Apoie!

Seja aliada da Pública

Seja aliada

Agência de Jornalismo Investigativo

Seis meses depois do assassinato de seu marido por soldados do Exército, Luciana Nogueira conta como conseguiu manter limpo o seu nome

7 de outubro de 2019
14:00

Seis meses depois, Luciana ainda conversa com Evaldo quase todos os dias. Quando acontece alguma coisa no trabalho. Quando precisa de conselho. Para perguntar a ele “por que você me deixou?”. A falta do marido é tão intensa que está em quase tudo: no jeito dela falar – ainda se refere a marido no presente – nos móveis, nas fotos penduradas na parede. Embora ela tenha se mudado da casa em que morava com o músico, morto pelo Exército brasileiro no dia 7 de abril deste ano, é com sinceridade brutal que ela diz, em entrevista à Agência Pública, que preferia ter ido junto: “Eu fui toda a vida dele, e ele foi toda minha história”.

Fuzilado com nove tiros quando ia para um chá de bebê em pleno domingo, Evaldo Rosa – ao lado do catador Luciano Macedo, que tentou socorrê-lo – foi a última vítima do Exército no Rio de Janeiro. Uma série investigativa da Pública revelou que as Forças Armadas são acusadas pela morte de pelo menos 34 civis desde 2010, a partir do aumento das operações de Garantia da Lei e da Ordem, no Rio de Janeiro. Nenhum soldado foi punido.

Após atrair a atenção nacional, o caso de Evaldo é o primeiro em que pode haver uma punição. Os nove militares que atiraram 257 tiros durante a ação chegaram a ser presos, mas agora respondem ao processo na Justiça Militar em liberdade.

Nessa entrevista à Pública, Luciana dos Santos Nogueira, enfermeira de cuidados paliativos para pacientes terminais, conta como foi aquele dia fatídico que deu fim a uma união de 27 anos.

AF Rodrigues/Agência Pública
Luciana dos Santos Nogueira foi companheira de Evaldo Santos – fuzilado pelo Exército do Rio – por 27 anos

Como você conheceu o Evaldo?

Eu conheço ele toda minha vida, na realidade, né? Porque a gente morava no mesmo bairro, na favela do Muquiço, era aquele amigo de brincar de queimada, aquilo tudo. E depois meus pais se separaram, minha mãe foi embora pra São João de Meriti, e todos os finais de semana meu pai me buscava, eu ficava os finais de semana na casa do meu pai, e durante a semana eu precisava estudar, eu voltava pra São João.

Seu pai permaneceu na favela do Muquiço?

Sim, sim. Eu conheci Duda toda minha vida, aquela coisa de adolescente: vamos namorar, vamos ficar, aquilo tudo. E quando eu completei 14 anos foi quando nós começamos mesmo a oficializar nosso namoro, aí ficamos namorando, namorando… Um belo dia ele pediu aos meus pais, né?

Para namorar ou para casar?

Pra namorar em casa.

Qual é a diferença de idade entre você e ele?

Eu tenho 41, Duda tem 46. Todos os finais de semana ele ia ao meu encontro, e muitas das vezes eu vinha ao encontro dele, porque ele era músico, tocava pagode, e eu sempre acompanhava. Comecei a namorar ele mesmo sério aos 14, e até dia 7 de abril. A gente sempre falava que nós iríamos ficar velhinhos juntos. Ele era uma pessoa assim, muito maravilhosa, excepcional, sem igual. Sabe? Se você falar assim pra mim: “Poxa, Luciana, mas você viveu assim tanto tempo com essa pessoa, me aponta um defeito”. Eu não vou saber te apontar um defeito do Duda. Ele era uma pessoa cúmplice, uma pessoa amiga, sabe?

E quando vocês decidiram casar?

Não somos casados no papel, não. Ah, tem o quê? Nós decidimos morar junto eu tava com 24 anos, que nós conseguimos, meu pai e a esposa dele ajudaram a gente a comprar o imóvel que a gente tem hoje, e foi quando nós decidimos. Foi até num dia 23 de agosto, que foi quando nós decidimos… Chovia, e eu queria voltar pra minha casa. Chovia, e eu falava: “Duda, como é que vai ficar aqui só eu e você?”. Ele: “Guiga, mas tem que ficar”. Acabou a luz, assim, e eu desesperada querendo voltar, mas ele foi ali firme, não deixou eu voltar. Eu morria de medo. Engraçado, né? Mas eu morria de medo, e fomos se adaptando, fomos se adaptando, se adaptando.

