Agência de Jornalismo Investigativo

Embaixadores Donna Hrinak e John Danilovich fizeram lobby em nome do país invadido

29 de junho de 2011

Um ano após a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 20 de março de 2003, os americanos sondaram as autoridades brasileiras sobre a redução da dívida que o país teria com o Brasil.

Dois embaixadores dos EUA no Brasil também se mostraram preocupados com a aplicação da Resolução n º 1483 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que discorre sobre as ações para a reconstrução do Iraque.

Em 16 de junho, a então embaixadora americana Donna Hrinak se reuniu com Marcos Pinta Gama, descrito como chefe da divisão de combate de atividades ilícitas internacionais do Ministério das Relações Exteriores, e também com Ricardo Liao do Banco Central, que comandava uma divisão similar no órgão.

Foram duas reuniões diferentes, mas os dois afirmaram que a implementação da Resolução nº 1483 –  que congelou a transferência de recursos financeiros retirados do Iraque por Saddam Hussein ou aliados – dependia do esforço dos bancos. “Pinta Gama concordou em emitir para todos os bancos as listas atualizadas da ONU”, diz o telegrama enviado a Washington em 16 de junho.

Em outubro de 2004, o chefe do Departamento Econômico do Ministério das Relações Exteriores, Pirage Tarrago, disse que o Brasil queria reestabelecer as relações comerciais com o Iraque, inclusive com linhas de crédito.

Outro embaixador americano, John J. Danilovich, que assumiu o cargo depois de Donna Hrinak, comentou em telegrama dia 27 de outubro as impressões de Tarrago sobre a dívida do Iraque com entidades brasileiras, em sua grande maioria empresas privadas, e que o “Brasil está preocupado com uma solução justa” para o problema. Esse débito vem principalmente de projetos de infraestrutura realizados no país por empresas brasileiras até 1990.

Para o secretário de assuntos internacionais do Ministério da Fazenda, Luiz Pereira, a redução e o perdão de uma parte do débito do Iraque poderiam ser votados pelo Congresso Nacional principalmente com as movimentações de outros países neste sentido e das negociações do Clube de Paris.

Em outro telegrama, enviado em dezembro, o embaixador Danilovich comentou a estimativa que dívida pública estava em U$ 602,9 milhões. Piragibe Tarrago é citado novamente e afirmava que o máximo que o Brasil deveria oferecer na época era 50% de perdão no débito, que uma percentagem maior não seria aceita pelos congressistas brasileiros.

O Clube de Paris, fundado em Paris em 1956, é um instituição independente constituída por 19 países que renegocia dívidas governamentais de  países em dificuldades financeiras. A instituição estimava que no final de 2004 o Iraque devia U$ 38,9 bilhões aos países do clube referentes somente ao período até a invasão do Kuwait, no dia 2 de agosto de 1990 e a dívida externa total era de U$ 120 bilhões. Em 21 de novembro de 2004, 17 países do clube decidiram perdoar 80% desta dívida baixando de U$ 38,9  para  U$ 7,8 bilhões. O Brasil aceitou em 2008 também extinguir 80% do débito iraquiano, o que faria com que a dívida baixasse para cerca de U$ 120 milhões.

Os documentos são parte de 2.500 relatórios diplomáticos referentes ao Brasil ainda inéditos, que foram analisados por 15 jornalistas independentes e estão sendo publicados nesta semana pela agência Pública.

 

Mais recentes

Os supersalários das Forças Armadas

16 de julho de 2018 | por

Nossa reportagem levantou todos os salários de militares e encontrou centenas acima do teto, indenizações de mais de R$ 100 mil e valores milionários pagos no exterior

Desvendando López Obrador, o novo presidente do México

11 de julho de 2018 | por

O jornalista americano Jon Lee Anderson acompanhou a campanha do esquerdista por diversos cantos do país e revela o que esperar da relação com o governo de Trump

“A extrema pobreza voltou aos níveis de 12 anos atrás”, diz pesquisador da ActionAid e Ibase

10 de julho de 2018 | por

Para Francisco Menezes, os números de pobreza sugerem que o Brasil voltará ao Mapa da Fome da ONU; relatório a ser lançado no fim do mês fará novo alerta sobre a situação

Explore também

Exagerado, distorcido ou discutível

Os impostos no Canadá são como no Brasil?

30 de junho de 2016 | por

Senador do PSB também afirmou que a educação é gratuita, a saúde e os serviços públicos funcionam no país norte-americano e não há miséria. Será?

Exagerado, distorcido ou discutível

Legalização das drogas. Não é bem assim, delegado!

21 de agosto de 2015 | por

“Caso o Poder Judiciário interfira nos poderes, no poder desta Câmara, desta Casa, deste deputado, de fazer a legislação, caso eles interfiram neste poder nosso, nós vamos legislar e proibir, em defesa da família brasileira, sem dúvida nenhuma, a legalização de qualquer tipo de droga. Temos que pensar nas famílias e nas pessoas de bem neste país.” – Delegado Waldir (PSDB-GO), deputado federal, no plenário, na quarta-feira (19)

Disseminação de facções tem impacto profundo na violência geral, diz pesquisadora

7 de Fevereiro de 2018 | por

Fracasso de políticas prisional e de segurança pública - incluindo a guerra às drogas - superlota prisões e fortalece facções geradas nos presídios, atualmente em disputa, explica autora de livro sobre o PCC