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Copa 2026: protestos no México revelam drama das famílias de 130 mil desaparecidos

Anistia Internacional aponta que o número de desaparecidos e não localizados no país cresceu 10,5% entre 2024 e 2025

Reportagem
12 de junho de 2026
18:21
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Augusta Lunardi/Agência Pública

Ciudad de México – Mães, pais, irmãos, esposos e esposas de pessoas desaparecidas de todo o México se fizeram presentes e disputaram com vuvuzelas, bandeiras e camisetas da seleção mexicana a atenção do mundo nesta quinta-feira, 11 de junho, durante a abertura da Copa do Mundo 2026 na Cidade do México. 

O objetivo era, diante dos holofotes internacionais, denunciar a grave crise humanitária pela qual o país atravessa. A mensagem foi clara: enquanto o governo mexicano investe no Mundial, mais de 130 mil pessoas seguem desaparecidas no país, segundo dados oficiais do governo mexicano. 

Na capital, milhares de cartazes com fotos de desaparecidos, pichações e faixas foram espalhados pelos pontos mais emblemáticos da cidade. Pelo menos nove marchas e 26 concentrações de protestos ocorreram durante a abertura do Mundial. A Coordenadoria Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE) estima que as manifestações mobilizaram pelo menos 6 mil pessoas. O governo não divulgou um número oficial.

No dia da abertura, eles não estavam sozinhos. A cada esquina, em meio a policiais, vendedores ambulantes, torcedores e um trânsito caótico, professores, aposentados, profissionais da saúde, agricultores e membros de diversos outros movimentos protestavam pelas mais variadas causas e reivindicações.

Na véspera do torneio, os coletivos, muitos deles conhecidos como “Madres Buscadoras”, organizaram uma marcha fúnebre ao redor do Estádio Azteca — uma imagem que chegou aos noticiários do mundo inteiro. Nomeada de “Iluminemos la búsqueda”, a manifestação da quarta-feira, dia 10, reuniu grupos de pelo menos 10 estados mexicanos. O Coletivo Luz de Esperança de Jalisco levou mais de 100 famílias buscadoras apenas do seu estado.

“Por que os procuramos? Porque os amamos! Até quando os procuraremos? Até encontrá-los!” eram as principais palavras de ordem dos familiares, usando camisetas ou cartazes com fotos e nomes de seus entes desaparecidos. 

Yuri Peralta era uma das manifestantes. Segurava um cartaz com a foto do marido desaparecido, Luis Fernando Luna Juárez, num formato que imita álbuns de figurinhas — estratégia adotada pelos coletivos de familiares para chamar a atenção e criar empatia entre turistas e torcedores de futebol. Juárez sumiu no ano passado e, desde então, a família não tem nenhuma resposta das autoridades nem pistas de seu paradeiro. 

Por que isso importa?

  • A Copa do Mundo 2026 está sendo realizada em três países: Estados Unidos, Canadá e México. O investimento no torneio pelo México foi de R$ 41 bilhões.
  • O México ocupa o quarto lugar entre os países mais violentos do mundo atrás apenas da Palestina, de Mianmar e da Síria.

Peralta, camareira em um hotel de luxo na Cidade do México, pediu folga naquele dia para se manifestar em frente ao Estádio Azteca. “Para que se veja quantas pessoas estão desaparecidas. Para nos fazermos presentes. Para que não esqueçam de seus rostos. Muita gente que vem aqui só pelo futebol, mas nós viemos lembrar que também há desaparecidos. Eu trabalho em um hotel e vejo chegar muitos turistas para os jogos, e fico triste que não tenham empatia com a nossa causa. Embora entenda que, até você viver isso na pele, você não consegue entender de verdade”, lamenta.

A alguns quilômetros dali, horas mais tarde, o apito final do jogo de abertura anunciou uma vitória de 2 a 0 do México sobre a África do Sul. No ‘Paseo de la Reforma’, avenida mais conhecida da capital, milhares de torcedores pintados de verde, vermelho e branco comemoravam debaixo de uma tempestade torrencial.

Um palco com telão havia sido instalado entre duas glorietas  (como os mexicanos chamam as rotatórias) com monumentos emblemáticos na Cidade do México: o Anjo da Independência, cartão-postal da capital, e a Glorieta de la Palma, rebatizada pelos movimentos sociais como “glorieta dos desaparecidos”. As duas rotatórias estavam cobertas de fotos com rostos e nomes de pessoas desaparecidas.

No meio, o palco e a festa do futebol. Em volta, os rostos dos ausentes. Um contraste difícil de ignorar em um país que, para os turistas, parece seguro, mas que esconde uma violência silenciosa. O México ocupa o quarto lugar entre os países mais violentos do mundo, de acordo com o Índice de Conflitos e Violência Política 2025, relatório anual da Armed Conflict Location and Event Data Project (ACLED), organização internacional que monitora conflitos armados e episódios de violência ao redor do mundo. O país fica atrás apenas da Palestina, de Mianmar e da Síria.

Segundo relatório de 2025 da organização Anistia Internacional, o México acumula um total histórico de 133.500 pessoas desaparecidas e não localizadas, e que em 2025 houve um aumento de 10,5% de casos em relação ao ano anterior. A organização também aponta que 88% de todos os registros de desaparecimentos realizados desde 1950 ocorreram entre 2006 e 2024, período que coincide com a militarização da segurança pública no país.

Em março do ano passado, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, apresentou uma “Declaração sobre Pessoas Desaparecidas”. O documento foi duramente criticado por 158 coletivos de familiares, que acusaram Sheinbaum de demonstrar “enorme desconhecimento do fenômeno” e de ter excluído as famílias das vítimas na elaboração da estratégia.

“Se nós mesmos não buscamos nossos familiares, ninguém mais o faz. Infelizmente, a Comissão de Busca de Pessoas Desaparecidas no México é uma área que está obsoleta há sete anos. Ter um dos eventos mais importantes do mundo no México, onde temos mais de 133.000 pessoas desaparecidas, é uma oportunidade única que a vida nos está apresentando: temos que aproveitá-la para visibilizar diante do mundo a grave crise humanitária que estamos vivendo no país”, explica Héctor Flores, cofundador do Coletivo Luz de Esperança Desaparecidos Jalisco. Ele procura por seu filho Héctor Daniel Flores Fernández, vítima  aos 19 anos  de um desaparecimento forçado  ocorrido em maio de 2021.

Além da falta de apoio estatal na busca ativa, os coletivos também denunciaram a ausência de diálogo com o governo. Em dezembro de 2025, Sheinbaum voltou a provocar a ira dos familiares ao afirmar que muitos desaparecimentos não estão relacionados com o crime organizado, e sim causados por “ausências voluntárias por problemas familiares”.

A origem dos desaparecimentos no México raramente é aleatório. Liliana Meza, Presidente e cofundadora do Coletivo Luz de Esperança Desaparecidos Jalisco, viveu isso na pele. Ela passou de recepcionista de clínica médica a ativista em tempo integral, na noite de 22 de outubro de 2020, quando um grupo armado invadiu sua casa sem mandado de busca, apresentando-se como agentes da polícia e do Ministério Público. Meza conta que eles possuíam crachás, mas não mostraram seus nomes ou documentos de identificação.

O grupo levou à força seu filho mais velho, Carlos Maximiliano, então com 18 anos. Meza tentou impedi-los e teve uma pistola apontada para a cabeça enquanto o jovem era arrastado para dentro de uma caminhonete branca. A ordem de prisão que alegavam ter nunca existiu. Nenhuma denúncia contra ele havia sido registrada no Ministério Público. Cinco anos e meio depois, Carlos Maximiliano Meza continua desaparecido. A mãe  segue exigindo respostas das autoridades, sem sucesso. As imagens das câmeras de segurança que poderiam comprovar o sequestro foram deletadas, como aconteceu na maioria dos casos similares relatados à Agência Pública no local.

Segundo Meza, o mecanismo por trás da maioria das desaparições é o recrutamento forçado: grupos criminosos sequestram jovens para integrá-los às suas estruturas por meio de violência, coerção e terror psicológico. O perfil das vítimas é variado: de pais de família a estudantes, mas, na maioria dos casos, são homens. Carlos Maximiliano Meza cursava o segundo semestre de design gráfico na Universidade de Guadalajara, sustentado pelos pais, sem qualquer envolvimento com o crime. A lógica dos grupos criminosos, explica a mãe, não distingue culpados de inocentes, e sim “úteis” de “inúteis”. E os jovens são o alvo preferencial. “O que eles mais capturam são os jovens, pois se trata de uma mão de obra gratuita, que é o que precisam para que suas organizações e negócios continuem funcionando.”

