Buscar
Reportagem

Parte IV: No horizonte, a retirada das tropas…

Ex-representante da OEA reclama de interferência políticae diz que missão de segurança perdeu sentido depois do terremoto

Reportagem
27 de setembro de 2011
10:00
Este artigo tem mais de 14 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A maioria dos analistas considera positiva a condução brasileira da missão de paz da ONU. “A queda de Aristide permanecerá cercada de mistério e descrita por várias versões. Durante seu governo se destruiu o pouco que havia de infraestrutura no país, se empobreceu sua população e se ampliou a violência”, afirma o professor de relações internacionais da UnB, Antonio Jorge Ramalho.

Também entusiasta da missão brasileira, principalmente até a eleição de René Préval, em fevereiro de 2006, Ricardo Seitenfus, doutor em Relações Internacionais e durante três anos representante da OEA no Haiti, diz que depois do “trabalho excepcional” durante o terremoto de 2010, a missão perdeu o rumo: “A resposta da ONU depois da catástrofe foi mandar mais soldados. Pensou na segurança. Mas o que você tinha ali era um país destroçado pela tragédia. O Haiti recebeu 11 bilhões de dólares em doações internacionais e o dinheiro não chegou ao país”, afirma.

Seitenfus deixou a representação da OEA no Haiti depois de uma entrevista em que revelava sua insatisfação com a interferência da organização no pleito que elegeu Martelly, promovendo uma recontagem de votos que alterou o resultado das eleições e tirou o candidato de Preval do segundo turno. Ele afirma, porém, que as razões para o “encurtamento de três meses” de sua representação no Haiti, foi “a defesa das instituições haitianas e a recusa em corroborar as pressões exercidas pela comunidade internacional sobre Préval”.

Interferência política

O ex-representante da OEA conta ter participado, na reunião do Core Group (países doadores, OEA e Nações Unidas) no dia das eleições,  de um episódio que o deixou “estarrecido”: “O representante das Nações Unidas, Edmond Mulet, sugeriu que o presidente René Preval deveria sair do país e que deveríamos pensar em um avião para isso. O primeiro-ministro do Haiti, Jean-Max Bellerive, perguntou se o mandato do presidente Preval estava sendo negociado. Em face do silêncio resolvi opor-me à luz da Carta Democrática Interamericana que, coincidentemente, acaba de completar dez anos de vida”.

Para ele, a interferência política dos países doadores durante todo o governo Preval apenas atrapalhou o Haiti – como no caso, revelado pelos telegramas do Wikileaks, da pressão americana para que o país não fechasse um acordo de fornecimento de gasolina com a Venezuela que levaria a uma economia de 100 milhões de dólares por ano.

Seitenfus defende o redirecionamento da Minustah para a Comissão da Consolidação da Paz na ONU, como primeiro passo para a retirada militar.  “Continuar lá para que? Interferir na política interna, ensinar como deve funcionar o governo deles? Democracia não é um produto que se compra no supermercado das Nações Unidas. Em um país com mais de 80% da população sem emprego, educação, saúde, alimentação, podemos considerar que a democracia imposta é sinônimo de estabilidade ?”, questiona Seitenfus.

Também o embaixador brasileiro no Haiti, Igor Kipman, diz que o Brasil sempre defendeu desenvolver o país, como condição para estabelecer a democracia. “Sempre falamos em mudança para uma missão de desenvolvimento”. Uma alta fonte do Itamaraty, porém, afirma ser “quase impossível” a mudança do caráter da missão. “É um problema econômico. China e Inglaterra, no Conselho de Segurança, são contra mudar o caráter da missão. E se tiver uma missão de desenvolvimento, abre um precedente”.

Em setembro houve uma reunião da UNASUL para tratar do tema, mas não se falou em números ou em prazos – e nem, inclusive, na retirada efetiva das tropas. (O site do ministério falava que não havia definido “nem o cronograma de eventual retirada de tropas”).

Ao repórter Luis Kawaguti, da Folha de S. Paulo, o general Luiz Eduardo Ramos Pereira, comandante militar da Minustah, afirmou que as tropas brasileiras devem ser reduzidas em 250 homens até o final de 2012. Se isso se confirmar, o número de soldados brasileiros no Haiti continuará a ser, pelo menos num horizonte próximo, maior do que antes do terremoto: restarão cerca de 1900 homens, contra 1200 soldados brasileiros antes da catástrofe.

VEJA MAIS: ENSAIO FOTOGRÁFICO DE ELIZA CAPAI

 

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas