Buscar
Nota

Harvard é pressionada dentro de casa a rever investimentos em terras griladas no Cerrado

11 de outubro de 2023
12:00
Este artigo tem mais de 3 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Dois professores da renomada universidade de Harvard, um da faculdade de Direito e outro da faculdade de Medicina, administram parte do patrimônio trilionário do fundo de investimentos TIAA, o principal gestor do dinheiro das aposentadorias de professores dos Estados Unidos. Não haveria nada de errado no trabalho dos professores de Harvard no fundo TIAA se não existissem ligações deste mesmo grupo financeiro com uma série de casos de desmatamento, grilagem e violência contra povos tradicionais do Cerrado – como a Agência Pública e outros veículos têm denunciado nos últimos anos.

A presença de professores de Harvard na administração de bens do fundo TIAA é uma das razões do evento “Grilagem e ecocídio: como BUNGE, TIAA e Harvard estimulam a destruição do Cerrado brasileiro”, que ocorre na própria universidade norte-americana nesta quarta (11) a partir das 13h, horário de Brasília (DF), com lançamento de um estudo, em inglês, sobre o mesmo tema.

Segundo a organização do debate, a universidade de Harvard, seus funcionários e seus aposentados teriam ao menos US$ 3,9 bilhões investidos no fundo TIAA – ou seja, algo em torno de R$ 19,7 bilhões investidos, na cotação atual do dólar. Na ponta, recursos como estes acabam sendo usados na compra de terras na principal fronteira agrícola brasileira – o Matopiba, formado por partes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Segundo o governo federal, nos últimos quatro anos o desmatamento saltou de 6,3 mil km² para 10,7 mil km² no Cerrado – um aumento de quase 70% puxado, principalmente, pela devastação em áreas onde há investimento estrangeiro na compra de terras, inclusive em regiões onde o fundo TIAA – e Harvard – possuem ligação histórica com fazendas e grilagens.

Um dos casos mais conhecidos é o da antiga Caracol Agropecuária, empresa responsável pela grilagem de 140 mil hectares no oeste da Bahia que recebeu, por anos, investimento do fundo TIAA e da universidade dos Estados Unidos, conforme relatado pela Pública. Como revelado pelo site Mongabay, porém, Harvard conseguiu escapar de punições judiciais ligadas ao caso na Bahia. Estima-se que a universidade norte-americana tenha mais de US$ 1 bilhão investidos em terras ao redor do mundo, incluindo o Brasil. 

À Pública, um dos organizadores do evento desta quarta, o professor visitante do departamento de História de Harvard Fábio Pitta, afirma que grilagens ligadas ao grupo TIAA – e, por consequência, à própria universidade norte-americana – têm avançado em outras partes do Matopiba.

“Hoje estamos num ápice do desmatamento no sul do Piauí, com atuação intensa de milícias rurais contra camponeses. Podemos dizer que há um trabalho por parte dos grileiros para ‘esquentar’ as terras roubadas, desmatando, revendendo e consumando grilagens ocorridas anos atrás – crimes já identificados pelos órgãos de controle”, disse Pitta, um dos coordenadores da ONG Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, que monitora há anos conflitos socioambientais na região do Matopiba.

Em maio de 2022, inclusive, a Pública mostrou como o avanço da grilagem e das ameaças aos camponeses no sul piauiense respinga no fundo TIAA e na gigante holandesa do setor de alimentos Bunge, que domina o mercado de soja no estado. Meses depois, a Pública fez uma nova denúncia de desmatamento entre os municípios de Bertolínia e Santa Filomena, na divisa do Piauí com o Maranhão, próximo a um dos silos de grãos da Bunge no estado.

Transmitido ao vivo via plataforma Zoom, o debate desta quarta visa pressionar a universidade de Harvard a se desligar de investimentos que ameaçam o Cerrado, suas espécies nativas e seus povos. O evento é organizado pelo departamento de História da própria universidade em parceria com a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos e as ONGs internacionais Action Aid, Friends of the Earth, Grassroots International e Stop Harvard Land Grabs (“Parem as Grilagens de Harvard”, em tradução livre).

Edição:

Notas mais recentes

Locais de votação alterados e abstenção: estigma afasta eleitores da Maré das urnas


Fim da escala 6×1 vai a votação no Senado, mas aliados de Flávio tentam barrar


Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Senado deve avaliar PEC do fim da escala 6×1 no Plenário após primeiro turno das eleições


Aposta online: 12 dos 17 parlamentares da Bancada das Bets seguem mais 4 anos no Congresso


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos
Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca
Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa
Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo
Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro
Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros
Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam
Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai
Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas