Agência de Jornalismo Investigativo

Após ataque à sede da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn em março, liderança do alto Tapajós afirma que indígenas pró-garimpo “são mandados pelos brancos” e que seu povo está “ficando na miséria, sem rio e sem floresta, com tudo destruído”

26 de abril de 2021
15:52

“Medo a gente não tem, não dá para recuar. É só mesmo evitando esses conflitos, porque ainda temos muita coisa pra fazer.” É assim que Maria Leusa Munduruku, liderança do alto Tapajós, descreve à Agência Pública suas motivações para seguir na luta contra o garimpo ilegal que avança sobre as Terras Indígenas Munduruku e Sai Cinza, ocupadas por seu povo, no sudoeste do Pará. 

Ameaçada há anos por sustentar posição de resistência à mineração em seu território, ela tem sentido as intimidações recrudescerem nos últimos meses devido à escalada do conflito com os garimpeiros. A situação é tão grave que, na última quinta-feira (22), o Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA) pediu ao procurador-geral da República Augusto Aras que solicite ao Supremo Tribunal Federal (STF) a atuação da Polícia Federal para garantir a segurança dos Munduruku no município de Jacareacanga, epicentro do conflito, localizado a mais de 1,7 mil km da capital Belém.

De acordo com Maria Leusa, os criminosos aliciaram um pequeno grupo de indígenas, que vem representando os interesses do garimpo e ameaçando os Munduruku contrários à atividade. “Eles [garimpeiros e apoiadores] falam sempre que nós queremos a legalização do garimpo, mas isso é mentira. Os nossos caciques sempre falam por meio das cartas que não aceitamos a legalização do garimpo dentro do nosso território”, diz, referindo-se aos documentos abertos que as lideranças Munduruku têm divulgado para denunciar os garimpeiros. Segundo Maria Leusa, uma nova assembleia de caciques foi realizada na última semana para discutir as próximas medidas contra as invasões.

Maria Leusa Munduruku tem visto as ameaças contra si se agravarem nos últimos meses em Jacareacanga

Em 25 de março, as ameaças se traduziram em um ataque à sede da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn, da qual Maria Leusa é coordenadora, em Jacareacanga. Conforme apuração do MPF-PA, os responsáveis pelo atentado – entre eles, indígenas – integravam um protesto a favor da exploração de ouro nas terras indígenas do município. Em 18 de abril, segundo o MPF, o grupo pró-garimpo roubou mais de 830 litros de combustível e um motor de barco pertencentes à Wakoborũn, ação que se repetiu três dias depois, quando foram subtraídos mais dois motores de embarcações de Mundurukus que se opõem à extração de ouro.

Maria Leusa conta que o conflito se intensificou após alguns indígenas que combatem a mineração ilegal terem encontrado, no meio de março, uma nova abertura de garimpo na TI Munduruku, na região o igarapé Baunilha. O MPF-PA informou ter recebido denúncias dando conta de que a invasão teria se intensificado por ali a partir do dia 14 do mês passado, “com a entrada de grande número de pás carregadeiras”.

Já neste mês, os garimpeiros e seus aliados Munduruku organizaram uma comitiva, formada por mais de cem indígenas, que viajou a Brasília para pressionar o STF e o Congresso a favor de suas demandas – a principal delas é a aprovação do PL 191/2020, proposto pelo governo federal, que autoriza a mineração em terras indígenas, hoje proibida pela Constituição. “Eles [organizadores da caravana] mentiram falando que era para discutir saúde, educação. Mentiram para enganar e levar os nossos parentes”, afirma Maria Leusa. 

Em agosto de 2020, a atuação ilegal dos garimpeiros na TI Munduruku ganhou evidência quando uma operação da Polícia Federal contra a atividade foi vazada para os invasores, o que teria permitido que eles interrompessem o trabalho e escondessem seus equipamentos, impedindo o flagrante. No mesmo mês, outra polêmica: indígenas pró-garimpo foram levados a Brasília por um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para uma reunião com o ministro Ricardo Salles.

A exploração de ouro na região do território Munduruku – que abriga 14 mil pessoas e se estende ao todo por cinco TIs entre Pará e Mato Grosso – acontece desde a década de 1950, mas se intensificou nos últimos com o uso de máquinas mais modernas e caras, como tratores e escavadeiras hidráulicas. Para Maria Leusa, isso comprova que os indígenas pró-garimpo “são mandados pelos brancos”. “Nós, indígenas, não temos condição de manter uma escavadeira cara daquela, os indígenas não têm quase nada”, destaca. Confira a entrevista a seguir:

Em 15 de abril, o Ministério Público Federal enviou recomendação a ministérios e órgãos públicos para que não fizessem acordos sobre mineração em terras indígenas com a comitiva Munduruku que foi a Brasília para o Dia do Índio. No documento, os procuradores citam a Associação Pusuru como reduto dos Munduruku aliados ao garimpo. Isso procede?

A Associação Pusuru é uma das que existe há mais tempo, mas não é a primeira – o Conselho Indígena Munduruku do Alto Tapajós [Cimat], por exemplo, foi criado antes. Infelizmente, ela foi corrompida pelos garimpeiros, agora defende o interesse dos pariwat  [“não indígena”, na língua tradicional] e não os do povo. Entraram [na associação Pusuru] os parentes que estavam envolvidos com as invasões, está totalmente na mão deles. Mas os caciques falam que nenhuma associação representa o povo Munduruku; nós, a associação das mulheres, a associação dos professores, o Movimento Ypereg Ayu são apenas para dar suporte e apoio aos movimentos de resistência, mas jamais vão representar o povo Munduruku todo. Eles [garimpeiros e apoiadores] falam sempre que nós queremos a legalização do garimpo, mas isso é mentira. Os nossos caciques sempre falam por meio das cartas que não aceitamos a legalização do garimpo dentro do nosso território.

A caravana a Brasília contou com a participação de 102 indígenas Munduruku. Por que essas pessoas fizeram parte da comitiva?

Eles [organizadores da caravana à Brasília] mentiram falando que era para discutir saúde, educação. Mentiram pra enganar e levar os nossos parentes. Eles estão usando nossos parentes.

Em março, houve um ataque à sede da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn, em Jacareacanga. Qual era a situação do conflito com os garimpeiros ilegais quando esse episódio ocorreu?

A gente já tinha recebido vários áudios de ameaça por estarmos acompanhando nossos guerreiros, fazendo monitoramento [na TI Munduruku]. No mês de março, teve monitoramento em mais um local que eles [garimpeiros] queriam invadir [na região do igarapé Baunilha]. Mas os guerreiros não deixaram, continuaram fazendo fiscalização dentro do território. Aí foi dado o recado via WhatsApp, mandado áudio nos grupos. Logo depois, eles realmente entraram armados, puseram uma balsa no local, colocaram os próprios indígenas para fazer a segurança do transporte [do ouro], e conseguiram conquistar uma das aldeias. Os guerreiros, quando souberam que a invasão estava acontecendo, começaram a se articular e desceram para impedir a nova abertura [de garimpo]. Eles pediram que os invasores tirassem as coisas, foi muito ruim, teve briga, tentaram atirar nos guerreiros. Isso foi no mês passado [março], antes da depredação do nosso escritório. Eles ficaram muito revoltados, falaram que eram as ONGs que estavam bancando, que era tudo culpa da associação [Wakoborũn] por estar impedindo eles de trabalhar. Então, [os indígenas pró-garimpo] começaram a se manifestar e formaram um grupo de criminosos. Só que eles são mandados pelos brancos, estão sendo bancados, porque nós, indígenas, não temos condição de manter uma escavadeira cara daquela, os indígenas não têm quase nada. Aí aconteceu o ataque, depredaram nosso escritório, queimaram todas as documentações que estavam lá e alguns equipamentos. 

Sede da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn depois do ataque, em 25 de março; documentos e equipamentos foram quebrados e queimados

Quais foram os desdobramentos desse ataque?

Depois do ataque, eles falaram que não iam parar. E, realmente, foi dito e feito, só que a gente também não recuou. A gente começou a fazer mobilização nas aldeias, começou a denunciar tudo que está acontecendo, e também conseguimos nos fortalecer. A maioria dos caciques se manifestou pela realização de uma grande assembleia deles, falaram que [os indígenas pró-garimpo] estão passando por cima da autoridade deles, e por isso não podem falar pelo povo Munduruku. Estamos na mobilização, conversando com os caciques, dizendo que existe um projeto de lei pelo qual o governo pretende legalizar o garimpo dentro do nosso território. Nenhum cacique é favorável a isso. Nós passamos 15 dias indo de aldeia em aldeia. 