O destino dessas pessoas é variado e perturbador. A cofundadora do coletivo Luz de Esperanza desfaz o estereótipo de que todos os recrutados vão parar em atividades ilícitas. Segundo ela, há, de fato, jovens enviados para facções criminosas e narcolaboratórios, mas muitos são forçados a trabalhar em colheitas de frutas ou trabalhos domésticos forçados. Formas de escravidão modernas que movimentam dinheiro legal. “Essas células criminosas fazem de tudo. Qualquer negócio onde se possa tirar dinheiro”, explica.

O controle sobre os recrutados é mantido pelo terror e pela ameaça constante às suas famílias. Pessoas libertadas ou que conseguiram escapar contaram ao coletivo o modus operandi dos cartéis. 

“Eles reúnem os reféns e perguntam quem quer ir para casa. Quem levanta a mão leva um tiro na frente de todos. Se você tentar fugir, te matam ou matam sua família. Fazem coisas terríveis, como obrigá-los a dormir com cadáveres. Tudo para causar terror e evitar que tentem escapar”, relata Meza. 

Os sequestrados costumam ser levados para acampamentos em serras isoladas, a quilômetros de qualquer rodovia ou estrada, estrategicamente posicionados nas fronteiras entre estados para dificultar a ação policial, pois quando a polícia de um estado se aproxima, os grupos simplesmente cruzam para o estado vizinho, onde aquela jurisdição não tem alcance.

Jalisco, epicentro dos desaparecimentos forçados no México

O estado de Jalisco conta com o maior número de desaparecidos do México hoje: mais de 16 mil pessoas registradas oficialmente. A maioria dos desaparecimentos locais  é atribuído ao Cartel Jalisco Nueva Generación, o CJNG, que em menos de uma década se consolidou como a organização criminosa mais violenta e dominante do país.

O Coletivo Luz de Esperança Desaparecidos de Jalisco é um dos mais ativos e mais influentes do país. Com cerca de 500 integrantes, se reúne várias vezes por semana para colar cartazes pela cidade, realizar buscas noturnas por pessoas em situação de rua e, principalmente, fazer buscas de campo: as mais difíceis, mas as que rendem resultados. 

Fossas clandestinas circulam Estádio que sediará jogos da Copa 

O Estádio Akron, em Zapopan, município da região metropolitana de Guadalajara que sediará jogos da Copa, está cercado por fossas clandestinas. Desde 2022, coletivos de busca trabalham em pontos próximos ao estádio e já recuperaram ao menos 456 sacos com restos humanos nas redondezas. Em todo o estado, foram localizadas 224 fossas clandestinas nos últimos oito anos. Só em 2025, 240 pessoas foram encontradas em 53 locais de sepultamento clandestino, segundo informações de outro coletivo da região, o grupo Guerreros Buscadores de Jalisco.

Dias antes da estreia da Copa do Mundo, a reportagem acompanhou uma das buscas de campo do Luz de Esperança, atividade que realizam desde sua fundação há cinco anos – na maioria das vezes sem apoio ou segurança institucional. Numa das muitas serras de Jalisco, integrantes do coletivo desciam barrancos e vasculhavam um lixão a céu aberto, com carros abandonados, pedaços de móveis e entulho, em busca de seus desaparecidos. O histórico daquele ponto é macabro: quinze dias antes, o coletivo havia encontrado no mesmo local o corpo de uma mulher com as mãos amarradas e uma mandíbula humana.

“Aqui é o lugar ideal para o crime organizado despejar cadáveres. É só jogá-los nesse barranco e esperar que a natureza e os animais se encarreguem deles. É muito mais fácil do que cavar fossas”, explica Lupita Rivera, uma das mães buscadoras do coletivo. Lupita procura seu filho Christian Emmanuel Rivera Cedeño, desaparecido em Jalisco desde agosto de 2023.

