Começamos o episódio entendendo mais sobre os diretores da Petrobras acusados de corrupção, e todo o impacto que isso gerou na estatal. Alice consegue entrevistar uma fonte que não fala com a imprensa há dez anos, escutamos áudios vazados entre procuradores que revelam detalhes da parceria com os EUA. Amanda conversa com a defesa do presidente Lula para entender melhor o que é lawfare.
Ouça agora o episódio 3!
Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra
EPISÓDIO 03: TRIPLO X
[Ricardo Terto]
Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.
Este Original Audible é baseado em eventos reais de conhecimento público, documentados em livros publicados, autos de processos judiciais, matérias e apurações jornalísticas, entrevistas e pesquisas em documentos públicos. As narrativas podem conter referências a terceiros. Os depoimentos e opiniões são de responsabilidade dos participantes ou especialistas e podem refletir diferentes perspectivas dos eventos.
[material de arquivo]
William Bonner: A Polícia Federal prendeu hoje de manhã um ex -diretor da Petrobras. Paulo Roberto Costa é suspeito de envolvimento em operações de lavagem de dinheiro que movimentaram dez bilhões de reais. Na casa dele no Rio, os agentes apreenderam 700 mil reais em dinheiro e 200 mil dólares. A Polícia Federal afirma que Paulo Roberto Costa estava destruindo provas. Ele vai cumprir cinco dias de prisão temporária.
[Natália Viana]
Segundo a história oficial da Lava Jato, as investigações teriam chegado à Petrobras quase por acaso. Ao monitorar as conversas dos doleiros, a Polícia Federal descobriu que Alberto Youssef havia doado um Land Rover Evoque em maio de 2013 para o então diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, que havia deixado a estatal em abril de 2012. Um presentinho desses, avaliado em 250 mil reais, era indício de corrupção – ou, pelo menos, alguma lavagem de dinheiro. No dia em que a operação saiu da fase sigilosa e ganhou as ruas, 17 de março de 2014, câmeras internas flagraram familiares de Paulo Roberto Costa levando documentos do seu escritório onde mantinha uma consultoria. Três dias depois, ele foi preso por tentativa de destruição de provas. A partir daí a Lava Jato tomou outra proporção e logo chacoalharia a República.
[Vinheta de abertura]
Eu sou Natalia Viana, jornalista investigativa e apresentadora da série “Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato”. No primeiro episódio, encontramos fatos concretos que mostram a cooptação da Polícia Federal brasileira por agências americanas no começo dos anos 2000. No segundo, nos aproximamos de personagens quase folclóricos da política brasileira: os doleiros, que estão na origem da Operação Lava Jato. E agora ao lado das jornalistas Amanda Audi e Alice Maciel vamos tentar descobrir em detalhes como foi a cooperação entre autoridades brasileiras e americanas e quais eram os interesses políticos internacionais em jogo.
Episódio 03: “Triplo X”
[material de arquivo]
Depoimento Paulo Roberto Costa: Desde que eu me conheço como Petrobras, sempre soube que não se chegava à diretoria da Petrobras sem apoio político. Eu entrei na diretoria em 2004, apoiado pelo PP.
[Natália Viana]
Esse é um trecho do depoimento de Paulo Roberto Costa à Justiça, dado em 14 de setembro de 2015. Ele foi o primeiro delator da Lava Jato, mas segundo um de seus colegas de cela que ouvimos no outro episódio, o doleiro Carlos Habib Chater, sua delação só veio depois de muita pressão – a palavra que ele usou foi “tortura”. Na sua delação ele detalhou o esquema de corrupção na Petrobras: em resumo, 3% dos preços de todos os contratos eram superfaturados e devolvidos para partidos políticos.
[material de arquivo]
Depoimento Paulo Roberto Costa: os diretores que entraram em 2003, em janeiro de 2003, também tinham o apoio de partidos, principalmente do PT e do PMDB. Então, vamos dizer, a diretoria sempre teve apoio político, para chegar a [ser] diretor tinha que ter apoio político, se não, não chegava por méritos próprios. Era assim que funcionava a Petrobras.
[Natália Viana]
Segundo a Lava Jato, a distribuição de cargos na diretoria da Petrobras por partidos políticos foi um sistema que teria sido estruturado pelo deputado José Janene, do PP do Paraná. Você já ouviu isso anteriormente. Cada partido colocava ali um aliado e esse aliado organizava a contrapartida.
[material de arquivo]
Depoimento Paulo Roberto Costa: É, os partidos políticos apoiavam, visando obter algum interesse, em relação a algum retorno financeiro para esses partidos. Isso não era apenas na Petrobras, como também já declarei várias vezes, isso também funcionava em outros órgãos de governo, em outras estatais.
[Natália Viana]
Esse esquema era um segredo de polichinelo em Brasília – aquela coisa que todo mundo já ouviu falar, mas ninguém comprova. Com a Lava Jato, pela primeira vez ele era minuciosamente exposto numa investigação. E o timing não poderia ser melhor – ou pior, dependendo de que lado você está – porque vinha justamente no momento em que uma disputa comercial acontecia nos bastidores do poder, após a descoberta do pré-sal.
Você que tem me acompanhado nessa jornada já sabe que eu sempre recorro aos documentos vazados pelo WikiLeaks para entender interesses americanos. Desta vez, resolvi buscar no site provas dos interesses sobre a Petrobras. Encontrei uma série com seis telegramas enviados de Brasília entre 2009 e 2010 que detalham como a embaixada e petroleiras americanas faziam lobby contra a lei nacionalista aprovada pelo governo Lula para exploração do pré-sal. Todas as empresas estrangeiras tinham que se associar à Petrobras para explorar essas reservas. E elas não gostavam nada disso.
Um documento confidencial, de 2 de dezembro de 2009, relata uma conversa na qual a diretora de relações governamentais da Chevron pede para que o embaixador americano atue em favor das petroleiras. Ela fala, abre aspas, que a indústria vinha “travando uma dura batalha” para mudar a legislação. Diz que até se reuniu com políticos importantes da oposição, como José Serra, do PSDB, que chegou a prometer que iria alterar a lei no futuro, mas reclamou que o partido “simplesmente não apareceu nesse debate”. Ela disse suspeitar que a Petrobras estaria inflando os números dos barris de petróleo das reservas do pré-sal, e ainda passou uma dica importante: “Na verdade, não acreditamos que a Petrobras está fazendo as coisas como manda o figurino”. No despacho, o diplomata Dennis W. Hearne completou:
Efeito sonoro: alerta para leitura de mensagem
[Leitura na voz de Natália Viana]
“A Petrobras está atualmente sob investigação do Congresso por práticas fraudulentas — sonegação de impostos, superfaturamento de mercadorias e doações favoráveis a apoiadores de Lula — mas espera-se que seja inocentada das acusações por um comitê do Senado controlado pela coalizão governista”.
[Natália Viana]
Esses documentos revelam que existia interesse de petroleiras americanas em reverter a lei do pré-sal para obter vantagens e lucros na exploração. E elas contavam com o apoio da embaixada americana. E, nessa guerra comercial, os executivos da empresa e os diplomatas americanos estavam muito atentos às questões internas da Petrobras – inclusive, o tema da corrupção. Essa rede de interesses estava se desenrolando a portas fechadas, anos antes de a Lava Jato explodir.
Paulo Roberto Costa morreu em 2022, então não vamos conseguir entrevistar o delator número 1 da Lava Jato. Mas, nesta missão de ouvir fontes que viveram essa história, conseguimos falar com um ex-colega dos tempos de Petrobras, que logo também se tornaria alvo da operação. É alguém que não fala com a imprensa há mais de uma década. Mas para isso, Alice precisou fazer uma viagem às pressas.