Houve novos conflitos e ameaças depois do ataque à associação?

Durante a viagem, chegamos em uma das aldeias e vimos que tinha dado problema com a instalação de internet. Tivemos que pedir um técnico para fazer a manutenção, ele veio numa embarcação que faz o trabalho de resistência. Nesse barco, havia 1.030 litros de combustível, porque ele ia para outra região depois. Mas roubaram o combustível, chamando o motorista de ongueiro. Na verdade, não tem nenhuma ONG aqui no território Mundurukânia, quem está na luta somos nós mesmos, as nossas organizações, principalmente o Movimento Ypereg Ayu, a Wakoborũn, associação das mulheres, a associação dos professores, e o CIMAT, o conselho dos caciques. Não temos doação de nenhuma ONG, a gente fala que nós mesmos somos a ONG, porque trabalhamos independente e não dependemos do governo. A gente está cansado de esperar pelo governo. É obrigação do Estado fazer o seu papel, obrigação da Funai e a Funai não está fazendo nada por nós, sabendo que a destruição está grande e que a invasão está descontrolada. Somos nós mesmos, com as nossas próprias organizações, que estamos fazendo tudo. Só que estamos em um estado muito grave de ameaças físicas. 

Quais são as áreas do território Munduruku mais atingidas pelo garimpo hoje?

Tem a região do Rio das Tropas, onde caciques ficaram amedrontados e não conseguiram mais agir. Tem também a região do Rio Cabitutu, do nosso cacique geral, que declara querer entregar o cargo porque a região dele não o respeita mais, maltrata e ameaça ele. Tem ainda a região do igarapé Jaurizal, no território Sai Cinza.

Como o garimpo tem afetado a vida dos Munduruku ultimamente?

Estamos ficando na miséria sem rio e sem floresta, com tudo destruído. Estamos com nossos filhos doentes, perdendo nossos anciões pela Covid por conta da invasão, e perdendo peixe, principalmente naquela regiões [mais] invadidas.

Garimpo ilegal vem avançando na TI Munduruku, no sudoeste do Pará

De que forma você e outras lideranças contrárias ao garimpo ilegal têm sido ameaçadas?

A ameaça vem dos próprios parentes, porque eles [garimpeiros] conseguiram pegar esses parentes. Os garimpeiros pariwat conseguem armá-los, e eles [indígenas pró-garimpo] ficam nos procurando, dizendo que vão nos matar porque a gente continua fazendo as denúncias. Realmente a gente faz denúncia porque os caciques exigem isso: em toda a assembleia que a gente faz, os caciques exigem a retirada de garimpeiros do território, mas isso nunca aconteceu, e eles ficam aqui rondando. Só que agora a ameaça está muito forte porque tem muitos brancos incentivando. Eles mostraram a cara com aquela doação [empresários fizeram vaquinha para levar comitiva de indígena a Brasília neste mês] incentivando os indígenas a [se manifestar] para aprovar o PL. Realmente, os parentes se perderam. 

Como tem sido viver sob essas ameaças?

A gente está tomando muito cuidado, não estamos saindo na rua, ficamos mais dentro de casa, não temos mais aquela liberdade de sair. Medo a gente não tem, não dá para recuar. É só mesmo evitando esses conflitos, porque ainda temos muita coisa pra fazer. Os caciques estão dando força, as mulheres precisam da gente. A gente sempre denuncia mantendo a cabeça erguida, conversando e recebendo o apoio das aldeias. Isso nos fortalece e eu jamais vou chorar por conta disso. Nos áudios, [os apoiadores dos garimpeiros] falam que os caciques são favoráveis, mas é tudo mentira. Tem muitos indígenas revoltados com eles e a gente tem muito apoio, principalmente das mulheres que estão tomando a frente da luta. A gente consegue manter a nossa energia forte para enfrentar tudo isso. Ao mesmo tempo é muito triste porque na nossa cidade mesmo não existe segurança, a polícia também não é confiável. A gente acaba confiando só em si mesmo. E não nos calamos, vamos continuar nessa luta, continuar gritando, pedindo socorro, resistindo.

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Colaborou Raphaela Ribeiro

Marcio Isensee e Sá/Agência Pública
Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn
Vinícius Mendonça/Ibama

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