Buscar
Nota

Após casas de reza incendiadas, Guarani-Kaiowá resistem a avanço evangélico e pedem ajuda

25 de fevereiro de 2025
13:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A comunidade Guarani-Kaiowá de Mato Grosso do Sul entregou uma carta a representantes da embaixada da Alemanha no Brasil, que visitou a etnia entre os dias 11 e 14 de fevereiro para denunciar uma série de ataques que os indígenas vêm sofrendo. As violências incluem a destruição de casas de reza e a perseguição de líderes espirituais. O documento, elaborado pela Aty Guasu – a grande assembleia do povo Guarani-Kaiowá –, detalha a situação de intolerância religiosa que ameaça suas cultura e existência.

De acordo com o relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2024, pelo menos 16 grandes casas de reza do povo Guarani-Kaiowá foram incendiadas no estado. O documento denuncia assassinatos e agressões contra rezadores e a destruição de artefatos centenários, sagrados para etnia. A causa dessa violência no local estaria intimamente ligada aos conflitos fundiários e ao avanço do neopentecostalismo.

O rezador Tito Vilhalva, líder Kaiowá com 106 anos de idade, precisou sair da aldeia Guyraroká, em Caarapó (MS), para se reunir com a comitiva alemã. Originalmente os alemães visitariam a terra dele, mas os planos foram alterados após membros da comunidade evangélica local terem descoberto que o tema do encontro seria intolerância religiosa. A fim de evitar mais conflitos, ele se deslocou 78 km até a retomada Kaiowá Yvy Ajere (Terra Redonda, em guarani), em Douradina (MS). 

Cercado por ao menos cem guaranis de dez tekohas diferentes – como os Guarani se referem à terra, que significa “lugar de ser” –, Vilhalva discursou com uma lucidez que nem mesmo o tempo pôde roubar. Uma frase inspirou aplausos: “Respeitamos a sua bíblia, mas deixem ela longe da nossa terra”. 

Apelo ao governo alemão

A comitiva foi idealizada pelo comissário federal alemão pela liberdade religiosa e da crença, Frank Schwabe, e organizada pelo Cimi, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a organização Misereor, que apoia, com recursos do governo alemão, iniciativas para o desenvolvimento de comunidades indígenas. 

Na carta, os indígenas pediram pressão diplomática da Alemanha sobre o governo brasileiro para acelerar a demarcação de terras, apoio financeiro à Funai, além de investimentos em educação e autonomia econômica para garantir a sobrevivência dos Guarani-Kaiowá sem dependência do Estado brasileiro. A comunidade pediu também reforço no combate a discursos de ódio e desinformação contra indígenas e proteção à sua liberdade religiosa.

“Somos guardiões da Mãe Terra, dos rios e das florestas que protegem toda a vida no planeta”, diz trecho do documento, que pede ainda engajamento da Alemanha na Organização das Nações Unidas (ONU) para alertar sobre o risco de genocício indígena no Brasil. 

Os indígenas ainda detalharam os ataques a casas de reza e lembraram a luta de rezadores e rezadoras, como Damiana Cavanha, que viveu à margem da BR-463, em Dourados, e morreu sem o direito de pisar no próprio território, após ter assistido aos assassinatos de seus familiares. Os Guarani-Kaiowá citaram também o assassinato da nhandecy [rezadora] Sebastiana Gauto e o marido Rufino Velasque, queimados enquanto dormiam na aldeia Guassuty, em Aral Moreira (MS).

Para a embaixada alemã, “o encontro criou canais concretos de diálogo, que podem servir para melhorar a situação dos direitos humanos, aumentar a compreensão dos desafios e conflitos e encontrar soluções [para a problemática apresentada pelos indígenas]”.

Edição:
Renato Santana/Cimi
Renato Santana/Cimi

Notas mais recentes

Governos de 4 estados não aderem a esforço nacional de combate a roubos de celulares


Quem é Fernando Cerimedo, preso em investigação sobre ataque a tiros à ex-companheira


MPF move ação contra Renan e MBL por xingar indígenas do Pará no Instagram


Corrida eleitoral: Campanha começa com Lula em Minas Gerais, Flavio desmarca Juiz de Fora


Corrida Eleitoral: sabatinas eleitorais continuam enquanto Congresso volta de recesso


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas