Buscar
Coluna

Delegados aposentados da PF que agiram contra Moraes têm grupo “conservador” no WhatsApp

Os nomes mais conhecidos do grupo contrário a Moraes foram formados durante a ditadura militar

Coluna
28 de setembro de 2022
12:00
Este artigo tem mais de 4 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

O grupo de 131 delegados aposentados da Polícia Federal que protocolou uma “notícia-crime” contra o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes agiu à revelia da entidade representativa da categoria, a ADPF (Associação Nacional de Delegados da PF). Vários deles integram um grupo no aplicativo WhatsApp, denominado “Delegados Conservadores”, que ganhou corpo depois que a ADPF divulgou, em julho, uma nota em defesa do sistema eleitoral brasileiro e das urnas eletrônicas. Naquela ocasião, o presidente Jair Bolsonaro havia reunido embaixadores estrangeiros para fazer, novamente sem provas, um ataque às urnas. Os delegados acharam que a ADPF não deveria ter emitido a nota.

Os nomes mais conhecidos do grupo que agiu contra Moraes ingressaram e foram formados na PF durante a ditadura militar (1964-1985); são “dinossauros” e “conservadores”, conforme um dos próprios subscritores definiu à Agência Pública. Antes integravam um outro grupo mais amplo, formado por diferentes tendências políticas e denominado “Aposentados ADPF”. Descontentes com a nota divulgada em 19 de julho pelo presidente da entidade, Luciano Leiro, eles rumaram para o novo grupo e passaram a discutir a ideia de pedir a abertura do inquérito contra Moraes.

Segundo um dos “conservadores”, no grupo também há eleitores de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB), mas “a tendência da maioria” é de apoio à reeleição de Bolsonaro. O número de subscritores da “notícia-crime” não indica uma opinião majoritária entre os delegados aposentados da PF. Considerando apenas os aposentados filiados à ADPF, cerca de 600, de acordo com a entidade, o grupo que assina o documento representaria 22% da categoria. Na terça-feira (27), o mesmo grupo divulgou uma “nota à nação” com a assinatura de 217 delegados aposentados.

Entre os subscritores da “notícia-crime” estão delegados que ocuparam cargos de confiança dentro e fora da PF. Como José Francisco Mallmann, a primeira assinatura do documento e que, segundo os delegados, encabeçou a iniciativa de organizar e redigir, junto com outros seis delegados, a “notícia-crime”. Na PF desde 1973, quando entrou como agente, Mallmann foi superintendente em quatro Estados (Rondônia, Mato Grosso do Sul, Roraima e Rio Grande do Sul) e, depois, secretário de Segurança Pública no governo de Yeda Crusius (PSDB) no Rio Grande do Sul.

Outros delegados mais conhecidos que assinam o documento são Roberto Precioso Júnior, que foi superintendente da PF no Rio de Janeiro e secretário de Segurança na gestão de Rosinha Garotinho, em 2006; Mauro Sposito, que entrou na PF em 1976 e foi superintendente da PF no Amazonas e assessor do secretário de Segurança no Estado; Marco Antônio Veronezzi, ex-superintendente da PF em São Paulo; e Vicente Chelotti, que foi diretor-geral da PF no governo de Fernando Henrique Cardoso e, depois, suplente de deputado federal pelo PMDB no Distrito Federal (assumiu o mandato por duas vezes).

Na “nota à nação” aparecem também os nomes de Amaury Galdino, que ingressou na PF em 1976 e foi diretor-geral do órgão em 1992, Daniel Lorenz, ex-diretor de inteligência da PF em 2008, e Marcelo Itagiba Nogueira, ex-deputado federal pelo PMDB e ex-assessor especial do Ministério da Saúde na gestão do então ministro José Serra (PSDB), de 1998 a 2001.

Fachada do Departamento de Polícia Federal do Ministério da Justiça.
Delegados aposentados da PF se denominam como “conservadores” e apoiam em grande maioria Jair Bolsonaro

A ideia da “notícia-crime” não foi discutida nem apresentada previamente à ADPF e causou incômodo em muitos outros delegados aposentados. “É uma pisada na bola terrível. Fazer isso [peça à PGR] é uma inversão total de valores. O policial, especialmente o delegado, passa por uma preparação ao longo da sua carreira para que seja capaz de apurar fatos. Não é para defender ninguém, não é para acusar ninguém, é para apurar fatos. Ao entrar nesse caso dessa forma, os delegados perdem a isenção e colocam mal os colegas da ativa”, disse um delegado que pediu para não ter o nome publicado.

Outro grupo de delegados aposentados começou a coletar assinaturas entre colegas para uma “manifestação de repúdio” à petição protocolada na PGR. O texto classifica a iniciativa feita contra Moraes como um “movimento político-ideológico e eleitoral”.

“Esse grupo de aposentados não representa a classe dos delegados de Polícia Federal. E a missiva destinada ao PGR revela mera opinião desatualizada e desorientada frente à Constituição Federal, assim como denota desprezado pela autonomia técnico-jurídica das autoridades policial e judiciária que atuam no inquérito policial”, diz a “manifestação” que contava, às 18h30 desta terça-feira (27), com 139 assinaturas.

Na “notícia-crime” protocolada nesta segunda-feira (26), os delegados aposentados pedem à PGR (Procuradoria Geral da República) que abra um inquérito para apurar suposto crime de abuso de autoridade por parte de Moraes e também de um colega delegado, Fábio Alvarez Shor, responsável pela investigação aberta contra um grupo de empresários que integrava um grupo de WhatsApp no qual se falou sobre a ideia de um golpe de Estado caso Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seja eleito presidente da República. Para os delegados aposentados, as decisões tomadas por Moraes têm “nítido caráter político-partidário”.

O ministro do STF Alexandre de Moraes é um homem branco, com a cabeça raspada e olhos escuros. Alexandre de Moraes veste paletó preto e gravata azul, ele fala ao microfone.
Nota de repúdio à notícia-crime contra Moraes classifica a iniciativa como um “movimento político-ideológico e eleitoral”

“Não se pode nem fazer críticas. Qualquer coisa é ataque”

José Francisco Mallmann disse à Agência Pública nesta terça-feira que “a própria subprocuradora geral da República fala que isso [ação contra os empresários] é uma prática de perseguição especulativa e indiscriminada, se trata de uma exploração eleitoral e midiática”.

O ex-superintendente disse que a iniciativa do seu grupo “não tem vínculo nenhum com a associação” dos delegados, a ADPF, nem com “nenhuma associação ou federação”. Afirmou ainda que o grupo também “não tem nenhuma relação partidária”. Indagado sobre seu voto à Presidência, Mallmann preferiu não revelar. Ele também disse que não sabe se a maioria do seu grupo apoia a reeleição de Bolsonaro.

“O nosso grupo somos conservadores e nessa linha que nós nos mantemos. Porque nós somos, viemos desse tempo, né… Daquilo que sempre foi feito no nosso país, dentro da legalidade, dentro da justiça, e nós somos mais uma linha conservadora. É óbvio que cada um tem a sua preferência, mas não se manifesta, de forma integral, se estamos ao lado de candidato A ou candidato B. Isso não existe”, disse Mallmann.

“Estamos imbuídos de dar a nossa parcela de contribuição à sociedade para restauração do estado democrático de direito. Hoje, já estamos virando memes, de que seremos recebidos em nossas casas pela Polícia Federal, talvez algum mandado do ministro Alexandre de Moraes. Quer dizer, isso já está virando meme no país. As pessoas não podem exercer sua livre manifestação de pensamento, como garante a Constituição. Não se pode nem fazer críticas. Qualquer coisa é ataque. Uma crítica já se torna ataque. O verbo da moda agora é ataque. Quando na verdade são críticas que qualquer cidadão pode fazer.”

Vicente Chelotti disse à Pública que não participou da redação do documento, mas que leu, concordou com os termos e, por isso, assinou. “O que não estamos concordando, e está muito claro no pedido, é com a extrapolação dos Poderes. Não é do Supremo, é do ministro e do delegado. Estamos nos posicionando sobre o devido processo legal. Tem que ser assim: polícia investiga, MP denuncia e o juiz julga”, disse o ex-diretor-geral.

Protocolada na segunda-feira, a petição dos delegados aposentados foi enviada ao gabinete da subprocuradora Lindora Araújo, que não havia se manifestado sobre o pedido até o fechamento deste texto.

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcos Oliveira/Agência Senado

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países

Brasília (DF), 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência contra mulheres

‘O sistema do Estado é horrível’: Caraguatatuba é campeã em violência contra a mulher

|

A jornada de duas vítimas de violência doméstica em busca de acolhimento e justiça no litoral norte de São Paulo

Crianças brincam em rua do Complexo da Penha e Alemão

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

|

Enquanto políticos que apoiaram operação foram eleitos, moradores pedem olhar humano para comunidade

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

|

Muita desinformação sobre o paradeiro do candidato derrotado circulou, mas ele só saiu do Brasil às 22h50 de terça (27)

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

|

Só nos EUA, estão Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

|

Bernie Sanders e 12 deputados questionaram a empresa sobre interferência eleitoral no Brasil

As decisões favoráveis de Mendonça à Hapvida após encontro com executivo na Alemanha

|

Instituto fundado pelo ministro do STF organizou evento que reuniu empresários, lobistas e até advogado de Vorcaro

Com “exército” de Janones, Lula consegue virada inédita e é reeleito presidente

|

Mobilização nas redes sociais ajuda a explicar redução da abstenção e feito sem precedentes

Lula é eleito presidente do Brasil. Pela 4ª vez. Em virada histórica.

|

Petista virou jogo do primeiro turno contra Flávio Bolsonaro apesar da falta de ônibus e confusão no TSE