser um elogio a um lugar lindo ou a uma pessoa incrível. Também tinha um lado B, mas menos carregado: no início dos anos 1980, o cara que “desbundou” era aquele que perdeu a noção, bebeu demais, pirou demais, se deslumbrou demais. 

A expressão me veio à mente assim que a jornalista Malu Gaspar revelou a ocorrência de um certo réveillon privado em uma ilha paradisíaca na baía de Todos os Santos, com luxuosa hospedagem, shows de Nathanzinho e Bell Marques, e mais de uma semana de folia: de 28 de dezembro de 2023 a 6 de janeiro de 2024. 

Tudo gratuito para os convidados, mesmo que não se saiba exatamente quem pagou a conta.

O “desbunde” de beleza e prazer até que rendeu poucas fotos nas redes sociais dos cerca de cem privilegiados que desfrutaram, com exclusividade, de praias de água cristalina e finas iguarias da culinária baiana em uma ilha que pertence ao município de Salvador, mas só tem acesso por embarcações particulares. 

Ao que tudo indica, foi pedida discrição aos convidados. 

E não apenas por ser a festa uma demonstração chocante de riqueza e apropriação do espaço público em um país em que os 15 mil brasileiros mais ricos quase dobraram a renda nos últimos quatro anos, enquanto a imensa maioria – 95% – apenas atualizou seus rendimentos pela inflação, como publicou a Folha de S.Paulo na terça passada. 

Acontece que entre os presentes estavam dois ministros de Estado, o prefeito de Salvador, deputados, autoridades como o presidente do Tribunal de Contas da União e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, além de “gente do Ministério Público, juízes federais e desembargadores”, como detalhou, depois de flagrado pela imprensa, o organizador do evento, o deputado Elmar Nascimento, líder do União Brasil e candidato à futura sucessão do presidente da Câmara.

Se participar da promoção de uma candidatura política e confraternizar com empresários com interesses no Executivo e ações na Justiça não inibiu ministros e representantes da Justiça, tampouco os deteve o fato de a gestora do espaço, a Fundação Baía Viva, e outros 11 réus terem sido condenados em agosto de 2022 na Justiça e multados em R$ 5 milhões por danos morais coletivos na própria ilha dos Frades, onde se dava o festim. 

Presidida por Isabela Suarez, filha do empresário Carlos Suarez, o “rei do gás” – dono de terras e propriedades na ilha e também réu na mesma ação civil –, a fundação foi acusada de fazer obras irregulares com danos ambientais e de colocar cercas e barreiras em um espaço público, atrapalhando a vida das comunidades de pescadores da região, que não conseguem mais circular por ali.

Depois que a notícia da festa com a sua presença vazou, Suarez, anfitrião do casarão do século 16 com 15 suítes que hospedou parte dos ilustres convidados, disse a jornalistas que as decisões, comemoradas à época pelo Ministério Público Federal (MPF), foram anuladas e “não há nenhuma decisão judicial válida para obrigar o pagamento de danos morais coletivos ou obras de restauração”. 

O que não torna menos constrangedora a presença de magistrados, procuradores, promotores e desembargadores no espaço que permanece cercado, privatizado, com capela climatizada e outras obras consideradas irregulares na ação movida pelo próprio MPF. 

Suarez, dono de empreendimentos imobiliários e de distribuidoras de gás em diversos estados, sabe o valor do “seu” paraíso na hora de cultivar contatos. O ex-“S” da empreiteira OAS, acusada de corrupção na Lava Jato, contou com a ajuda do mesmo deputado Elmar Nascimento para enfiar um jabuti na lei da privatização da Eletrobrás, em 2021, favorecendo as térmicas a gás, uma fonte de energia desnecessária e ultrapassada em tempos de emergência climática. 

E a influência de Suarez não diminuiu com a troca do governo. 

Ao contrário dos colegas Celso Sabino (Turismo) e Juscelino Filho (Comunicação), o ministro Rui Costa (Casa Civil) teve o bom gosto de não comparecer à festa, embora seja amigo de Suarez. Costa é considerado o “pai” do atual Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que prevê a construção de gasodutos de interesse do empresário.

O “rei do gás” também atua no Congresso para desengavetar o projeto do Brasduto, uma rede de gasodutos financiada com dinheiro público – ou, em nova versão, diretamente paga pelos consumidores de energia – para beneficiar as distribuidoras. E ali estavam deputados de A a Z – ou de Arthur Lira (PP-AL) a Zeca Dirceu (PT-PR).

Fora dos gabinetes oficiais, longe dos olhos do público, em cenário bem diverso da Praça dos Três Poderes, autoridades “desbundam”, entre uma taça de champanhe e um banho de mar, no doce balanço de interesses públicos e privados. Ao revelarem o convescote, jornalistas, como Malu Gaspar, demonstram, mais uma vez, por que sem liberdade de imprensa não há democracia real.

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