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No Irã, maioria se opõe ao regime mas não confia em Israel nem nos Estados Unidos

Mulheres lideram protestos e querem fim do regime, mas “não são vítimas à espera da salvação do Ocidente”

Análise
4 de março de 2026
11:00
Iranianos condenam a agressão israelense-americana em protestos pelas ruas do país
Zahrasadat Hosseiny/Tasnim News Agency/Creative Commons Attribution 4.0

Às 8:10 de sábado, no horário local em Teerã, as forças de defesa de Israel dispararam 30 mísseis Sparrow, fabricados pelos Estados Unidos (EUA), contra o complexo onde se encontrava o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, enquanto bombardeios simultâneos atingiram a cúpula do regime e torres de celular para que não fossem alertados sobre o ataque surpresa e sem precedentes. A morte de Khamenei só foi confirmada no dia seguinte. Até lá, vídeos de iranianos celebrando o fim de uma era sob a liderança de um autocrata religioso que exerceu poder absoluto por quase 40 anos já haviam viralizado na Internet.

Menos visíveis na imprensa internacional e nas redes sociais, multidões de apoiadores do regime ocuparam as praças centrais da capital e de cidades históricas, como Isfahan e Yazd, para lamentar o “martírio” do líder. Com o menor índice de popularidade desde a Revolução Islâmica, o regime mantém o apoio de 10% a 20% dos iranianos, segundo pesquisas não oficiais. É um número significativo considerando a população de 92 milhões de habitantes.

Para estes, o discurso anti-imperialista tem forte apelo. Mas, supor que a maioria dos iranianos, que têm enfrentado a brutalidade do regime em protestos crescentes, apoiaria um ataque unilateral dos EUA e de Israel contra o país soberano é um engano que ignora a história do país.   

O Irã é uma das mais antigas civilizações do mundo. Descende do Império Persa, herança de 6 mil anos que sustenta o forte nacionalismo iraniano. A maioria da população é educada e politizada, especialmente nas áreas urbanas, e as mulheres ocupam 70% das vagas nas universidades. A crise econômica, agravada pelo aumento das sanções dos Estados Unidos contra o Irã, impactou as mulheres de forma desproporcional, e a proporção delas no mercado de trabalho despencou da metade para 15% na última década.

Não à toa, ao longo dos anos, elas lideraram os maiores protestos contra o regime. Em 2022, o assassinato de Mahsa Amini, curda-iraniana de 22 anos, levou-as às ruas em números recordes. Amini havia sido presa pela chamada Patrulha de Orientação, a polícia de moralidade, por supostamente não usar o hijab conforme os padrões exigidos pelo regime. No Irã, o uso do véu islâmico é obrigatório por lei. No voo que peguei para Teerã, o comissário de bordo pediu às mulheres que se cobrissem assim que entramos no espaço aéreo iraniano, e testemunhei muitas jovens serem levadas das ruas por policiais por terem o cabelo parcialmente descoberto.

Mas as iranianas não lutam contra o hijab. Elas lutam pelo direito de escolha, ainda que decidam cobrir-se. Quem me disse isso foi Shirin Ebadi, advogada iraniana e a primeira mulher a ganhar o Nobel da Paz, que vestia o hijab quando me atendeu em entrevista em sua casa. Para ir até lá, chamei o serviço de táxi fundado por uma iraniana que escapara de um casamento arranjado fingindo-se de louca e, mais tarde, fundou uma cooperativa, então com 900 motoristas mulheres, que transportava exclusivamente mulheres.

As iranianas não são vítimas à espera de salvação pelo Ocidente. Elas são sobreviventes de um regime opressor que elas desafiam o tempo todo e que hoje está enfraquecido, em grande parte, graças à sua luta, muitas vezes recorrendo à criatividade para driblar os aiatolás. Quando estive no Irã, as mulheres interrompiam o que estivessem fazendo pontualmente ao meio-dia e permaneciam um minuto em silêncio em protesto contra o regime.

