Buscar
Coluna

Das favelas aos quilombos, crimes contra negros continuam impunes

Assassinato de mais um líder quilombola escancara o racismo por trás da impunidade, que premia os criminosos

Coluna
4 de novembro de 2023
06:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui

Quando Márcia Palhano, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), me ligou, alarmada com mais um surto de violência contra comunidades tradicionais no Maranhão, não imaginava que uma nova má notícia chegaria tão rápido: dias depois da nossa conversa, o líder quilombola José Alberto Moreno Mendes, 47 anos, foi assassinado com três tiros no rosto e dois nas costas.

Doka, como era conhecido na comunidade, era presidente da Associação de Moradores do Quilombo Jaibara dos Rodrigues, no território Monge Belo, em Itapecuru-Mirim, Maranhão. Na sexta-feira passada (27), ele estava em frente à casa em que morava com a mulher e quatro filhas, no fim da tarde, quando dois homens passaram em uma moto e atiraram. Doka morreu na hora. 

É o décimo quilombola assassinado no estado nos últimos três anos. 

O território Monge Belo, onde vivem oito comunidades, aguarda titulação desde 2004, quando foi reconhecido como terra pertencente a comunidades remanescentes de quilombo. Em 2016, a presidente Dilma assinou o decreto de desapropriação da área, mas, sete anos depois, o processo ainda não foi concluído. Apenas 211 terras quilombolas estão regularizadas no país, enquanto 1.787 processos para titulação de territórios quilombolas aguardam parecer do Incra, o que é um dos motores para as invasões.

Há pelo menos dez anos, o Maranhão oscila entre os três primeiros lugares no ranking da violência no campo. Nos últimos dois anos, está em primeiro lugar – em 2022, empatado com Rondônia, outro foco de grilagem e violência praticadas por fazendeiros, madeireiros e garimpeiros apoiados na pistolagem. 

Conheci Márcia, aguerrida defensora de direitos, quando estive no Maranhão, em março deste ano, para documentar a violência crescente contra indígenas Guajajara e quilombolas, constatada em nosso Mapa dos Conflitos. Foi com a ajuda dela que eu e meu colega José Cícero chegamos a Arari, na Baixada Maranhense, onde cinco quilombolas foram assassinados entre janeiro de 2020 e janeiro de 2022. 

Na linda comunidade do Cedro, onde estivemos, pai e filho foram assassinados na frente da família e um avô foi alvejado dentro de casa, depois que os moradores cortaram as cercas elétricas de criadores de búfalo, que invadiram suas terras. Ninguém foi preso pelos assassinatos e a comunidade ainda foi processada pelo “dano” ao “patrimônio” dos grileiros.

Uma história que machuca pela injustiça e enraivece pela impunidade, e que passou quase despercebida pela imprensa. Vocês poderão ouvi-la a partir da próxima terça-feira (7/11) na nova temporada do podcast Amazônia sem Lei. Todos os episódios foram feitos em campo, com reportagens baseadas no Mapa dos Conflitos. Volto ao tema com mais detalhes na semana que vem.

Quando conversei com Márcia, ela estava organizando a visita da Coordenação da Campanha contra a Violência no Campo em Codó, no leste maranhense. Assim como Itapecuru-Mirim, onde Doka foi assassinado, a região faz parte do Matopiba, fronteira agrícola que se expande no interior do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia à base da grilagem e da violência. 

Recordista em conflitos no campo, o Maranhão tem hoje 114 pessoas ameaçadas de morte, segundo a CPT. “São muitas comunidades atingidas por graves violações de direitos e abandonadas pelo poder público”, diz Márcia. 

O Maranhão é um dos estados mais ricos do país em culturas tradicionais, unidas pela resistência marcada pela firmeza das quebradeiras de coco babaçu, presentes em aldeias, roças, quilombos. 

É a segunda unidade da Federação em número de comunidades remanescentes de quilombos, atrás apenas da Bahia, palco recente de outro crime hediondo: o assassinato de mãe Bernadete, líder quilombola e religiosa alvejada por 22 tiros no dia 17 de agosto em sua casa e terreiro, no Quilombo da Pitanga. 

A comunidade que protegia fica na área rural de Simões Filho, município na região metropolitana de Salvador, conhecido pelo domínio dos grupos de extermínio. A polícia baiana anunciou a prisão dos suspeitos, mas até hoje não revelou suas identidades nem o motivo para o ataque à ialorixá, ocorrido cinco anos depois do assassinato de seu filho, Binho, até hoje não esclarecido.

Das favelas aos quilombos, da cidade ao campo, só o racismo explica a impunidade dos crimes contra negros – sejam praticados por pistoleiros, milicianos ou policiais. Os jornalistas precisam estar lá, ao lado dos defensores de direitos, para que esses crimes não sejam negligenciados pelas autoridades nem esquecidos pela sociedade. Obrigada, Márcia. 

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Funai revê posição adotada no governo Bolsonaro e pede suspensão da licença de Belo Sun

|

Órgão agora cobra análise de 20 comunidades ignoradas e quer suspender licença retomada na Justiça em fevereiro de 2026

Imagem mostra ícones dos aplicativos de redes sociais da Meta em celular

Meta usa influenciadores para direcionar debate sobre proteção a crianças nas redes

|

No Brasil, empresa promove ideia de que as suas ferramentas são melhor que leis que proíbam o acesso dos mais jovens

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi