Buscar
Reportagem

Flávio Bolsonaro fez 3 propostas de lei sobre segurança da mulher em 24 anos de política

Nenhuma delas chegou a ser aprovada e uma foi apresentada quando o senador já era pré-candidato à Presidência

Reportagem
21 de agosto de 2026
16:27
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Beto Barata/PL

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem feito vários acenos ao eleitorado feminino, estratégia explicada pela vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na intenção de votos entre mulheres. Dados da última pesquisa Nexus/BTG Pactual, de 17 de agosto, apontam que Lula alcança 46% deste eleitorado, contra 32% de Flávio. 

Não à toa, no lançamento da pré-candidatura de Flávio em São Paulo, no mês de julho, no anúncio do candidato a vice em Brasília, no último dia 5, e no seu primeiro ato como candidato oficial no Rio de Janeiro, domingo passado, não faltaram menções às pautas femininas. Entre elas, críticas à violência contra mulheres e promessas de que agressores “vão mofar na cadeia”, além da citação a uma das bandeiras da campanha, o programa Brasil por Elas. 

Na atividade legislativa, porém, o cenário foi diferente. Um levantamento inédito realizado pela Agência Pública mostra que em quase 24 anos como parlamentar, entre 2003 e 2026, Flávio Bolsonaro apresentou apenas três propostas legislativas relacionadas à segurança das mulheres. Foram dois Projetos de Lei (PL), um no Senado e outro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), e uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) no Congresso Nacional. 

Durante sua trajetória política, Flávio protocolou, no total, 306 propostas sobre diversos temas. Como senador, desde 2019, apresentou 59 PLs e 93 PECs. Já nos anos como deputado estadual na Alerj, cargo que ocupou por quatro mandatos consecutivos, de 2003 a 2019, protocolou 140 PLs e 14 Propostas de Emendas à Constituição Estadual do Rio de Janeiro.  

Para se ter ideia, as propostas relacionadas à segurança ou proteção de mulheres representam menos de 1% de todos os projetos assinados pelo filho 01 de Jair Bolsonaro ao longo de sua carreira política.

Entre as três propostas citadas, uma foi apresentada no primeiro semestre de 2026, em março, quando o parlamentar já era pré-candidato à presidência. Já a proposta de mudança constitucional é de novembro de 2025, um mês antes de Flávio Bolsonaro anunciar que seria pré-candidato à Presidência pelo PL. O terceiro foi enviado em 2017, durante o seu último mandato como deputado estadual. 

A reportagem questionou o candidato, por meio de sua assessoria, sobre a ausência de projetos para a proteção e segurança das mulheres durante os demais anos de sua atividade parlamentar. Por nota, ele respondeu que “a proteção às vítimas de violência, o combate aos crimes sexuais, a promoção da saúde feminina e o fortalecimento do planejamento familiar sempre estiveram entre as principais bandeiras defendidas por Flávio Bolsonaro, desde sua atuação como deputado estadual até o exercício do mandato no Senado Federal. Como costuma afirmar, trata-se de ‘uma pauta da direita’”. A íntegra da nota pode ser lida neste link.

Por que isso importa?

  • O Brasil registrou um número recorde de feminicídios em 2025 em dez anos de monitoramento pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foram 1.568 mulheres assassinadas por razão de gênero no ano passado, um aumento de 4,7% em comparação a 2024.

De que tratam as propostas? 

No Congresso Nacional, quase completando oito anos de mandato, o senador protocolou duas proposições sobre segurança voltadas às mulheres. Uma delas, o PL 1400/2026, altera a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006) para permitir que a autoridade policial possa conceder, em caráter imediato, medidas protetivas de urgência em casos de violência doméstica e familiar contra as mulheres. A legislação, no entanto, já autoriza a polícia a conceder proteção imediata à vítima quando há risco iminente e não há juiz disponível na delegacia no momento da ocorrência. 

O projeto ainda não teve andamento para as Comissões da Casa legislativa e aguarda despacho desde o dia 25 de março, data em que foi publicada no Diário do Senado. 

“O que o projeto faz é transformar essa exceção em regra geral. O avanço, se existir, não está em criar algo novo, mas em tentar reduzir o tempo de resposta, isso pode ser visto de modo positivo”, explica Anabel Pêssoa, professora de direito da UFRPE e cofundadora do Instituto Maria da Penha. 

Já a proposta de emenda à Constituição (PEC 41/2025), apresentada em 11 de novembro de 2025, propõe alterar o artigo 5º da Constituição Federal para “prever o direito da mulher a uma vida livre de violência, tanto na esfera pública como na esfera privada”, ou seja, coloca o direito da mulher a uma vida livre e segura como parte dos direitos garantidos pela Constituição. A matéria foi encaminhada em 6 de abril deste ano para a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado, onde aguarda até o relator ser designado.  

Segundo a Pública apurou, Flávio não fez discursos no plenário defendendo a tramitação do PL registrado no primeiro semestre de 2026. No X (antigo Twitter), rede social na qual os parlamentares e candidatos bolsonaristas se manifestam com frequência sobre suas proposições, o filho 01 de Bolsonaro publicou somente uma vez sobre o PL 1400/2026, no dia 31 de março. Na postagem, ele compartilhou uma reportagem com o vídeo de uma agressão sofrida por uma mulher no elevador de um prédio.  

“Me convença que esta mulher precisa esperar 1 semana até um juiz conceder medida protetiva contra este vagabundo covarde… e que um Delegado de Polícia não pode fazê-lo imediatamente. Se me convencer, retiro meu projeto de lei! E meu PL ainda prevê que um juiz precisa confirmar em até 24 horas”, publicou Flávio. Apesar da referência do parlamentar a possível demora de “uma semana” até que haja uma determinação judicial para a proteção à vítima, a Lei Maria da Penha prevê que a resposta do juíz seja dada em até 48 horas. 

Segundo Pêssoa, do Instituto Maria da Penha, pode haver um gargalo nesse prazo, mas o problema não é causado pela ausência de previsão legal. A questão está relacionada, na verdade, à falta de estrutura no país, que ainda conta com delegacias sem plantão 24 horas, sem unidades especializadas e até sem equipes com capacitação em violência de gênero nas delegacias comuns.  

“Falta integração entre os sistemas da polícia, do Ministério Público e do Judiciário, o que atrasa o encaminhamento. Some a isso a subnotificação e o número de mulheres que desistem no meio do processo, muitas vezes porque não se sentem acolhidas no próprio atendimento. Enquanto esses gargalos não forem enfrentados, qualquer mudança na lei tem efeito limitado”, conclui Pêssoa.

Ainda de acordo com o levantamento da Pública, o primeiro projeto que envolve segurança às mulheres apresentado por Flávio Bolsonaro foi feito em 2017. Trata-se do PL 2786/2017, que propôs a disponibilização na internet de nome, foto e “demais dados processuais” de pessoas condenadas por crime de violência contra a mulher, à criança, e ao adolescente ou contra sua dignidade sexual. 

A proposta recebeu parecer favorável da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e foi encaminhada à Comissão de Segurança Pública e Assuntos de Polícia. Em 2019, entretanto, foi arquivada devido ao término do mandato de Flávio na Alerj. 

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Flávio Bolsonaro fez 3 propostas de lei sobre segurança da mulher em 24 anos de política

|

Nenhuma delas chegou a ser aprovada e uma foi apresentada quando o senador já era pré-candidato à Presidência

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas