Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

Ministro usa informação falsa ao criticar Dilma por transposição do São Francisco

Moreira Franco disse que governo Temer fez em seis meses o que a ex-presidente não conseguiu em seis anos

Checagem
30 de março de 2017
14:22
Este artigo tem mais de 9 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

O ministro Moreira Franco (PMDB), que afirmou que o governo Temer concluiu a transposição do São Francisco em seis meses
O ministro Moreira Franco (PMDB), que afirmou que o governo Temer concluiu a transposição do São Francisco em seis meses. Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil

“Em 6 anos, Dilma não conseguiu entregar as obras de transposição do rio São Francisco. Nós entregamos em seis meses.” – Moreira Franco (PMDB), ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, em postagem no Twitter no dia 17 de março.

Falso

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco (PMDB), utilizou seu perfil no Twitter em 17 de março para rebater declarações da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Naquela sexta-feira, o jornal Valor Econômico publicou entrevista em que a petista faz críticas ao presidente Michel Temer (PMDB) e a alguns dos integrantes de seu governo, entre eles, o próprio Moreira Franco.

Em um dos tuítes, o ministro afirma que a gestão Temer conseguiu entregar as obras de transposição do rio São Francisco em seis meses, enquanto Dilma, em seis anos ocupando a presidência da República, não o fez. O Truco – projeto de checagem de dados da Agência Pública – apurou a informação e concluiu que ela é falsa.

Procurada para que indicasse a fonte dos dados, a assessoria de Franco comunicou somente que a frase foi retirada de seu Twitter oficial e que fazia parte de um contexto formado por outras mensagens, em que citava fatos positivos sobre a administração de Michel Temer para contrapor os comentários de Dilma. Vale lembrar que o peemedebista integrou a equipe do primeiro mandato da presidente como ministro-chefe da extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos e, posteriormente, como ministro-chefe da Secretaria de Aviação Civil.

Em 6 anos, Dilma não conseguiu entregar as obras de transposição do rio São Francisco. Nós entregamos em seis meses.

— Moreira Franco (@MoreiraFranco) 17 de março de 2017

O Projeto de Integração do Rio São Francisco – tema de extensa reportagem da Pública em 2014 – conta com dois eixos de transferência de água: Leste e Norte, sendo que o primeiro foi inaugurado por Temer em 10 de março. A reportagem entrou em contato com o Ministério da Integração Nacional para obter dados referentes ao andamento do projeto. A assessoria de imprensa comunicou que informações atualizadas constam no site da pasta. Também enviou nota com números gerais sobre a execução do projeto e recursos a ele destinados nos últimos meses do governo Dilma e primeiros sete meses de gestão Temer.

O empreendimento foi iniciado em 2007, no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com o 1º Balanço do PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento 2), publicado em 29 de julho de 2011, haviam sido concluídos 69% do Eixo Leste e 44% do Eixo Norte até o final do primeiro semestre daquele ano, pouco depois de Dilma assumir. Em abril de 2016, quando ela ainda era presidente, relatório do Ministério da Integração Nacional indicava que 84,4% do Eixo Leste e 87,7% do Eixo Norte estavam construídos. O documento seguinte, de agosto – mês em que foi oficialmente destituída do cargo, do qual havia sido afastada em maio –, aponta que a porcentagem realizada das obras havia chegado a 88,7% no Leste e 90,7% no Norte.

Em março deste ano, apenas o Eixo Leste foi inaugurado, embora não esteja completamente concluído. De acordo com o Ministério da Integração Nacional, 98,08% de sua estrutura está finalizada. Faltam ainda “obras complementares que não alteram seu funcionamento”. Já o Eixo Norte, de acordo com a pasta, está 94,63% pronto, e a previsão é de que comece a operar no segundo semestre deste ano. Uma das etapas, contudo, está paralisada porque a Mendes Júnior, empreiteira contratada para executá-la, foi declarada inidônea pela Controladoria-Geral da União (CGU). Portanto, a empresa foi afastada e uma licitação está em curso para selecionar a companhia que assumirá a tarefa. Levando-se em conta os números de abril de 2016 até agora, 13,94% da porção leste do projeto e 7,32% da porção norte foram executados sob administração do PMDB.

Na discussão sobre a paternidade da transposição do São Francisco, há também a questão dos recursos financeiros. A Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2016, aprovada pelo Congresso Nacional no fim de 2015 – ou seja, ainda durante o governo Dilma Rousseff –, direcionou R$ 1,352 bilhão para as obras, dos quais R$ 396 milhões foram reservados para a construção do Eixo Leste. Essa quantia foi utilizada ao longo de 2016. De acordo com informações enviadas pelo Ministério da Integração Nacional, foram gastos R$ 378,2 milhões de maio a dezembro de 2016, período em que Temer já ocupava o cargo. A pasta alegou que houve atrasos nos pagamentos entre janeiro e abril. Ainda assim, se o governo anterior não tivesse reservado essa quantia no Orçamento, ela não poderia ter sido paga.

Dados sobre recursos da LOA 2016 destinados à transposição do Rio São Francisco

Os dados levantados pela nossa apuração mostram que o governo Temer ainda não concluiu os dois eixos da transposição. Além disso, apenas uma pequena parcela da obra foi executada na administração do PMDB. Por isso, classificamos a frase de Moreira Franco como falsa.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia também

Na Contramão da Transposição

|

Na Paraíba, as águas limpas da transposição do rio São Francisco vão se misturar a águas poluídas por esgotos sem tratamento de diversos municípios

Tem água pra ver, mas não pra beber

|

Nos arredores do maior açude do Ceará, moradores de assentamentos, cidadezinhas e vilas sofrem com a seca enquanto a água passa diante dos seus olhos para abastecer o agronegócio, a indústria, e a capital, Fortaleza

Notas mais recentes

PL reúne-se esta semana para debater candidatura de Rogério Marinho a presidente do Senado


Lula vence em seções eleitorais com local alterado, apesar de abstenção maior


Filha de Flávio Bolsonaro falta à escola há 2 dias em meio à suspeita de fuga do senador


Hospitais do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro e a acusação de Lula na Band


Às vésperas do 2° turno, governo tenta votar PEC da Segurança Pública no Senado


Leia também

Na Contramão da Transposição


Tem água pra ver, mas não pra beber


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Imposto do pecado: Governo alivia para indústrias e adia proteção popular, alma da reforma

|

Indústrias do refrigerante e mineração terão 2027 de impostos baixos ou zerados frente a impacto à saúde e meio ambiente

Como a quebra do banco Ueno, no Paraguai, acabou com o governo do presidente Santiago Peña

|

Crescimento do Ueno teve ajuda política e dinheiro público; presidente foi acionista de empresa do grupo ligado ao banco

Queimaduras, terror psicológico e salários atrasados em data centers na Europa

|

Investigação revela realidade dos trabalhadores nos centros de desenvolvimento de infraestrutura de IA na Europa
Sessão sobre a PEC da segurança pública no Senado

Segurança Pública: PEC da redução da maioridade penal no Senado pode ter relator do PT

|

Senado aprova PEC da Segurança Pública e proposta de mudança na maioridade penal pode ser analisada nesta quarta
Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil

Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

|

Perfis no X/Twitter divulgam histórias irreais sobre apostas ao mesmo tempo em que audiência pública reúne lobistas

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países