[Sons areporto]
Ambiência interna do avião pousando. Aeromoça: Chegamos ao Rio de Janeiro, aeroporto Santos Dumont, agora: 22 horas e 46 minutos, horário local. Permaneçam sentados, com os cintos afivelados, até que a aeronave pare completamente.
[Natália Viana]
Apesar de Alice ter topado ir até o Rio só para a ocasião, na última hora o Nestor decidiu fazer a entrevista online. Ele explicou que, depois da exposição da época da Lava Jato, hoje, aos 73 anos de idade, ele prefere levar uma vida discreta. Além disso, como nossa apuração aqui é “com emoção”, não foi fácil para nossa equipe lidar com os problemas técnicos na hora de gravar.
[conversas bastidores da gravação]
Alice: Se você quiser, ajuda. Eu nunca usei esse programa no celular. João Pedro: Ele falou que não tá conseguindo. Alice: Não tá conseguindo? Você mandou o novo? João Pedro: Mandei o link. Alice: Ele conseguiria entrar do computador? Senão a gente manda pelo Meet, alguma coisa assim. João Pedro fala ao telefone: Oi. Você clica no link e não aparece nada? Alice: Pode ser do celular. João Pedro: Ah, tem que botar o nome e apertar joined. O seu nome, Nestor. Pode pôr Nestor. Eu botei o meu João Pedro.
[Natália Viana]
Alice tá aqui tentando ajudar Cerveró a usar o programa de gravação corretamente. Mas enfim, alguns problemas técnicos depois:
[Entrevista Nestor Cerveró]
Cerveró: Bom, eu vou falar, e se você não estiver me ouvindo direito. Você manda um sinal, tá? Alice: Eu estou te ouvindo, sim. Cerveró: Faz 10 anos que eu não falo, não dou entrevista. Eu usava muita entrevista, na época em que eu era diretor e depois da Lava Jato para cá, eu fiz questão de não manifestar.
[Natália Viana]
Cerveró chegou ao cargo de diretor da área internacional da Petrobras em 2003, com apoio do PT e do PMDB. Ele foi um dos primeiros investigados pela Lava Jato e, já na condição de delator, acabou colaborando pessoalmente com os procuradores americanos.
[Entrevista Nestor Cerveró]
Cerveró: eu era totalmente controlado. Eu fiquei três anos preso em casa, preso em domicílio. Então eu tinha que me submeter… eu dependia de uma boa vontade, vamos chamar assim, dos procuradores. Isso foi colocado, para continuar essa boa vontade, que de fato nunca houve, mas para não piorar a situação era importante que eu participasse e fizesse um depoimento a esse pessoal todo dos Estados Unidos. Não tinha muito como me recusar, e dizer “não quero saber, não vou cooperar, não vou fazer depoimento nenhum”, porque houve essa pressão. Alice: Isso foi falado abertamente? Que fazer a colaboração com os americanos ajudaria na relação aqui no Brasil? Nestor: As coisas não são, desculpa, as coisas não são faladas assim, tipo não foi escrito. Evidentemente que isso não foi. A contrapartida oficial que me foi apresentada, isso sim, foi escrito: que eu não seria processado nos Estados Unidos.
[Natália Viana]
Os procuradores dos EUA investigavam a corrupção na Petrobras, com base numa lei americana que ainda vamos entender mais a fundo nesta série. O objetivo nesta investigação era obter uma multa expressiva, como maneira de dar exemplo. Agora, para muitos investigados na Lava Jato, colaborar com os americanos era benéfico, porque eles não queriam ser proibidos de entrar nos EUA. Estamos falando de altos executivos que levavam seus filhos pra viajar pra Disney, alguns tinham casa em Miami, outros até moravam por lá. Mas como era a aproximação entre as autoridades americanas e os investigados brasileiros?
Antes mesmo de conseguir falar com Cerveró, Alice fez a lição de casa, claro. Dentre as dezenas de pessoas ligadas a essa complexa investigação, ela conseguiu conversar em off com alguém que integrava a equipe de defesa de alguns dos réus, e que participou de vários acordos com os americanos. Essa fonte não pôde dar entrevista, porque esses acordos são sigilosos. Portanto, não podemos revelar a identidade dessa fonte, mas em off, essa pessoa confidenciou à Alice como era a negociação. Vamos reproduzir aqui o passo a passo, na voz de Alice:
[Alice Maciel]
A primeira etapa era a existência de uma pista sobre o investigado. Como essa pista surgia? Quase sempre é porque os procuradores brasileiros já tinham acionado algum órgão americano, pedindo informações. Então, os americanos estavam ligados que aquela pessoa poderia render algo para investigação deles. O próximo passo, era o contato com o Ministério Público Federal, avisando que eles tinham interesse em entrevistar o delator, que já estava colaborando com a Lava Jato. Feito o contato com o MPF, os americanos começam a negociar diretamente com os advogados dos investigados brasileiros até chegarem num acordo válido nos Estados Unidos.
[Natália Viana]
Tudo muito bonito, no papel. Como já ouvimos com Cerveró, nessa dança entre Justiça americana, Justiça brasileira, executivos, doleiros e políticos acusados de corrupção, existiam muitas nuances. Algumas delas só podemos entender apelando pro juridiquês. Vamos chegar lá, mas antes, vale lembrar da entrevista que Amanda e eu fizemos com José Eduardo Cardozo, que era ministro da Justiça, na mesma época em que Cerveró estava, nas suas palavras, sendo pressionado para colaborar com a Justiça americana. O ex-ministro nos contou sobre uma visita inesperada de uma delegação de americanos a Curitiba no ano de 2015.
Som de fita rebobinando.
[Entrevista José Eduardo Cardozo]
Natalia: E a primeira vez em que houve indícios de que havia conversas com os americanos em relação à Lava Jato, em relação a investigar Petrobras, foi naquela visita de Curitiba ou o senhor soube antes que havia tratado isso? Cardozo: Veja, eu nunca fui informado, oficialmente, de que havia algum tipo de troca de informações da área de inteligência com a Polícia Federal e autoridades estrangeiras em relação à Lava Jato.
[Natália Viana]
Essa história foi revelada por causa do vazamento dos diálogos da Força-Tarefa em Curitiba, como você sabe, é a Vaza Jato. Os diálogos provavam que uma delegação de investigadores americanos visitou a sede do MPF em Curitiba para obter informações sem seguir o procedimento correto. Todo pedido de cooperação internacional deve passar pela “autoridade central”, o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, ou DRCI, que é um órgão do Ministério da Justiça. Ou seja, o nosso entrevistado, que na época era o próprio ministro da Justiça, deveria ter sido pelo menos informado com antecedência.
[Entrevista José Eduardo Cardozo]
Cardozo: Houve algumas situações curiosas que me levavam posteriormente à ideia de que poderia haver a troca de informações? Sim. Me lembro uma vez que os órgãos da Polícia Federal me avisaram que havia equipes dos Estados Unidos da América em Curitiba, dialogando com o Ministério Público, dialogando com autoridades de lá, que eram afetas à Justiça Federal e à Polícia Federal. Me perguntaram se eu sabia, se eu tinha sido informado de alguma coisa. Eu falei não, não sabia. Perguntei ao Itamaraty se sabia de alguma coisa, disseram que não. Perguntei ao procurador-geral da República se sabia de alguma coisa e ele no primeiro momento disse que não. O Dr. Rodrigo Janot depois me ligou e falou, “olha, parece que tem uma equipe que está organizando um seminário de integração de polícia, etc, etc, no Paraná”. Eu achei aquilo um pouco estranho, e também a própria direção da Polícia Federal também achou bastante curioso que tivesse uma equipe de 4, 5 pessoas vindo para organizar um seminário. Natalia: Na verdade, isso foi em outubro de 2015, era um grupo de pelo menos 17 americanos que estavam lá. Cardozo: Eu não sei se é desta vez, mas acho possível que seja. Eu não me lembro exatamente quando foi.
[Natália Viana]
Na terça-feira, 5 de outubro de 2015, uma delegação de pelo menos 17 americanos desembarcou na capital paranaense para conversar com membros do MPF e advogados de investigados. Eu obtive os pedidos de visto, ao longo da apuração e neles, ficava claro o que eles vinham fazer no Brasil: “levantar evidências adicionais sobre o caso e conversar com advogados sobre a cooperação de seus clientes com a investigação em curso nos EUA”. Na delegação estavam procuradores americanos ligados ao Departamento de Justiça, o DOJ na sigla em inglês, e agentes do FBI, como Leslie Backschies – vocês ainda vão ouvir falar muito dela. Todas as tratativas ocorreram na sede do MPF em Curitiba. Em quatro dias intensos de trabalho, receberam explicações detalhadas sobre investigados pelo MPF, como Alberto Youssef e Nestor Cerveró. Além disso, mantiveram reuniões com advogados de 16 delatores que haviam assinado acordos entre o final de 2014 e meados de 2015. Na entrevista, Amanda apertou o ex-ministro Cardozo.
[Entrevista José Eduardo Cardozo]
Amanda: E só para deixar claro, o senhor tinha que ficar sabendo, deveria ter se comunicado dessa visita? Cardozo: Veja, se são autoridades internacionais que estão mantendo uma cooperação nova, porque veja, aqui não estou falando de acordos já pactuados, não existe um acordo entre Brasil e Estados Unidos para que eles forneçam qualquer informação inteligente em relação a crimes nacionais, não. Isso é uma ofensa à soberania nacional. Qualquer situação nova teria que passar pelo ministro da Justiça. Até porque colaborações internacionais devem ser feitas por um órgão do Ministério da Justiça, que é o departamento respectivo, o DRCI, que faz colaborações e tudo é oficial.
[Natália Viana]
No final do dia 6 de outubro de 2015, Deltan Dallagnol foi chamado ao Telegram pelo diretor da Secretaria de Cooperação Internacional da Procuradoria-Geral da República, Vladimir Aras – você já ouviu falar deste nome. Ele dizia: “Delta, Mensagem do MJ”. O recado era grave. O Ministério da Justiça tinha tomado conhecimento da visita dos americanos pelo Itamaraty – quando eles já estavam em Curitiba. Só depois da meia-noite, já no dia 7 de outubro de 2015, Aras recebeu uma resposta de Deltan Dallagnol. Ele não quis dar detalhes ao Ministério da Justiça, sugerindo a Aras outro caminho.
Efeito sonoro: alerta de mensagem
[Leitura por Ricardo Terto]
“Eles que consultem o Departamento de Justiça Americano, porque eles pediram que mantenhamos confidencial”.
[Natália Viana]
Confidencial, não por acaso, é o nome da nossa série. Ou seja, a Força-Tarefa da Lava Jato preferiu proteger o relacionamento com os americanos a dar explicações ao governo brasileiro. Pelas mensagens obtidas com a Vaza Jato fica evidente a desconfiança, desprezo e resistência da Força Tarefa com os órgãos do Poder Executivo. Você deve estar se perguntando, por que um pedido de cooperação internacional precisa passar pelo Ministério da Justiça? Para responder essa pergunta não há ninguém melhor que o próprio chefe do DRCI.
[Entrevista Rodrigo Sagastume]
Sagastume: meu nome é Rodrigo Sagastume, atualmente eu sou diretor do DRCI. O DRCI é o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
[Natália Viana]
Viajei até Brasília para conseguir essa entrevista, que aconteceu numa manhã quente e seca. Fomos para uma sala do anexo do Ministério da Justiça, daquelas bem com cara de serviço público, com mesas de fórmica e persianas brancas na janela, sabe?
[Entrevista Rodrigo Sagastume]
Natália: E o que é o DRCI? Você pode explicar? Para que ele serve? Sagastume: O DRCI, ele é a Autoridade Central Brasileira para a Cooperação Jurídica Internacional. O que é a Autoridade Central? A cooperação jurídica é a capacidade dos Estados cooperarem para produzirem provas no exterior, falando de uma forma bem simples. Cada país indica um órgão que vai ser responsável pela tramitação desses pedidos de cooperação. No caso do Brasil, o órgão indicado pelo Estado brasileiro é o DRCI.
[Natália Viana]
É por isso que o então ministro José Eduardo Cardozo ficou indignado ao saber que o seu Ministério não foi informado da tal visita. Essa parte deu pra entender, mas pra que afinal precisamos de cooperação internacional?
[Entrevista Rodrigo Sagastume]
Sagastume: Um processo, muitas vezes demanda a produção de uma prova que não está no Brasil, ou vice-versa?
[Natália Viana]
Agora, por que os americanos não podem vir aqui e pegar provas e informações diretamente com os procuradores brasileiros? Ou o contrário, por que o Ministério Público não pode cortar caminho e pegar provas e informações diretamente lá nos EUA se for necessário?
[Entrevista Rodrigo Sagastume]
Sagastume: Olha, a gente costuma dizer primeiro que o Poder Executivo, pela Constituição, é quem tem o poder de representar o Estado brasileiro internacionalmente. Essa é uma competência exclusiva do Poder Executivo, então por isso que a autoridade central que representa internacionalmente o Brasil deve estar no Poder Executivo. E, ademais, é importante colocar que o Ministério da Justiça nunca é parte em um processo. Ao contrário, por exemplo, de um Ministério Público, da Advocacia-Geral da União, da Defensoria Pública, que atuam diretamente na ação, o Ministério da Justiça não é parte. Então, a gente tem uma posição isenta, pode produzir provas para a defesa, para a promotoria…
[Entrevista Rodrigo Sagastume]
Sagastume: Nem sempre a burocracia existe sem motivo. Numa cooperação internacional há muitos interesses em jogo e quem tem capacidade de representar o país nesses interesses é o Poder Executivo. O governo, eleito pelo povo.
[Entrevista Rodrigo Sagastume]
Sagastume: Isso de você trazer uma prova à margem da cooperação jurídica tem um jargão que a gente usa que é “cooperação selvagem”, que acontece sem nenhuma base jurídica, tá? O DRCI existe para garantir a produção legítima da prova a gente sempre alerta às autoridades que requerem as provas, dizendo, “olha, tem que tramitar pelo DRCI para não correr o risco de nulidade eventualmente apontada, ou pela defesa, por quem quer que seja, no processo”.
[Natália Viana]
“Cooperação Selvagem”, parece nome de filme duvidoso da Sessão da Tarde, mas foi o que aconteceu na visita de outubro de 2015. Na sanha de lutar contra a corrupção, procuradores da Lava Jato cruzaram limites legais na cooperação internacional, explorando a troca informal ou selvagem de informação, ou seja, a nossa já famosa inteligência ou intel. A visita dos americanos nunca foi esclarecida. Com a Vaza Jato, eu tive acesso aos nomes dos 17 americanos que estiveram nessa visita e fiz uma lista dos agentes do FBI. Nomes como George “Ren” McEachern, Leslie Backschies, David Williams. Sei que vou precisar ir atrás deles. Mas de volta a 2015, o Ministério da Justiça acabou sendo driblado.
[Entrevista José Eduardo Cardozo]
Cardozo: Se eu tivesse algum indício de abusividade, eu teria mandado abrir uma sindicância, mas efetivamente ali tinha uma informação que eram pessoas que estavam fazendo uma visita de cortesia e que era um seminário. Amanda: E olhando hoje para isso? José Eduardo: Hoje eu tenho lá minhas suspeitas. Um dia eu gostaria muito que a história as confirmasse ou as desconfirmasse. Natalia: Mas a história não, o jornalismo investigativo. Nós estamos aqui para isso, essa série é para isso.
Cardozo: Eu acho que é uma tarefa para vocês. A minha pergunta: será que houve alguma troca de informações entre os órgãos de inteligência dos Estados Unidos? Essa é a minha dúvida.
[Natália Viana]
Como você já percebeu, não é fácil conseguir as respostas que precisamos, e por isso fui em busca de alguém de dentro da PF, da época, para entender melhor o contexto. Cheguei enfim a uma fonte que ocupava uma posição de alto escalão durante a Lava Jato. Mas nossa primeira conversa não saiu como o esperado.
Ambientação sonora do escritório
[Natália Viana]
Nos encontramos num elegante escritório de advocacia, com salas de reunião com paredes de vidro, poltronas de madeira estofadas de linho e uma mesa com cafés especiais, chás e biscoitinhos para os visitantes. A fonte não fez muita questão de privacidade, conversamos ali mesmo no meio da sala, e essa pessoa avisou logo “tudo que vamos falar vai ser em off”. A tal conversa me pareceu uma grande enrolação. Sabe quando você tem a sensação que a pessoa está te escondendo alguma coisa? Saí de lá frustrada, com a sensação de tempo perdido.
Mas, como costuma ser nesses casos, nosso próximo papo foi bem mais interessante. Fomos para a sala de reunião, dessa vez a portas fechadas, em suas palavras, “com mais privacidade”.
A fonte me disse: “esse é um caso que deveria ser ensinado na academia da PF de como não fazer cooperação”. E me contou que em todas as investigações internacionais em que atuou, só dava informações se recebesse informações em troca. “Intel” por “intel”. `Para essa pessoa, a cooperação internacional tem áreas cinzentas, como essa. Esse era um caso errado, uma vergonha, mas também não era ilegal.
Falando em zonas cinzentas, em outro diálogo, no dia em que os americanos deixaram Curitiba, em outubro de 2015, o procurador da PGR Vladimir Aras, que estava de férias na Alemanha, saiu do descanso e mudou o tom da conversa com Dallagnol. Sua preocupação era evidente, a suposta visita de cortesia já era uma etapa da investigação em curso nos EUA. Portanto, precisaria de autorização do governo. O Ministério das Relações Exteriores entrou no meio, disse ele, e já se falava até em abalo das relações bilaterais entre o Brasil e os EUA. Mais um climão diplomático. Ainda assim, a visita era vista com entusiasmo pelos membros da Força-Tarefa de Curitiba, que até enviaram um email de agradecimento para os gringos. O rascunho foi enviado pelo procurador Orlando Martello para Dallagnol poucos dias depois.
Efeito sonoro: alerta de mensagem
[Leitura por Ricardo Terto]
Mensagem de Orlando Martello para Deltan Dallagnol: Foi muito interessante e útil para nós trabalhar com vocês e sua equipe na semana passada. Pudemos entender melhor os procedimentos nos EUA, assim como aprender sobre sua expertise em acordos. Com esse conhecimento, agora nós temos mais uma maneira de convencer empresas e indivíduos a revelar fatos: ameaçar informar ‘as autoridades americanas’ sobre corrupção e delitos internacionais… (risos)”.
[Natália Viana]
Em seguida e em tom mais sério, ele orientava aos procuradores americanos como deveriam proceder para interrogar os acusados brasileiros, evitando que o Supremo Tribunal Federal achasse isso uma violação da nossa soberania. O rascunho do email entusiasmou o chefe da Lava Jato, que respondeu: “Tá tão lindo que se eu tivesse aí te dava umas 8 lambidas kkkkk”, ao que Martello retrucou: “Da próxima vez faço pior então”. Os americanos seguiram à risca os conselhos da Lava Jato. Estava armada a confusão.
A possibilidade de os delatores colaborarem com os americanos foi assunto de diversas trocas de mensagem entre Vladimir Aras e membros da força-tarefa. Nelas, se nota a constante preocupação do ex-diretor da Secretaria de Cooperação Internacional e uma tensão com Dallagnol. Em 30 de novembro, ou seja, mais de um mês após a primeira grande visita, o Dallagnol avisa a Aras que os americanos já “estão ouvindo colaboradores”. Aras reage com surpresa e Deltan responde.
Efeito sonoro: alerta de mensagem
[Leitura por Ricardo Terto]
Mensagem de Deltan Dallagnol para Vladimir Aras: “Não temos controle sobre as oitivas porque são uns 10 colaboradores que já estão em tratativas de acordos, ou acordos feitos. EUA estão com faca e queijo na mão para ouvirem”.
[Natália Viana]
Com acesso direto aos delatores, os americanos estavam com a faca e o queijo na mão, ou seja, conseguiriam tocar o processo nos EUA sem depender do Ministério Público ou da Polícia Federal. Era a grande ficha caindo na Força-Tarefa em Curitiba de que os americanos estavam desde o início agindo por interesse próprio. A tensão só crescia. Eles continuam a conversa:
Efeito sonoro: alerta de mensagem
[Leitura por Ricardo Terto]
Aras: “Quando eles farão pedido formal de oitivas?”. Deltan: “Não precisam fazer. Ouvirão nos EUA os que estão soltos e podem viajar.” Aras: “Os advogados concordaram? Eles vão viajar sem salvo-conduto????? Loucura”.
[Natália Viana]
Eles vão viajar sem salvo-conduto? Vladimir Aras faz essa pergunta usando cinco vezes o ponto de interrogação. Afinal, se eles fossem detidos lá, isso também ia atrapalhar a investigação brasileira e os acordos firmados aqui. E nós sabemos que, como o tema era sensível, também poderia gerar problemas internacionais. Essa história não termina aí, tem mais.
[Ricardo Terto]
Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.
[Natália Viana]
Inclusive eu tentei muito conversar com o próprio Vladimir Aras pra essa série, mas ele não topou falar. Mas com os documentos obtidos com a Operação Spoofing descobrimos que a visita de outubro de 2015 não foi a única.
[Efeito sonoro: alerta recebimento de mensagem]
Alice: Oi gente, eu estava fazendo uma pesquisa nas mensagens da Operação Spoofing e eu encontrei um documento que é uma pauta de uma reunião dos procuradores com os americanos, em 2016, que me parece que era uma reunião que a gente não tinha mapeado, que foi em janeiro de 2016.
[Natália Viana]
Aquela nova reunião, desta vez, contou com a presença tanto de Vladimir Aras quanto de Deltan Dallagnol e de outros procuradores da Força-Tarefa de Curitiba. Eles trataram mais uma vez de várias linhas investigativas, com destaque para a corrupção na Petrobras, mas especificamente a compra de uma refinaria em Pasadena, nos EUA. Ainda em meados de 2016, a delegação americana voltou, dessa vez seguindo o procedimento legal, para ouvir cinco alvos da Lava Jato. Entre eles, Nestor Cerveró.
[Entrevista Nestor Cerveró]
Cerveró: A pressão que eles fizeram para que houvesse essa participação. Esses depoimentos do Paulo Roberto e meu e mais, eu não me lembro mais quem foi pressionado a depor. Então, para o depoimento, foi montado todo um circo. Vamos chamar, assim, aqui na Procuradoria, aqui no Rio, e que vieram dois ou três representantes do DOJ, vieram dois do FBI, veio uma tradutora e com a participação dos procuradores aqui do Rio. Começou de manhã e terminou no final da tarde. E sempre com a preocupação de demonstrar que tanto eu, que era diretor, e depois o Paulo que também me contou isso, que a Petrobras não tinha atuado de maneira a corrigir, ou seja, para criar uma série de fatores que implicassem e que realmente implicaram a Petrobras e que permitiu ao estabelecimento, que a Petrobras teve que fazer um acordo, e pagar 2 bilhões de dólares.
