Agência de Jornalismo Investigativo

Segundo Guilherme Cavalcanti, governo pressionava para que empresa agregasse valor ao minério extraído do país

27 de junho de 2011

Um diretor da mineradora Vale do Rio Doce reclamou a diplomatas dos Estados Unidos no Brasil, de pressão por parte do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de acordo com telegramas do Wikileaks obtidos pela Pública.

Em conversa registrada em outubro de 2009, Guilherme Cavalcanti, que ocupava a diretoria de Finanças Corporativas da empresa e hoje é diretor de Finanças e Relações com Investidores, menciona investimentos em siderurgia e na produção de cloreto de potássio – empregado amplamente em fertilizantes – como parte dos planos do governo para agregar  valor ao minério extraído no país.

A pressão de Lula e do governo sobre a Vale é apontada como o principal motivo para a mudança de comando na empresa, promovida em março de 2011. O Palácio do Planalto estaria insatisfeito com a condução da mineradora, que relutava em investir em formas de agregar valor à matéria-prima extraída do solo nacional.

Para críticos, a mudança no comando da Vale demonstra a ingerência do governo em assuntos de uma empresa privada.

Cavalcanti reuniu-se com Lisa Kubiske, encarregada de negócios da embaixada de Brasília. Entre outros temas, a conversa envolveu a relação com o Executivo.

“Fomos pressionados pelo governo a produzir aço”, teria dito Cavalcanti. “Mas eles parecem ter se apaziguado com nosso investimento de mais de US$ 1 bilhão em siderurgia.” Hearne menciona ainda pesquisadores do Centro de Tecnologia Mineral que teriam apontado o investimento em cloreto de potássio como outra “demanda” de Lula à Vale.

O derivado do potássio é considerado essencial para o desenvolvimento de fertilizantes alternativos a partir de outros sais minerais, como o magnésio. O Brasil possui, em Sergipe e no Amazonas, a terceira maior reserva mundial de potássio, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, atrás apenas de Rússia e Canadá.

Privatizada em 1997, a Vale é controlada por um consórcio que tem como principais acionistas o banco Bradesco e fundos de pensão de estatais – principalmente Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, e Petros, da Petrobras.

Entre os projetos que teriam sofrido influência do governo brasileiro está a siderúrgica de Marabá, no sul do Pará. Segundo a Vale, o investimento de US$ 3,2 bilhões deve gerar 16 mil empregos diretos e 14 mil indiretos.

Inicialmente a companhia teria resistido, segundo notícias veiculadas pelo noticiário econômico no país, a aceitar o local em decorrência de elevados custos de infraestrutura. Mas o local foi apoiado pela governadora do Pará á época, Ana Júlia Carepa, do PT.

Ao iniciar as obras, em junho de 2010, o ex-presidente da Vale, Roger Agnelli, chegou a apontar a “marca de Lula” no projeto.

Os documentos são parte de 2.500 relatórios diplomáticos referentes ao Brasil ainda inéditos, que foram analisados por 15 jornalistas independentes e estão sendo publicados nesta semana pela agência Pública.

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