Buscar
Coluna

O racismo climático e a insanidade da polarização nas redes

Em um país que odeia ser chamado de racista, expressão que reflete o lado mais triste da crise climática vira lacração

Coluna
19 de janeiro de 2024
06:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Ouça Giovana Girardi

Giovana Girardi

Em um país que odeia ser chamado de racista, expressão que reflete o lado mais triste da crise climática vira lacração

0:00

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Tem um quê de deprimente a polêmica da vez das redes sociais no Brasil em torno do termo “racismo climático”. O conceito não é novo. É usado pela academia já há algumas décadas, pela ONU e até por organizações internacionais insuspeitas de serem “coisa de esquerda”, como o Fórum Econômico Mundial. É um dos pilares de um conceito ainda mais amplo, de justiça climática, sem a qual é impossível de fato combater a crise climática.

Mas num país em que tudo vira motivo para um Fla-Flu digital, a expressão usada pela ministra Anielle Franco, ao comentar o desastre das chuvas no Rio de Janeiro no fim de semana passado, que causaram pelo menos 12 mortes, causou um auê.

No domingo, a titular da pasta de Igualdade Racial postou em sua conta no Twitter/X: “Estou acompanhando os efeitos da chuva de ontem nos municípios do Rio e o estado de alerta com as iminentes tragédias, fruto também dos efeitos do racismo ambiental e climático”. 

Num país que não lida bem com seu histórico escravocrata, que odeia ser chamado de racista, que nega até mesmo que o racismo seja parte da nossa sociedade, ver uma ministra negra, de um governo de esquerda, falando em: “o quê? racismo ambiental?”, pareceu um absurdo de outro mundo. 

Estava ali, entregue numa bandeja de prata, o tema para a lacração das redes nos dias que se seguiram. Uma reação, diga-se, completamente desproporcional.

Sem parar para pensar um segundo no que ela estava dizendo ou tentar entender o problema de fundo, a causação começou. Primeiro com as piadas: “São Pedro raciste!”, disseram alguns. “A neve é branca. É isso o racismo?”, disseram outros. Um monte de gente postou que o racismo era tirar a roupa do varal quando se veem nuvens negras no céu. Engraçadinhos. Só que não. E isso era o mais leve. 

No fundo, havia uma irritação enraizada: “Tudo agora é racismo?”, resumiu alguém. Teve coisa muito pior, como ofensas diretas a Anielle, que por motivos óbvios não vou reproduzir aqui.

Aí veio a turma do “racismo ambiental/climático não existe, o problema é a desigualdade social, a falta de moradia, de saneamento, que atinge também brancos, etc. etc”. O economista Joel Pinheiro da Fonseca defendeu mais ou menos essa ideia na sua coluna na Folha, o que acabou colocando mais lenha na fogueira das redes. 

Para Fonseca, Anielle usou em seu post um “lugar-comum do discurso progressista” e um “roteiro preguiçoso”. Falar em racismo ambiental, argumenta ele, é inócuo e fazer um recorte racial não ajuda na resolução do problema. “Embora o problema social continue o mesmo, nossa maneira de olhar para ele mudou. Quando falamos em racismo, já apagamos quaisquer vítimas brancas”, escreveu, iniciando sua linha de raciocínio.

Aí segue: “Tratar o problema como um tipo de racismo nos afasta das soluções. Em vez de discutir obras de infraestrutura urbana, novas moradias – que nada têm a ver com cor de pele – vamos discutir o racismo na sociedade, discussão cuja conclusão obrigatória, já sabemos, é que ele é ‘estrutural’ e portanto só será resolvido com o fim do capitalismo. Era tão mais fácil melhorar o escoamento urbano…”.

Já poderia questionar um monte de coisa aí, mas então ele continua: “Há áreas em que o recorte racial é relevante, porque joga luz em mazelas de que a simples desigualdade social não dá conta. Um negro pobre sofrerá mais assédio de seguranças de um shopping do que um branco pobre. Mas será que as chuvas castigam mais um negro favelado do que seu vizinho branco? Claro que não. […] Ou será que, resolvendo o problema do racismo, estariam também resolvidas as enchentes nas periferias? Talvez até o aquecimento global?”.

Eu não vou aqui debater ponto por ponto porque tem gente muito mais capaz e habilitada e com lugar de fala do que eu fazendo isso. Recomendo este vídeo da jornalista Flavia Oliveira e este post do advogado Thiago Amparo. Mas vamos em dois pontos. Não, Joel, de fato um “negro favelado” e “seu vizinho branco” muito provavelmente serão afetados da mesma forma diante de um deslizamento de terra ou de uma inundação, mas não é essa a conta, né? 

Não é porque existem brancos vivendo em favelas que isso atenua o fato de que a maioria ali é negra. De que a maioria das vítimas nesse tipo de desastre é negra. Ou de que os lugares com menos estragos, mais seguros, com menos vítimas, sejam de maioria branca. 

O impacto é desproporcional, e isso não é apenas fruto da desigualdade social. O que será que empurra mais negros à pobreza e a condições desumanas de vida?

Resolver o racismo resolveria a enchente ou o aquecimento global? Poxa, não é essa a pergunta, né? Agora, quem será que se sente mais ameaçado diante de uma enchente ou do aquecimento global? Tentar “resolver” esses problemas sem levar essas diferenças em conta só vai aumentar essa disparidade.

O jornalista Pedro Doria propôs que talvez a gente não devesse falar em racismo ambiental ou climático ou o que seja. Não precisa da expressão, diz ele, se os pontos que ela encerra são bem aceitos e conhecidos: de que os negros estão entre os mais pobres e vulneráveis e são os com menos acesso à infraestrutura. Para ele, ao se lançar mão da expressão, o que se cria imediatamente é atrito entre os lados polarizados do país. Falar em racismo ambiental, argumenta, “é fazer política da lacração, não política da solução”.

Que loucura, né? Então quer dizer que é melhor não usar o nome certo das coisas, ou isso vai atiçar sensibilidades e aí já era o debate sério sobre o problema? 

Isso me lembrou uma palestra que vi há muitos anos de um jornalista ambiental americano que tinha feito uma matéria sobre políticas adotadas na Flórida – estado dominado por republicanos nos Estados Unidos –, de adaptação às mudanças climáticas. 

Ele disse que várias medidas vinham sendo tomadas tendo em vista o aumento do nível do mar, de tempestades, de risco de enchentes e inundações e tal, todas levando em conta as projeções de cientistas do clima. Mas sem nunca falar em mudança do clima, aquecimento global, nada. 

Usar essas palavras era proibido, para não espantar os republicanos, que poderiam se opor. Só assim as políticas passavam. uma prática de dourar a pílula, usar outros argumentos, tudo para não virar lacração. Que infantil. Que coisa mais triste…

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Flávio Bolsonaro fez 3 propostas de lei sobre segurança da mulher em 24 anos de política

|

Nenhuma delas chegou a ser aprovada e uma foi apresentada quando o senador já era pré-candidato à Presidência

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas