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Flávio Bolsonaro bajula Trump mas tem telhado de vidro para falar em crime organizado

Candidato deu o pretexto para Trump avançar sobre o país apesar de revelações sobre laços com organizações criminosas

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29 de maio de 2026
09:00

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Um acidente de carro com quatro vítimas fatais em uma estrada próxima entre as divisas dos estados de Chihuahua e Sinaloa revelou uma operação não autorizada da CIA em território mexicano. Além de dois agentes mexicanos da “Agencia Estatal de Investigaciones Chihuahua”, morreram dois agentes da CIA, como se descobriu dois dias depois do acidente no final de abril deste ano.

O embaixador dos Estados Unidos tentou disfarçar, identificando inicialmente os agentes como funcionários diplomáticos. Mas, de acordo com as investigações, os quatro agentes voltavam de uma ação conjunta para desmantelar um laboratório de drogas, operação essa que não foi comunicada previamente nem autorizada pelo governo de Claudia Sheinbaum, como exige a legislação mexicana. 

Esse é o caso mais recente de violação de soberania de países com organizações criminosas qualificadas como terroristas pelos Estados Unidos. Não é o mais grave, como sabemos, diante do que aconteceu na Venezuela. Nem tão grandioso como Flávio Bolsonaro sugeriu a Trump depois que os EUA explodiram uma embarcação na costa da Colômbia: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como esse na Baía da Guanabara. Vocês não querem passar alguns meses por aqui?”, postou o senador.

Agora ele conseguiu emplacar a versão de que convenceu o presidente dos Estados Unidos a incluir CV e PCC entre as organizações terroristas, o que combina com a pose submissa que assumiu na foto com Trump. Nada foi divulgado oficialmente sobre o encontro pela Casa Branca, mas ao que parece o grupo de Marco Rubio, que sonha dominar a América Latina, levou o que queria. E Flávio Bolsonaro pode retomar a narrativa de aliado de Trump e duro no combate ao crime organizado, o que, sem dúvida, impacta a campanha. 

Flávio Bolsonaro foi prudente em especificar os alvos a Trump, excluindo da lista das organizações criminosas as milícias, com quem sua família mantém relações suspeitas há muitos anos, como se sabe desde o caso Queiroz, as “rachadinhas” nos gabinetes dos Bolsonaro e as homenagens e favores prestados por ele e seu pai a milicianos, em especial a Adriano Nóbrega, o ex-policial do Bope condenado por homicídios cometidos em sua atuação no Escritório do Crime.

O problema de Flávio Bolsonaro não é com o crime organizado, como demonstram suas relações com Daniel Vorcaro. Afinal, o país todo o ouviu pedindo dinheiro para um empresário investigado por chefiar uma organização criminosa que subtraiu 3,7 bilhões de reais de fundos de previdência de funcionários públicos só no Rio de Janeiro com ajuda de seu companheiro de partido, o ex-governador Cláudio Castro. 

Castro também foi flagrado recebendo favores milionários de Vorcaro, e na companhia de outros aliados do senador,  retribuídos com muito dinheiro dos pensionistas investido no banco sem lastro. Isso sem falar no irmão Eduardo, com digitais cada vez mais aparentes no caso Master – do seu papel no financiamento do filme por Vorcaro à origem dos recursos que o mantêm em alto estilo nos Estados Unidos. 

O ex-governador do Rio, que é do PL e contou com o apoio político dos Bolsonaro desde a chapa formada com Wilson Witzel, ainda está enrolado no escândalo da Refit, a empresa que fingia refinar petróleo enquanto importava combustível e acumulava dívidas fiscais e crimes de sonegação de impostos e outras fraudes. De acordo com a PF, Castro “direcionou todos os esforços de sua máquina pública, em um verdadeiro engajamento multiorgânico em prol do conglomerado capitaneado por Ricardo Magro”, depois que a refinaria foi interditada em setembro do ano passado. 

O empresário protegido por Castro, segundo a PF, é o maior sonegador fiscal do Brasil e também acusado de ligação com a facção paulista, o PCC, citada por Flávio Bolsonaro. Há anos vive nos Estados Unidos, e apesar de alvo da Interpol, ainda não teria sido localizado. Se Trump quisesse combater o crime organizado, poderia começar por ele, como disse o presidente Lula ao relatar um telefonema a Trump em dezembro do ano passado. 

“Eu liguei para o Trump dizendo pra ele que se ele quiser enfrentar o crime organizado, nós estamos à disposição. Disse para ele, inclusive, que um dos grandes chefes do crime organizado brasileiro, que é o maior devedor deste país, que é importador de combustível fóssil, mora em Miami. Então, se quiser ajudar, vamos ajudar prendendo logo esse aí”, disse Lula em dezembro de 2025. De quebra, poderia extraditar Alexandre Ramagem, condenado pela trama golpista liderada pelo pai de Flávio, de acordo com o STF.

O teatro de Trump e Flávio Bolsonaro colocando-se como combatentes do crime organizado recai de forma brutal sobre a soberania brasileira. Também traz consequências graves para toda a América Latina, realizando o sonho de Trump e Marco Rubio de restabelecer o quintal dos Estados Unidos – de Cuba ao Cone Sul. Venha o que vier, a campanha ganha ainda mais relevância na luta da democracia contra o autoritarismo. 

Reprodução/X Eduardo Bolsonaro

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