[Natália Viana]
É evidente, mas não custa dizer, que os americanos estavam focados no interesse deles. Ou seja: queriam incriminar a Petrobras. Importante: isso era diferente da abordagem da investigação brasileira, em que a petroleira era considerada vítima de um esquema de corrupção e não a grande culpada.
Entrevista Nestor Cerveró: (…) o que ficou evidente é que eles queriam detalhes de como funcionava, como tinham sido feitos os acordos, os negócios que faziam parte do meu depoimento. [41:15] Como foi feito com Paulo Roberto também, [41:19] ou seja, eles queriam criar um processo [41:28] dentro dos padrões americanos, [41:30] que foi o que permitiu, esses depoimentos nossos, foi o que permitiu[41:35] que a Justiça americana [41:38] processasse a Petrobras por descumprimento de uma série de regras americanas, de leis americanas. Entendeu? Então o que eles precisavam colocar o foco era esse, porque uma coisa é pegar um documento em português [41:51] feito no estilo da Polícia Federal, dos procuradores aqui, e traduzir para o inglês, outra é pegar o depoimento em inglês feito de perguntas com o foco [42:04] da Justiça americana, ou seja, o procurador que me perguntava fazia uma pergunta sobre um determinado assunto, ele já fazia para direcionar aquela responsabilidade dentro da ótica americana. [42:16] Isso que ficou evidente.
No interrogatório de Nestor Cerveró um destes temas era, mais uma vez, Pasadena:
Entrevista Nestor Cerveró: [1:00:42] Eu fui o principal responsável pelo processo de aquisição e negociação de Pasadena (…) a responsabilidade pela compra (…)[1:01:24] como qualquer compra de ativos na Petrobras pertencia ao conselho de administração e surpreendentemente o TCU nunca condenou nenhum membro do conselho (…) [1:01:52] Só foram responsabilizados os diretores e o presidente na época(…)
A refinaria de Pasadena, localizada na cidade de mesmo nome no Texas, foi adquirida de uma empresa belga pela Petrobras em 2006. Foi um mau negócio, que levou a um prejuízo de centenas de milhões de dólares. Os investigadores americanos queriam saber se houve propina no meio da compra e tinha outro fator de enorme interesse: a então presidente do Brasil Dilma Rousseff — a mesma que foi vítima da espionagem americana em 2013 — era presidente do Conselho da Petrobras na época da compra, o que lhe rendeu uma investigação na Lava Jato, contribuindo em seu processo de impeachment. Aliás, vale ler um trecho do pedido que embasou o impeachment dela, em 2016:
Efeito sonoro: alerta para leitura
“Com efeito, a máscara da competência fora primeiramente arranhada no episódio envolvendo a compra da refinaria em Pasadena pela Petrobras. (…) Na oportunidade, a presidente da República era presidente do Conselho da estatal e deu como desculpa um equívoco relativo a uma cláusula contratual. À época, muitos indagaram se essa suposta falha não infirmaria a fama de competência e expertise na seara de energia, porém, ninguém teve a audácia de desconfiar da probidade da presidente. Mas, como se diz popularmente, Pasadena foi apenas a ponta do ‘iceberg’”
Posteriormente, Dilma Rousseff seria absolvida de todas as acusações. Em sua delação premiada, Nestor admitiu que houve pagamento de propina para funcionários da Petrobras e para funcionários da empresa belga que vendeu a refinaria. Mas, na entrevista para Alice, ele explicou que Pasadena, na verdade, não era uma operação para gerar dinheiro de corrupção. Fazia parte de um plano estratégico, um plano que deveria ampliar o perfil internacional da Petrobras.
Entrevista Nestor Cerveró: [1:02:33] (…) O plano estratégico da Petrobras quando nós entramos na diretoria, nós tínhamos esse objetivo que era adquirir refino no exterior, adquirir capacidade de refino no exterior, então nós seguimos, [1:02:49] eu segui esse objetivo, fazia parte do processo de internacionalização da Petrobras (…) [1:03:33] A capacidade de refino no mercado americano [1:03:36] estava muito valorizada [1:03:37] e foi comprada dentro do estudo econômico aprovado pelo Citibank, foi conduzido pelo Citibank, foi conduzido por empresas especializadas.
Entrar no mercado de refino de petróleo americano, como vocês podem imaginar, não é fácil. É uma briga de cachorro grande e inclui interesses geopolíticos, também. Para chegar até lá, a Petrobras passou por uma investigação lá nos EUA, isso em conformidade com a lei.
Entrevista Nestor Cerveró: [22:02] No momento que a gente comprou a refinaria a gente (…) [22:07] (…) foi alvo de uma intensa investigação de todas as atividades que a gente já desenvolvia nos Estados Unidos (…) [22:23] (…) Tivemos que ir a Washington, pedir uma licença de imprimir. [22:31] Não foi simples. [22:32] O nosso pessoal passou várias reuniões no Departamento de Estado e tal, porque aí sim aí entrou sobre um crivo muito mais severo de empresa estrangeira trabalhando nos Estados Unidos. [22:45] Mas isso foi feito oficialmente, quer dizer, não era o monitoramento secreto. Isso foi necessário para poder obter a permissão de refinar petróleo nos Estados Unidos.
Mas a questão que fica é: durante a Lava Jato o interesse americano era realmente o combate à corrupção internacional ou havia também interesses econômicos? As circunstâncias indicam que sim, como já vimos pelos relatos do embaixador. Agora, será que para além dos interesses econômicos existiam também interesses na política interna brasileira?
Entrevista Nestor Cerveró: [24:59] Mas desde o começo, Alice, ficou evidente que isso era uma operação armada e depois, então, que eu convivi com o pessoal lá dentro. Eu tive que fazer inúmeros depoimentos [25:11] e conversas com os procuradores e com o juiz, com o juiz Moro e tudo isso. Ficou evidente que era um objetivo de derrubar o governo, ou seja, tirar o PT e acabar com isso (…) [25:33] Todos os procuradores faziam questão de me perguntar dez vezes o que que eu sabia do envolvimento do presidente Lula, do Lula nas operações da Petrobras. Qualquer assunto que desviasse desse foco [25:46] não interessava.
Vale lembrar que essa é a percepção de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras, que recebeu apoio do PT para assumir o cargo. Mesmo assim, sua desconfiança merece ser contemplada. Até agora, não encontramos indícios que o viés político na investigação se deve a alguma influência internacional. O que podemos afirmar, pelas mensagens obtidas pela Vaza Jato, é que além do interesse na compra da refinaria de Pasadena, havia interesse dos agentes do FBI e do Departamento de Justiça americano, o DOJ, nas investigações relativas à Operação Triplo X, que mirou a empresa de offshores Mossack Fonseca, sediada no Panamá, e o tríplex no Guarujá atribuído ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas antes vamos relembrar essa investigação que tem como foco um apartamento de cobertura com vista pro mar.