E vocês, pelo visto, sempre foram muito felizes.

Sempre. Ah, ele foi toda minha felicidade. Eu costumo falar, até é a tatuagem que eu pretendo fazer: que eu fui toda a vida dele, e ele foi toda minha história.

Vocês, mesmo morando aqui no Rio e se conhecendo na favela do Muquiço, não conviviam muito com essa questão da violência?

A gente vê o mundo em que a gente vive, mas a gente nunca imagina que pode acontecer com a gente, sabe? Às vezes você vê que acontece assim, pertinho de você, caramba, aconteceu com meu vizinho, caramba, você sente, você sofre, você sente a dor do teu próximo, quando você liga o jornal… Quando eu paro, assim, pra fechar os olhos, eu me pego, assim, meu Deus, aconteceu comigo! Mas só quem passa mesmo é que sabe o tamanho da dor, entendeu?

Quando vocês decidiram ter filho?

Eu decidi ter filho, eu tava com 34. Ele até falava: “Ah, você nunca vai me dar um filho?”. Eu: “Não, amor, calma”. Eu sempre tive vontade de ser mãe nessa idade mesmo, com 34 pra 35 anos. Foi quando eu parei de tomar remédio. Foi quando eu decidi parar de tomar o remédio e assim, com um mês, dois meses, eu engravidei do Davi. Nós engravidamos juntos, eu e ele, porque ele foi, assim, maravilhoso, me acompanhou em cada momento da minha gravidez.

AF Rodrigues/Agência Pública
“Eu fui toda a vida dele, e ele foi toda minha história”, diz Luciana à reportagem da Pública

E ele era um bom pai?

Maravilhoso. Ele era um bom pai, um bom amigo, um bom amante, um bom cúmplice. Ele era um bom tudo. Não tem noção da falta que ele me faz aqui.

O Duda conversava muito com o Davi. Se você conversar com o Davi você vai ver que ele é uma pessoa bem madura. Esses dias tava passando na televisão [uma notícia sobre a morte do pai]. Eu fui, baixei a televisão. Aí ele foi: “A senhora mandou baixar a televisão por quê? Pra mim não ouvir tudo que eu já sei?”. Aí eu me calei. Aí chegou na psicóloga e ele falou: “Minha mãe, tia, mandou baixar a televisão porque ela não queria que eu ouvisse tudo que eu já sei”. Aí a psicóloga: “O que você já sabe?”. “Que o quartel matou meu pai.” Entendeu? Porque eu procuro, assim, deixar ele um pouco sem internet, sem as coisas, porque eu acredito que ele fuxica. Se botar o nome do pai, aparece tudo, então eu procuro tirar ele desse foco, porque eu tenho que proteger o coração dele, a mente.

Porque foi, também, uma coisa muito absolutamente repentina e absolutamente inesperada.

Sim, um dia antes… No sábado, cheguei do trabalho, ele me buscou no ponto, aí eu fui fazer uma escova no cabelo, ele me buscou. Aí fomos pra casa, almoçamos, ficamos a tarde toda deitados, descansamos, e quando foi à noite nós resolvemos sair, muito alegres, muito felizes, e no dia seguinte aconteceu da forma que aconteceu. Uma coisa muito surreal, surreal mesmo. Aí as pessoas falam: “Ah, você tem que ser grata a Deus, né?, você conseguiu sair livre, você e seu filho”. Pra ser sincera? Eu preferia ter ido, de verdade. De verdade, mesmo.

Por quê?

Porque, pra você ter noção, você convive com uma pessoa durante 27 anos… Eu sei que você perde e a vida segue, né? A gente precisa seguir, mas eu tô tão perdida aqui…

Mas você é tão jovem.

Eu sei, eu sei que eu sou tão jovem. E aí as pessoas falam: “Ah, mas você vai ser muito feliz”. Vou nada. Acho, assim, que a minha felicidade, ela já passou. Vai ter momentos felizes, vai amenizar, vai passar, lógico que vai, porque nada é pra sempre, a gente sabe que nada é pra sempre, mas feliz eu tenho certeza, de verdade, que não. Acho, assim, que minha fase já passou, e preciso ser forte porque eu tenho um filho, né? Eu preciso dar toda a força pra ele.

Vocês são religiosos?

A gente sempre ia na igreja evangélica. Tinha a Assembleia de Deus. Hoje, no momento, eu não tô indo porque eu tô meio…. Meio seca, né? Mas a gente sempre ia, ele sempre gostou, às quintas-feiras, de ir no culto. Tem uma igreja lá perto da minha casa, lá na estrada do Sapê, a igreja da pastora Rose. A gente sempre gostava muito de ir pra assistir aos cultos. Louvor às vezes eu ponho, tenho duas irmãs que são evangélicas.

Me conta como foi aquele dia.

Meu filho estava na casa do meu pai, que é próxima. Fomos lá buscar meu filho. A Michele, minha amiga, dormiu na minha casa. Acordamos de manhã, fui buscar meu filho, e meu padrasto, que é o Sérgio. Aí nós se arrumamos, aí fomos. Foi quando aconteceu tudo. Foi quando aconteceu essa tragédia.

Vocês estavam andando de carro e do nada começaram os tiros?

Olha, a gente não oferecia perigo nenhum, porque é o que o meu filho sempre questiona: “Mãe, mas por que se meu pai não corre?”. Porque o Duda não corria. E onde aconteceu, acho que ele tinha acabado de passar a marcha, ele deveria estar a 10 km, entendeu? Uma coisa assim, muito lenta. A gente não oferecia perigo nenhum pra eles, até mesmo se pedissem pra parar nós iríamos parar, porque a gente sempre fazia questão de andar certinho.

E você se lembra do que você pensou quando houve os primeiros tiros?

Ai, na hora bate tanto desespero que você… Você não sabe nem o que você pensa, né? Meu filho ali gritando, acho que meu pensamento foi todo voltado pra ele. Foi pro Davi, quando eu abaixei, assim, por cima dele, pra que ele não fosse atingido. Eu nunca tenho reação pra nada, às vezes eu me paraliso, e nesse momento Deus não me deixou paralisar, né?, porque eu consegui abrir a porta e saí pra poder buscar ajuda. Eu precisava tirar o meu filho dali. Porque o Davi tinha visto o que aconteceu com o pai dele. Ele presenciou tudo.

Quando você viu o Exército?

Na virada, quando teve a sessão de tiro, que eu abaixei, eu olhei, falei “calma que é o quartel”. Você não imagina aquilo tudo que aconteceu, aquela quantidade de tiros, por pessoas que a gente sabe que têm que nos proteger… É muito triste.

Vocês tentaram conversar com eles?

No momento eu só pedia socorro, só pedia ajuda, que meu marido não era bandido, e eles com arma em punho, com aquele ar de deboche: “Eu sou a autoridade, eu que mando, eu faço o que eu quero”.

Mas eles falaram alguma coisa?

Não precisa falar, entendeu? Aquela situação, aquela quantidade de cápsula que tinha no chão. Não precisava falar, você via pelo olhar. Da forma que eles chegavam com a arma em punho. É uma coisa muito surreal, eu não desejo isso pro meu pior inimigo.

Porque você sentiu que naquele momento eles tinham total poder, é isso?

Era o que eles demonstravam. Em nenhum momento eles deram importância pro meu choro, em nenhum momento eles deram importância pro meu desespero. Eles tiraram a vida de uma pessoa do bem, eles tiraram a vida de um pai de família, eles desestruturaram uma família inteira. Um filho que sente tanta falta do pai. Se soubesse a saudade que meu filho sente do pai… Também, uma criança de 7 anos ter presenciado tudo que ele presenciou, ver tudo que ele viu. Se eu sofro, se eu choro todos os dias da minha vida, você imagina uma criança com 7 anos. Difícil, né?

Os soldados nem responderam?

Não. Nisso, o bombeiro veio. Eu desesperada pedindo pra que a gente botasse meu esposo ali, pra que nós pudéssemos fazer uma massagem. Eu tinha esperanças de que meu esposo poderia estar vivo ainda. E depois que aconteceu tudo, que o bombeiro chega pra mim e fala: “Não tem mais o que fazer”. Aí sim, aí eu pedi ajuda e chamei a Polícia Civil.

E quando chegou a Polícia Civil?

Chegou primeiramente é o DH (Delegacia de Homicídios), que se fala, né? Eu queria o DH, o civil, pra poder mexer.

AF Rodrigues/Agência Pública
Luciana relembra os momentos vívidos no fatídico dia 7 de abril de 2019

Na primeira nota que soltaram, o Comando Militar do Leste afirmou que houve troca de tiros com bandidos. Você tinha consciência que seu marido poderia ser tachado de bandido?