O Irã, aliás, não tem apenas uma, mas duas laureadas com o Prêmio Nobel da Paz. Narges Mohammadi foi nomeada em 2023, quando estava na cadeia por defender os direitos humanos. Ela chegou a ser solta, mas foi condenada a seis anos de detenção e presa novamente. Grande parte, se não a maioria, dos opositores ao regime está presa ou exilada.

Daí a imaginar que receberiam de braços abertos os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel é um erro. Me espantaria ouvir de qualquer um deles que acredita nas intenções altruístas de Donald Trump e Benjamin Netanyahu para libertar o povo iraniano da opressão. Nenhum iraniano seria ingênuo a esse ponto.

Sua história recente é marcada por intervenções externas, talvez a mais significativa, o apoio dos Estados Unidos e do Reino Unido ao golpe que, em 1953, depôs o primeiro-ministro eleito democraticamente, Mohammad Mossadegh, um herói nacional que se opôs ao domínio britânico e ousou nacionalizar a indústria de petróleo. Temendo uma aliança entre o Irã e a União Soviética, ambos atuaram ativamente para consolidar o poder do Xá Mohammad Reza Pahlavi.

A insatisfação com a monarquia autoritária e corrupta de Pahlavi levou à Revolução Islâmica de 1979. Muitos dos reformistas iranianos apoiaram a revolução liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, mas se tornaram dissidentes assim que se tornou claro que a promessa de instaurar um sistema democrático não seria cumprida. Khamenei, que sucedeu a Khomeini após a sua morte em 1989, consolidou poder absoluto nas mãos do líder supremo, sob a proteção da Guarda Revolucionária, uma força paramilitar criada para defender os ideais da revolução e os interesses do regime.

Por mais que desejem o fim do regime, os iranianos testemunharam de perto as invasões militares dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, com os quais o Irã faz fronteira, e as intervenções americanas na Líbia e na Síria— campanhas para derrubar os regimes no poder que mataram centenas de milhares de civis, afundaram os países em um caos maior do que antes e fracassaram em instaurar a democracia.

O Irã não é o Afeganistão, o Iraque, a Líbia ou a Síria. Não existem no país divisões sectárias importantes nem grupos armados de oposição. O Irã tem instituições sólidas e hierárquicas. Imaginar que a morte de Khamenei significaria o fim do regime é outro erro de cálculo. Sem dúvida, os bombardeios de sábado abalaram a estrutura do regime. Entre os mortos nos bombardeios do fim de semana estão o comandante da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), Mohammad Pakpour, o Ministro da Defesa, Amir Nasirzadeh, e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Mohammad Bagheri, além de oficiais da inteligência, da segurança e da unidade antiterrorismo.

Ao menos até agora, o regime se mostrou resiliente. Imediatamente após o ataque, um conselho de transição previsto na Constituição iraniana e formado pelo presidente Masoud Pezeshkian, pelo chefe do Judiciário Mohseni-Ejei e pelo líder do Conselho dos Guardiães, Alireza Arafi, assumiu o governo. Arafi também foi apontado como líder supremo interino, embora, na prática, as atribuições do posto tenham sido entregues ao atual secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Larijani, um matemático, filósofo e veterano da política iraniana, responsável por negociar acordos nucleares com o Ocidente no passado.

Considerado um negociador pragmático, Larijani surpreendeu pelo tom ameaçador com que respondeu aos bombardeios dos EUA e de Israel: “Os bravos soldados e a grande nação do Irã darão uma lição inesquecível aos infernais opressores internacionais”, acrescentou. Em retaliação ao ataque unilateral não provocado, o Irã lançou milhares de mísseis contra bases americanas em Abu Dhabi e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; em Doha, no Catar; em Manama, capital do Bahrein; em Cidade do Kuwait e em Mascate, capital de Omã. A escalada da guerra ameaça mergulhar toda a região em um conflito sem fim.

Que o regime iraniano sobreviverá, ao menos no curto prazo, não há dúvida. A pergunta central é se sobreviverá em uma versão ainda mais opressora e brutal ou se cederá às pressões internas por reformas.

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Tasnim News Agency/Creative Commons Attribution 4.0

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