Buscar
Nota

Família de jornalista assassinado na ditadura pede à OEA que monitore julgamento no Brasil

15 de agosto de 2023
11:59
Este artigo tem mais de 3 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Os familiares de Luiz Eduardo da Rocha Merlino dirigiram uma carta à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, vinculada à OEA (Organização dos Estados Americanos), em Washington, a fim de pedir que o julgamento do caso movido pelos familiares no Judiciário brasileiro contra o espólio do coronel do Exército Carlos Brilhante Ustra, torturador morto em 2015, seja monitorado e acompanhado no Brasil. O julgamento do processo, que tramita há 13 anos sem solução, pode ser retomado nesta terça-feira (15) na Quarta Turma do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Jornalista, estudante de história e militante do Partido Operário Comunista, Merlino foi assassinado em julho de 1971 aos 23 anos de idade ao sofrer tortura durante várias horas no DOI-CODI, o destacamento do Exército marcado pelos mais bárbaros casos de tortura, assassinato e desaparecimento forçado de opositores à ditadura militar em São Paulo. Durante quatro anos (1970-1974), o destacamento foi comandado por Ustra, atualmente saudado como “herói” pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e pelo seu vice e atual senador, Hamilton Mourão.

O primeiro requerimento judicial da família Merlino em busca de punição contra os torturadores e reconhecimento da responsabilidade do Estado brasileiro no crime data de 1979. Em 2012, a Justiça de São Paulo julgou, em primeira instância, como procedente o pedido dos familiares a fim de condenar Ustra a pagar R$ 50 mil de indenização a título de danos morais à viúva e à irmã de Merlino, respectivamente Ângela Maria Mendes de Almeida, hoje com 84 anos, e Regina Maria Merlino de Almeida, 79. Além das duas, subscrevem a carta enviada agora à Comissão da OEA a jornalista Tatiana, sobrinha de Merlino, diversos familiares de mortos e desaparecidos na ditadura e organizações de direitos humanos.

A condenação, contudo, nunca foi levada a efeito pelo Judiciário. Em 2018, três anos após a morte de Ustra, seus familiares pediram o arquivamento do processo, o que foi acolhido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. A família Merlino recorreu ao STJ (Resp 2.054.390/SP). O relator do caso, ministro Marco Buzzi, manifestou na semana passada apoio à posição da família, mas o julgamento foi suspenso com a promessa de ser retomado nesta terça-feira.

Na carta à Comissão da OEA, os familiares lembram que, no sistema interamericano, o Brasil já foi condenado duas vezes pela Corte IDH (os casos do Araguaia, em 2010, e do jornalista Vladimir Herzog, em 2018). “Conforme afirmado em ambas as decisões, crimes de lesa humanidade como a tortura, o desaparecimento forçado e as execuções sumárias são imprescritíveis, e tampouco devem ser aplicadas leis de anistia. Cabe lembrar ainda que no caso Órdenes Guerras vs. Chile, de 2018, a Corte IDH [vinculada à OEA] afirmou que a imprescritibilidade se aplica também às ações civis de reparação.”

Além do monitoramento do processo e do julgamento no Brasil, os familiares pediram à Comissão da OEA que redija e divulgue “uma nota pública que dê notícia do conhecimento da proximidade do julgamento e reafirme: a necessidade de que seja reconhecida a imprescritibilidade das ações civis de reparação por violações graves de direitos humanos; os obstáculos de acesso à justiça para as mulheres na luta por direitos humanos; e a importância do direito à memória, verdade, justiça e reparação para a garantia da democracia”.

A carta foi dirigida à relatora sobre Memória, Verdade e Justiça da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Julissa Mantilla Falcón, e à secretária executiva da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Tania Reneaum Panszi.

Edição:

Notas mais recentes

PEC da Segurança Pública: votação fica para depois do 1° turno com aval de relator do PT


Fim da Escala 6×1 será votado no Senado em esforço concentrado antes do recesso eleitoral


Departamento de Guerra dos EUA investe 750 milhões de dólares em terras raras brasileiras


Prevenção sem repressão: Fóruns populares levam pauta de segurança pública a candidatos


Facebook não barra anúncios com desinformação sobre eleições brasileiras


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Contando com memória curta do brasileiro, candidatos ora cassados voltam às urnas em 2026

|

Políticos cassados no passado tentam reconquistar votos beneficiados por leis, decisões da Justiça ou até pelo tempo

Crise no STF após divulgação de conversas entre Moraes e Vorcaro: como chegamos até aqui?

|

André Mendonça escancara divisões na Corte ao tirar sigilo de investigação citando colega e tema deve impactar eleições

Resgates de pessoas em condição de escravidão caem no Brasil, mas disparam em SP, diz CPT

|

Em 6 meses de 2026, o estado teve mais pessoas resgatadas em condições análogas à escravidão que em todo o ano passado

Fiesp defende modelo inconstitucional de Bukele na segurança e afaga candidatos da direita

|

Candidato ao governo do Paraná, Sergio Moro promete presídio “El Salvador” durante abertura de evento em São Paulo

Mansões, carros de luxo, viagens: a vida de Eduardo Bolsonaro e Figueiredo nos EUA

|

Levantamento revela que ex-deputado e influenciador mantêm vida de alto padrão nos EUA

Como a caça conservadora ao voto feminino alimenta a violência contra a mulher

|

Fragilidade, hormônios e até intelecto: movimento tenta reduzir papel da mulher em ação violenta que começa no discurso

Com auxílio-reclusão restrito, famílias de encarcerados gastam R$ 4 bi por ano em visitas

|

Enquanto uma visita a presídio chega a custar mais de mil reais, Lei Antifacção diminui o acesso a benefício

Funai revê posição adotada no governo Bolsonaro e pede suspensão da licença de Belo Sun

|

Órgão agora cobra análise de 20 comunidades ignoradas e quer suspender licença retomada na Justiça em fevereiro de 2026
Imagem mostra ícones dos aplicativos de redes sociais da Meta em celular

Meta usa influenciadores para direcionar debate sobre proteção a crianças nas redes

|

No Brasil, empresa promove ideia de que as suas ferramentas são melhor que leis que proíbam o acesso dos mais jovens