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Agência de Jornalismo Investigativo

As versões sobre a morte dos guerrilheiros do Araguaia nem sempre coincidem. Até hoje não se sabe exatamente quantos tiveram as cabeças cortadas e os corpos abandonados

20 de junho de 2011
13:31

Há casos controversos, como o de Osvaldão – Osvaldo Orlando da Costa – um negro de 1.98 metro de altura e ex-campeão carioca de boxe, que se tornou um mito entre a população local.

A versão mais difundida é de que teria sido morto com um tiro pelo mateiro Arlindo Piauí, guia de uma patrulha de paraquedistas, sua cabeça teria sido decepada e depois exibida ao povo, enquanto os militares festejavam o abate do inimigo. Mas até mesmo essa versão já foi rechaçada por outros camponeses, que afirmam que Piauí assumiu a morte apenas para receber a recompensa do Exército. Segundo essa versão, o corpo de Osvaldão estava com a cabeça quando foi exposto pelos militares.

O caso de Arildo Valadão, cuja morte e decapitação foi descrita detalhadamente pelos ex-guias do Exército Sinésio Martins Ribeiro e Iomar Galego, mostra que também os militares assumiram mortes praticadas por mateiros, provavelmente para ocultar as expedições clandestinas, que ilegalmente envolviam a população civil.

Em seu livro, “Bacaba”, sobre a guerrilha do Araguaia, o tenente José Vargas Gimenez, conhecido como Chico Dólar, afirma: “No dia 24 de novembro, na região de Pau Preto, o guerrilheiro Arildo Airton Valadão (Ari) foi morto e decapitado por um GC, comandado por um segundo sargento”. Esqueceu de dizer que o sargento ficou no helicóptero e que o tal GC (Grupo de Combate) era formado apenas por mateiros, como contam os ex-guias.

As circunstâncias da morte e decapitação de Jaime Petit, contada de forma pungente por seu Sinésio, assim como a de Adriano Fonseca Filho, cuja cabeça foi carregada pelo mateiro Raimundo da Pedrina desde a Grota do Franco, onde foi morto, até a base de Xambioá, são narradas assim por Chico Dólar, no mesmo livro: “Adriano foi morto pelos paraquedistas que atuavam na região de Xambioá. Ambos [ele e Jaime] foram decapitados e tiveram suas mãos cortadas”.

O caso mais polêmico é o de Rosalindo de Souza, o Mundico, que, segundo o diário de Maurício Grabois, foi morto acidentalmente quando limpava a arma.

Já os militares afirmam que teria sido justiçado pelos guerrilheiros. Como observa o livro “Habeas-Corpus, que se apresente o corpo”, da Secretaria de Direitos Humanos, “tal informação, entretanto, poderia representar mais uma tentativa de desmoralizar os militantes mortos, como era prática rotineira dos órgãos de segurança”.

Em depoimento prestado ao Ministério Público em 2001, anexado aos autos, Sinésio afirma ter visto a cabeça de Rosalindo quando estava preso no curral da base de Xambioá, e diz que seu corpo foi enterrado nas terras de João Buraco, frequentadas por guerrilheiros. Buraco, depois de preso, teria apontado a sepultura para os militares.

“O Exército não havia travado combates nesse local, e por isso disse que foram os guerrilheiros que mataram o Mundico. O Exército chegou lá por volta de 4 ou 5 dias após, cavou a sepultura, cortou a cabeça e enterrou novamente o corpo. A cabeça foi levada para a base e mostrada aos presos para reconhecimento. Ela estava meio destruída, o cabelo solto e ficou exposta uns dois dias perto do Barracão do Exército e foi enterrada perto de um pé de jatobá”, diz Sinésio.

VÍDEO: 5 MIL CRUZEIROS POR CABEÇA

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