Lógico. A gente vê na televisão todos os dias, né? A gente sempre lê histórias, relatos, pessoas do bem que às vezes saem como mau. Lógico que eu tinha. Mesmo com aquilo tudo, foi o que eu falei pra você: meu esposo é uma pessoa do bem. Ele morreu sendo uma pessoa do bem. Então, eu não poderia deixar com que nada, nada abalasse a imagem dele, com que nada ali fosse distorcido, entendeu? Poderia demorar um dia. Mas eu ficaria ali do lado dele porque eu tenho certeza que ele faria o mesmo por mim.

Eu acho que, se hoje eu sofro, se hoje eu choro todos os dias desde o ocorrido, se viesse alguma coisa que distorcesse a imagem dele, eu não iria me perdoar. Eu iria me sentir fraca por não ter lutado pra manter essa postura.

O Exército chegou a mencionar que houve uma troca de tiros. Você soube disso na hora?

Até hoje, do que eles falam a respeito disso, eu só sei dizer pra você que eu não vi nada, eu não ouvi nada, troca de tiro, não vi nada, nada, nada. Só o que eu tenho pra dizer é que nós não passava perigo nenhum pra eles. Se mandassem parar, nós iríamos parar. Até hoje eu não entendo por quê.

Você voltou para o trabalho logo depois, né?

Sim, sim, voltei. É o que eu te falei: eu gosto do que eu faço, né? Às vezes eu até me pergunto… Caramba, eu cuido, já ressuscitei, já fiz massagem, tanta gente já sobreviveu comigo, e eu fui incapaz de fazer com que meu esposo, naquele momento, sobrevivesse. E cuidar das pessoas é muito bom, cuidar do próximo.

Te faz bem?

Eu gosto muito do que eu faço, de pegar uma vózinha, uma tia. E aí você dá o seu melhor, você dá o amor, você dá um banho, você deixa cheiroso, você penteia o cabelo, entendeu? Então, eu gosto muito desses cuidados, dos cuidados paliativos, de você estar ali, lado a lado. Isso me faz muito bem.

Depois disso, o Exército entrou em contato com você?

Eles nunca entraram em contato comigo pra nada. Mesmo que não entrassem comigo – porque eu acho que eu não estaria nem com cabeça pra poder falar diretamente com eles –, mas eu tenho advogados. Eu tenho um filho, que hoje em dia a gente tem um custo com psicólogo, tanto eu quanto ele. A gente se trata com psiquiatra. Em nenhum momento eles apareceram pra nada, nem para poder oferecer esse tipo de tratamento.

E, depois desse, acho que o próximo momento em que você teve relacionamento com o Exército ou com militares foi lá na Ilha do Governador, né?

Sim.

Eu queria que você me contasse como é que foi essa audiência.

Foi assim, uma das audiências em que fiquei muito decepcionada, né? Fiquei decepcionada porque você acaba esperando mais, porque eles estão soltos, estão com a família deles. Eles continuam levando a vida normal.

Você acha que eles deveriam continuar presos?

Sim, eu acho que deveriam. Sem dúvida. Eu acho que eu poderia estar um pouquinho mais aliviada se a justiça tivesse sido feita, porque eu não tô vendo a justiça sendo feita. Acho que deveria, pra que não viessem outros pais, pra que não viesse outra família, pra que não viesse outra esposa, outro filho, pra que não viessem outras pessoas sofrerem.

Você acha que no final desse processo eles vão ser punidos ou você tem dúvidas?

Eu tenho dúvidas, mas eu vou te falar uma coisa: eu acredito na justiça divina.

Mas e na justiça nossa mesmo, você acredita?

Olha, o país que a gente vive, a gente acaba se surpreendendo… Eu tenho minhas dúvidas.

Seja aliada da Pública

Faça parte do nosso novo programa de apoio recorrente e promova jornalismo investigativo de qualidade. Doações a partir de R$ 10,00/mês.

Mais recentes

No Maranhão, cada guardião da floresta é um Paulino Guajajara

12 de novembro de 2019 | por

Responsáveis pela vigilância dos territórios indígenas, guardiões relatam à Pública cotidiano de ameaças e agressões provocadas por madeireiros, grileiros e traficantes invasores

Flávio Dino explica o que fará pela segurança das terras indígenas do Maranhão

12 de novembro de 2019 | por

Em entrevista à Pública, governador detalha atuação de força-tarefa criada para acompanhar a segurança pública nas TIs do estado e critica “política isolacionista” de Bolsonaro

Esse camponês argentino lutou até a morte contra os estragos causados pelos agrotóxicos

11 de novembro de 2019 | por e

Durante mais de uma década, Fabián Amaranto conviveu com doença neurológica causada por pesticidas e virou símbolo de movimento contra veneno