PF indicia ex-presidente Lula no caso do triplex em Guarujá_TV Brasil: “a polícia federal indiciou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a mulher dele, Marisa Letícia, no caso do triplex em Guarujá, no litoral paulista. O processo corre em segredo de justiça, mas o jornal O Estado de S. Paulo divulgou o documento na íntegra. Lula foi indiciado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, Marisa por corrupção e lavagem. Segundo a Polícia Federal, o casal foi beneficiário de vantagens ilícitas por parte da OAS em valores que alcançaram dois milhões e quatrocentos mil reais, referentes às obras de reforma no apartamento do balneário paulista. O ex-presidente nega que seja o dono do imóvel”
Ambiência de praia + trilha sonora
A acusação era que o apartamento e a reforma seriam uma espécie de “propina” como retribuição a contratos firmados entre a OAS e a Petrobras – não um contrato em específico, mas o “conjunto da obra”. O escritório de advocacia panamenho especializado na criação de empresas offshore, Mossack Fonseca, também entrou na investigação.
Fim da ambiência de praia, trilha sonora continua
O que a Mossack fazia era abrir empresas em paraísos fiscais, muitas vezes em nome de laranjas. O objetivo quase sempre era esconder dinheiro dos verdadeiros donos da grana. A Mossack Fonseca, entrou na investigação por ter um apartamento vizinho àquele atribuído a Lula no mesmo edifício e claro, por ter aberto offshores para vários investigados pela Lava Jato. Suas ações eram de enorme interesse do governo americano. Em abril de 2016, o mesmo escritório estava no centro de mais um grande vazamento de informações, conhecido como Panamá Papers. Basicamente o que ficou comprovado é que a Mossack Fonseca era uma das maiores criadoras de empresas de fachada do mundo.
Fim da trilha sonora
Longe da praia, de volta à Curitiba, mês de dezembro de 2015, essas investigações estão em curso quando a Polícia Federal recebe um pedido de compartilhamento de provas vindo do FBI.
Efeito sonoro : alerta de mensagem
17 de dezembro de 2015, 22:17, de Júlio Noronha para Deltan Dallagnol: “Naquele caso do escritório de offshores, a PF pediu (hoje, no final da tarde) para compartilharmos provas com o FBI, e o Juízo pediu para manifestarmos até amanhã na hora do almoço (para decidir antes do recesso)”.
A questão era a seguinte: o FBI estava pedindo provas diretamente à PF sobre o caso das offshores, ou seja, provas relacionadas ao escritório Mossack Fonseca. O correto, novamente, seria seguir o caminho formal que já explicamos aqui, acionar o DRCI, do Ministério da Justiça, e fazer o pedido de cooperação internacional, ou poderiam partir para “cooperação selvagem” e liberar as provas. Adivinha qual foi o caminho escolhido? Deltan Dallagnol deu sinal verde ao colega.
Efeito sonoro : alerta de mensagem
17 de dezembro de 2015, 22:20, de Deltan Dallagnol para Júlio Noronha: “Se o FBI entender desnecessário e houver decisão judicial, eu não teria receio em compartilhar…”
Trilha sonora clima de suspense
Passado o recesso de fim de ano, a Operação Triplo X foi deflagrada no dia 27 de janeiro de 2016. O objetivo, oficialmente, era descobrir se a Mossack Fonseca tinha aberto empresas offshores para esconder a propriedade dos apartamentos do Guarujá e se o empreendimento imobiliário foi, abre aspas, “utilizado pela empreiteira para repassar vantagens indevidas a agentes envolvidos no esquema criminoso da Petrobras”. A operação tinha outro objetivo, na verdade. A Lava Jato não mencionou nenhuma vez, mas o alvo era Lula.
Apresentação PowerPoint [06:03 – 06:33] (…). Hoje, o Ministério Público Federal acusa o senhor Luiz Inácio Lula da Silva como comandante máximo do esquema de corrupção identificado na Lava Jato.
A Operação Triplo X, que teve interesse dos americanos, levou à descoberta do contrato de adesão firmado pela ex-primeira-dama Marisa Letícia com a Bancoop para comprar o apartamento 141, depois trocado pelo 164-A. O contrato foi visto como uma “bala de prata” pelos procuradores. Em pouco tempo, a Lava Jato apertaria o cerco ao ex-presidente Lula.
Efeito sonoro: fita rebobinando
Áudio celular Deltan_221554: [00:00] O presidente já se trocou e está assinando o mandado de condução coercitiva e mandado de busca, recebendo a sua vi,a e está aguardando a posição do advogado dele, já ciente de que nós vamos conduzi-lo.
Lembra? No episódio anterior ouvimos esse áudio do policial federal que foi até a casa do Lula para fazer a condução coercitiva do ex-presidente, em março de 2016, criando uma cena que foi acompanhada por todo o país pela TV.
Efeito sonoro: apertando botão
Dia 14 de outubro de 2016, quase um ano depois da primeira visita dos americanos a Curitiba, e tendo as provas da Mossack Fonseca já compartilhadas com o FBI, e sete meses depois da condução coercitiva do Lula, chegamos a um grande dia para a Lava Jato.
Apresentação PowerPoint: (…) Além do esquema de corrupção, é denunciado o esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o ex-presidente Lula. O que se constatou foi o repasse de recursos, a partir dessa empresa OAS, para o ex-presidente Lula, por meio de um upgrade de um apartamento de um imóvel, [09:45 – 10:12] um triplex em Guarujá, por meio da reforma desse triplex, por meio da decoração desse triplex, e por meio de um contrato, um contrato de armazenamento de bens pessoais, um contrato milionário firmado para armazenamento, um contrato falso firmado pela OAS, como se os bens fossem dela e não do ex-presidente. Os valores das vantagens indevidas, os valores das propinas, assim transmitidas para o ex-presidente Lula, somam mais de três milhões de reais.
Esta foi a coletiva de imprensa em que Deltan Dallagnol apresentou a denúncia contra Lula, usando um recurso visual no mínimo controverso, o famoso powerpoint. A defesa alegava que Lula e a sua esposa Marisa Letícia desistiram da compra e jamais usufruíram ou foram donos do apartamento. Mas, na versão do MPF:
Apresentação powerpoint: [13:04 – 13:31]. Essas provas demonstram que Lula era o grande general, [13:31 – 13:57] que comandou a realização e a continuidade da prática dos crimes, com poderes para determinar o funcionamento e, se quisesse, para determinar a sua interrupção.
Trilha sonora “leve”, momento explicação
E assim Deltan chegava no ponto mais dramático da sua apresentação. No centro do slide o nome de Lula em um círculo azul e, em volta, quatorze outros círculos com palavras-chave como “mensalão” , “petrolão e propinocracia” , “perpetuação criminosa no poder”, “poder de decisão”. E de cada um deles uma seta apontando para o centro, para o nome de Lula, uma coisa como um “poderoso chefão” do crime. Depois da apresentação de Deltan, o ex-presidente foi denunciado por conta não desse emaranhado de palavras-chave, mas pela suposta compra do tríplex no Guarujá. Só que toda essa estratégia visual foi um tiro no pé na Lava Jato. Primeiro, o powerpoint foi imortalizado pelos memes na internet e anos depois Deltan foi condenado a pagar 75 mil reais a Lula por danos morais pela acusação descuidada.
Fim da trilha sonora
Só que você não vai acreditar: o polêmico powerpoint é quase um plágio. Foi inspirado justamente em um caso americano. Em 2015, a Suprema Corte de lá já tinha anulado este julgamento por considerar que a ação dos procuradores tinha violado o princípio da ampla defesa, e que os slides só serviam para inflamar preconceitos e paixões. Aqui no Brasil, você já sabe mas não custa recapitular: num primeiro momento, Lula foi condenado em tempo recorde pela acusação do caso tríplex, foi preso e não pôde concorrer às eleições de 2018, embora fosse favorito nas pesquisas de opinião. O STF, na época, proibiu o ex-presidente até de dar entrevistas durante a campanha de 2018. Como sabemos, o ex-militar Jair Bolsonaro saiu vencedor.