Naquele dia, por conta da presença de grande número de jornalistas internacionais, a operação contou com o Comissão de Busca de Pessoas Desaparecidas do Estado de Jalisco (COBUPEJ), órgão do governo estadual de Jalisco; a Polícia Municipal de Zapopan; a Polícia Estadual; a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros. No resto do tempo, presença e apoio institucionais são raros. “Nós mesmos descemos esses barrancos, porque somos os maiores interessados em encontrar nossos familiares e, infelizmente, por mais que não queiramos, é assim que a maioria das pessoas está sendo encontrada”, explica, Liliana Meza.

Depois de muitas horas de esforço físico e psicológico, novos restos foram encontrados ao final do dia: uma vértebra e uma costela humana. Os fragmentos foram recolhidos pela polícia forense e serão analisados nas próximas semanas, na tentativa de identificar a quem pertenciam.

Pequenos avanços

Após anos de luta marcados por manifestações, bloqueios de ruas e acampamentos em frente ao Palácio do Governo de Jalisco, o Luz de Esperança conseguiu avanços concretos. O mais significativo foi a aprovação, em 31 de outubro de 2025, da lei “Famílias buscadoras, famílias prioritárias” pelo Congresso do estado — a primeira lei do seu tipo no país e em toda a América Latina —, que reconhece as famílias dos desaparecidos como grupo prioritário e vulnerável, garantindo acesso a programas de educação, saúde, alimentação e bem-estar social. Na prática, o benefício já conquistado foi o transporte público gratuito em Jalisco, enquanto os demais ainda dependem de implementação.

O coletivo também conquistou o acesso a botões de pânico para seus membros — dispositivos que já existiam mas eram de difícil acesso —, e cuja cobertura foi progressivamente ampliada para outros municípios do estado. No plano jurídico, o caso de Carlos Maximiliano Romero Meza, filho de Liliana, tornou-se o primeiro em Jalisco reconhecido como desaparecimento forçado por um juiz federal mediante recurso de amparo, gerando uma tese jurisprudencial que serve de base para casos semelhantes.

Talvez o avanço mais simbólico, porém, tenha sido a mudança de postura do governo estadual. “O primeiro passo para erradicar ou mudar um problema é reconhecê-lo”, afirma Meza. E foi exatamente isso que fez Pablo Lemus Navarro ao assumir o governo de Jalisco em dezembro de 2024, pelo partido Movimiento Ciudadano

Ao contrário de seu antecessor, Enrique Alfaro — do mesmo partido, mas com postura radicalmente oposta —, que negava publicamente a existência dos desaparecimentos forçados e criminalizava as famílias buscadoras, Lemus reconheceu abertamente a gravidade da crise, abriu mesas de trabalho e permitiu que os coletivos participassem da escolha dos responsáveis pelas instituições de busca e atenção às vítimas.

Para Meza, são passos pequenos, mas reais, e adquiridos a um custo enorme. Ela, que tem dois outros filhos, convive com o medo constante de perdê-los, mas diz que encontra forças para continuar na busca pelo filho desaparecido no amor que sente pelos três. “Às vezes desabo, mas então digo a mim mesma: ‘Já caí, já chorei, estou destruída, mas vou me levantar e vou continuar’. Enquanto não existir um corpo, não vou sossegar. A esperança é a última que morre. Meu desejo é que, onde quer que esteja, meu filho esteja bem”, declara. 

Ela afirma que, mesmo que encontre o filho um dia, vivo ou morto, não vai parar de buscar nem fechar os olhos para o problema. “Este trabalho já faz parte da minha vida para sempre. Me categorizo como a Liliana de antes do desaparecimento de Max e a Liliana de depois”, desabafa.

Apesar da dor de não saber o paradeiro de seu filho, ela permanece positiva, e não abre mão da esperança de que a crise humanitária seja um dia erradicada do México. “Tenho certeza de que essa luta que nós começamos vai trazer resultados, e que esse período terrível pelo qual passamos há décadas vai, em algum momento, ficar nos livros de história do nosso país”, afirma.

Outro lado

A Agência Pública procurou a Secretaria de Segurança Pública federal, a Secretaria de Segurança Pública da Cidade do México, a Secretaria de Segurança Pública de Jalisco e a Comissão Nacional de Direitos Humanos, mas nenhum dos órgãos respondeu até a publicação desta reportagem. A Comissão de Busca de Pessoas de Jalisco foi procurada e recusou entrevista.

Edição:
Augusta Lunardi/Agência Pública
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