Trilha sonora clima de suspense
Era um momento de grande crise para o presidente e seus advogados. Mas entre a acusação, a prisão e as eleições de 2018, a atuação da Lava Jato começou a levantar tantas suspeitas na turma do Lula que sua defesa criou uma tese nova para fundamentar o caso, usando a teoria do lawfare, que significa “guerra jurídica”. A palavra pegou tanto que foi parar até na boca do papa Francisco, um velho conhecido de Lula. Em uma entrevista a um site argentino, ele citou o caso do Lula e disse que a Lawfare abre caminho nos meios de comunicação, e disse, entre aspas, “desqualificam, metem a suspeita de um delito, então se faz um grande processo e para condená-lo basta o volume do processo”.
Em resumo, ele diz que no caso Lula, o lawfare usou os meios de comunicação, por que era preciso impedir que ele chegasse novamente à Presidência. Mas claro que não vamos ficar só na explicação do papa, que é uma autoridade religiosa e não jurídica. Aqui na nossa investigação, quem ficou com a missão de procurar os autores da tese, ou seja, a defesa do presidente Lula, foi Amanda Audi.
Entrevista Rafael Valim [00:00] Amanda: Chegando Stela: chegando onde? Amanda: está chegando no escritório do Walfrido Warde aqui, que trabalha o Rafael Valim que é nosso entrevistado de hoje, ele foi um dos advogados da defesa do Lula, ele vai falar sobre lawfare com a gente. [00:24] (caminha até a portaria) Amanda: A gente vai no escritório do Rafael Valim.
Amanda foi acompanhada pela nossa produtora de áudio, Stela Diogo, até o escritório em São Paulo.
Entrevista Rafael Valim [16:09] Amanda: Certo, então só para antes de começar para contextualizar (…) a gente tá no seu escritório numa sala de reuniões aqui no centro de São Paulo aqui? Rafael: Não, aqui é Jardins. Amanda: Próximo da avenida Paulista, mais ou menos, então tem vários ruídos da rua que podem aparecer aqui, só para enfim explicar o que tá acontecendo. [16:37] Amanda: Então, Rafael. Queria ver se você poderia me contar um pouquinho dos bastidores de como foi o formular essa tese e tudo que envolveu a defesa do Lula [18:48] (…) Rafael: Eu me envolvi nesse tema do lawfare [17:05] por influência do casal Cristiano Zanin Martins e da Valeska Teixeira Martins que à época estavam completamente tomados pela defesa do presidente Lula (…) [18:06] (…) tinha um fenômeno que a gente examinava, que a gente via que era completamente diferente de outros conceitos que estavam à disposição, e esse termo parece que traduzia aquilo que nós víamos acontecer no Brasil naquele momento Amanda: Você pode resumir o que que é mais ou menos? [18:53] Rafael: Lawfare? (…) [19:05] No nosso caso a gente atribuiu o seguinte sentido: lawfare pra nós, é uso estratégico do direito para fins de prejudicar, deslegitimar ou aniquilar o inimigo. [23:39] (…) E claro, notadamente, o caso Lula (…) foi um episódio de lawfare que mudou o rumo do país (…) [24:17] (…)
Ou seja: o lawfare é o uso deturpado das regras do direito – um bololô, uma gambiarra jurídica – para tirar alguém do jogo político. Para os advogados de Lula, é também um modelo explicativo para entender todo o contexto da Lava Jato. Só que mais uma vez, isso não responde à pergunta: os Estados Unidos estão por trás da Lava Jato ou isso é só uma teoria da conspiração…
Entrevista Rafael Valim Eu me lembro quando a gente estava em 2015, 2016, a gente falava da participação, por exemplo, dos Estados Unidos na Lava Jato, e as pessoas a primeira coisa falavam, olha isso é uma teoria da conspiração, vixe, ouvi isso muitíssimas vezes[34:18] (…) então eu confesso que eu me irrito um pouco, quando que é, por exemplo, que a participação dos Estados Unidos na Lava Jato é a teoria da conspiração, então não leu nada sobre isso, então você tem um relatório recente do CNJ declarando com todas as letras que houve essa interlocução fora das normas jurídicas, fora das regras do Brasil entre a força-tarefa da Lava Jato e o DOJ as autoridades americanas, tem vídeos falando disso, do ponto de vista comercial [35:18] (…) a abertura do pré-sal em 2016 é uma consequência direta da Lava Jato, a queda da presidenta Dilma Rousseff é uma consequência direta da Lava Jato, presidenta Dilma, que era por assim dizer uma guardiã do pré-sal, aí então logo [que] ela ela cai o ex-presidente Michel Temer corre para aprovar essa lei que abre o mercado para as petroleiras [36:19] estrangeiras. Enfim, então negar essa participação, o benefício que decorreu da Lava Jato em favor das potências estrangeiras, notadamente nos Estados Unidos, é um erro, não digo, não é nenhuma questão de interpretação é um seria um erro histórico de gente que não tá lendo o que tá acontecendo e as informações que estão disponíveis hoje depois de tudo que a gente já viu a respeito da Operação Lava Jato
Pausa “silêncio” + Trilha sonora clima de suspense
Claro, num mundo perfeito, depois dessa entrevista com o advogado daquele que foi sem dúvida o preso considerado o maior troféu da Lava Jato, a gente falaria direto com o Lula. Só que, dando um pulo de 2018 para 2024, quando estamos nesta investigação, o roteirista do Brasil caprichou e a Lava Jato caiu por terra, Sergio Moro foi considerado um juiz parcial pelo STF, a condenação de Lula foi anulada pelo Supremo, saiu da cadeia, e foi eleito presidente da República em 2022, derrotando o Bolsonaro…, Ufa. Em 2020 a gente até conseguiu entrevistar o Lula:
Entrevista de Lula Para Pública: “Aí o juiz vai me julgar e diz “ele cometeu um crime de fato indeterminado, nós não sabemos, é segredo o crime”. Aí vai o procurador, depois de contar uma hora e meia de mentira da forma mais canalha possível – esse cidadão deveria ter sido exonerado no dia depois do PowerPoint –, faz uma hora e meia de acusação, cria uma fantasia – parecia um desenho da Disney – e diz o seguinte: não me peçam provas, eu só tenho convicção. E esse cidadão está aí, ganhando dinheiro e roubando, fazendo instituto para lesar e roubar a Petrobras, para roubar as empreiteiras com delação. Eu fico hiper irritado, mas de bom humor, um irritado mas calmo.”
Mas agora, com ele presidente, a coisa é mais complicada. Não sei se você já tentou entrevistar um presidente da República. Então, achei que o melhor caminho seria entrevistar uma pessoa que conhece Lula talvez melhor que ele próprio: seu biógrafo, o escritor Fernando Morais.
Efeito sonoro: som externo, rua
Entrevista Fernando Morais. [00:00] Deixa eu pegar aqui o endereço. A gente vai no apartamento 09? Aqui é 1… 97. Isso mesmo, apartamento 09 (…)O Fernando Morais está esperando a gente.
Mais uma vez, quem me acompanhou foi nossa diligente Stela Diogo:
Entrevista Fernando Morais [37:11] (…) Natalia: (…) então especificamente sobre a sua impressão, e eu sei que, ou seja, o Lula e o próprio Zanin, o Zanin tem a tese do lawfare, a tese de que por trás da Lava Jato havia um interesse norte-americano. Você partilha dessa visão? [39:50] Fernando: Sim, eu tenho certeza absoluta. Tenho certeza absoluta. As visitas do Moro ao FBI, visitas públicas, sabe? As pessoas brincavam, [40:04] o Requião aqui do Brasil brincava dizendo o seguinte, na hora que o Moro entra no FBI, a senha dele apita, já está tão acostumado que já entra e ela [40:22] buzina, então eu, sabe, não tenho dúvidas, o que o Moro foi fazer lá tem que explicar, eles vão ter que explicar, ele veio aqui fazer isso, isso e aquilo.
Você pode achar que sou uma pessoa obcecada, e acho que sou mesmo. Além das reportagens com os documentos vazados pela Vaza Jato, também fiz uma reportagem com base em diversos registros públicos de reuniões, mostrando que quando Moro era ministro da Justiça, ele abriu as portas para o FBI no Brasil.
Trilha sonora “interferência”
Foram repetidas reuniões com agentes do FBI no Ministério da Justiça, mais do que qualquer governo anterior. Moro também assinou acordos para compartilhar informações biométricas de cidadãos brasileiros e concluiu a criação de um Centro Integrado de Operações na Tríplice Fronteira, um projeto dos sonhos da embaixada americana, que há anos pressionava o governo brasileiro para investigar suspeitas de atividades terroristas na região – como já falamos. Além disso, tem a cerejinha do bolo: pouco depois da Vaza Jato, quando estava sob ataque pela primeira vez desde o começo da operação, Moro tirou, do nada, uma “licença não remunerada” para uma semana de “férias” com a esposa. O casal passou quatro dias em Washington, capital dos Estados Unidos, tirando fotos diante da Casa Branca e demais pontos turísticos e postando nas redes com aquele sorriso amarelo de “estou de férias no meio da maior crise da minha carreira política”. Na época, fiz um pedido pela Lei de Acesso à Informação, ou Freedom of Information Act nos EUA, que permite a qualquer pessoa pedir informações oficiais, perguntando se Moro teve encontro com representantes do FBI. Sabe o que o FBI respondeu? “Não confirma, nem nega”. Pra bom entendedor, meia palavra basta.
Fim da trilha sonora
É extremamente incomum que o ministro da Justiça de um país visite a sede da polícia de outra nação, ainda mais de forma não oficial. Fato é que quatro dias depois do retorno de Moro, o hacker que tinha obtido os diálogos do celular de Deltan Dallagnol foi preso pela PF, na famosa Operação Spoofing que vocês já ouviram por aqui… Será que chegou alguma “intelig”, ou informação de inteligência, para o então ministro da Justiça lá em Washington sobre como achar o hacker?
Entrevista Fernando Morais: Natalia: [40:38] Mas você acha então que foi uma armação pra quê? Pra tirar o Lula?[40:43] Fernando: O Lula, acho que tudo isso foi feito pra tirar o Lula, a Dilma foi degolada como parte do processo para derrubar o Lula, para afastar o Lula da vida pública. Natalia: [40:58] E por que era tão importante afastar o Lula da vida pública? Fernando: [41:01] Porque o Lula é a figura de esquerda mais importante da América Latina, sabe? Você pode dizer que é muito de esquerda, pouco de esquerda, não importa, não importa, ele é visto [41:15] pelos órgãos de segurança norte-americanos como uma figura de esquerda mais importante da América Latina. Você vai dizer “ah não, mas o Raul Castro, é mais importante”, sim, só que Cuba tem o PIB da Daslu, sabe? E o Brasil tem 250 [41:32] milhões de habitantes. Então, “ah, não, mas tem a Venezuela, tem o Maduro”. Sim, mas a Venezuela tem 40 milhões de habitantes, sabe? Eu estou convencido de que era para [41:45] tirar o Lula, era para tirar o Lula.
Fernando Morais aguarda o recebimento de documentos que podem adicionar provas objetivas à sua análise. Ele solicitou, via lei de acesso à informação, a diversas agências dos EUA registros sobre Lula. E já descobriu que existem no total 613 documentos sobre seu biografado. O simples fato de esses documentos existirem demonstram que a figura de Lula despertava interesse por parte das agências americanas, e que ele foi monitorado desde a época em que era sindicalista.
Entrevista Fernando Morais: [13:21] (…) Natalia: por que você e o Lula acreditavam que era importante saber como os EUA estavam vendo o Lula? Fernando: Porque os EUA vigiam o mundo, não deixariam de vigiar um cara que estava surgindo como os liderança internacional de esquerda, desde o período [14:00] que ele era sindicalista, liderança das greves. Por exemplo, um negócio que me interessa muito, como é que eles estavam monitorando a atividade dele [14:14] durante as greves, sobretudo a greve de 80, que foi aquela greve interminável, 40 dias, 40 noites, que acabaram prendendo o Lula. [14:27] Me interessava isso e me interessavam sobretudo os governos dele, os dois governos, qual era o interesse, porque na verdade não era tanto o que eles registraram, mas no que eles estavam interessados? Qual era exatamente o tema em que eles debruçaram?
Fernando Morais acredita que a Lava Jato tinha Lula como um alvo pré determinado, mas temos evidências suficientes para afirmar que o governo americano está por trás da Lava Jato? Podemos nos convencer só com circunstâncias ou precisamos de provas?
Entrevista Fernando Morais [42:45] (…) Fernando: não, se não tiver [43:01] informação eu fico sempre com o pé atrás com o negócio de ser paranoia, teoria da conspiração, né, que isso tem agora, os [43:16] caras grampearam a presidente da Petrobras, grampearam a presidente da República que tinha sido conselheira da Petrobras antes que ela era ministra. Depois que é anunciada a descoberta do pré-sal, sabe, é uma dedução mais ou menos óbvia, sabe.
Pausa, silêncio
Fernando é um grande jornalista que conhece a trajetória do ex-presidente como ninguém, mas é amigo e biógrafo de Lula. Por isso, eu queria ouvir a perspectiva de uma outra grande jornalista que admiro muito. Ela conhece em profundidade a história de outro grande nome da Lava Jato, a empreiteira Odebrecht. Para isso, precisei pegar mais uma ponte aérea e viajei até o Rio de Janeiro.
Ambiência: aeroporto, viagem para o Rio
Malu Gaspar é autora do livro A Organização, uma reportagem profunda sobre a história da Odebrecht e, claro, dos esquemas de corrupção em que esteve envolvida. Ela é acusada por muita gente de ser “lavajatista”, mas é uma jornalista exemplar. Não é pouco trabalho contar a história daquela que foi durante décadas a maior empreiteira do país.
Entrevista Malu Gaspar[1:18:03] Natalia: Quando eu te chamei para fazer essa entrevista, você fez um comentário. Eu acho a visão de que os Estados Unidos estão por trás da Lava Jato é uma visão simplista. Explica qual é a sua visão sobre a participação dos americanos (…)Como é que você vê? Malu: [1:18:23] Olha, eu acho realmente muito simplista. Desde o começo, quando eu comecei a ouvir as histórias de que estudaram nos Estados Unidos, então a CIA inoculou no Sergio Moro e no Deltan Dallagnol o vírus da [1:18:36] Lava Jato. Eu acho isso muito… Chega a ser patético. É ridículo isso. Até porque isso… Eu tenho para mim que a Lava Jato em algum momento ia acontecer. Outras operações foram abortadas e em alguma hora isso ia acabar [1:18:50] acontecendo por conta de que quem investiga aprende a driblar também os estratagemas dos criminosos. É assim que funciona. Esse é o ciclo histórico. Então, eu acho isso muito simplista e até meio romântico.[1:19:02] Coisa de quem vê filme ruim da Sessão da Tarde.
Trilha sonora da série
Romântica, talvez seja eu, que no fim deste terceiro episódio tenho apenas duas certezas: a primeira, que estamos avançando e já temos na nossa bagagem algumas descobertas importantes sobre a influência americana na Lava Jato. E, a segunda: que só o jornalismo investigativo pode nos ajudar a chegar do outro lado.
PayPal 





