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Entrevista

Névoa mental causada pelas plataformas afeta percepção da política, diz Letícia Cesarino

Antropóloga analisa como o ambiente digital está passando de uma lógica de bolhas para um estado de confusão permanente

Entrevista
14 de junho de 2026
04:00
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A antropóloga, pesquisadora e professora Letícia Cesarino
Divulgação

As plataformas digitais deixaram de ser apenas espaços de circulação de informação para se tornarem parte central da disputa política contemporânea. Em um ambiente marcado pela economia da atenção, pautas surgem e desaparecem em ritmo acelerado, emoções ganham mais espaço do que a reflexão e a compreensão do que está em jogo na política passa a ser mediada por algoritmos. O resultado é uma crescente dificuldade de construir uma realidade compartilhada, em meio à desinformação, à proliferação de conteúdos produzidos por inteligências artificiais e à influência cada vez maior das Big Techs sobre o debate público.

No Pauta Pública desta semana, Andrea Dip conversa com a antropóloga e pesquisadora Letícia Cesarino sobre os impactos dessa transformação para a democracia. Ela analisa como estamos passando de uma lógica de bolhas para uma espécie de “névoa mental permanente”. “Estamos passando de uma topologia de bolhas para uma topologia de névoa mental, no sentido de que a exposição e o acesso aos fatos públicos estão separados do que realmente acontece nos bastidores da política.”

Cesarino também discute os riscos dessa nova configuração para as eleições de 2026, o avanço da extrema direita nas plataformas digitais e os desafios de reconstruir debates públicos capazes de enfrentar a desinformação e garantir a democracia. Segundo ela, “as plataformas nos colocaram numa temporalidade de crise permanente, que parece muito mais uma temporalidade de guerra do que uma temporalidade de democracia.” Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 220 Da bolha à névoa mental: a disputa política nas redes sociais – com Letícia Cesarino

A antropóloga Letícia Cesarino analisa como o ambiente digital está transformando a percepção das pautas políticas

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Em artigo na Carta Capital, você fala sobre como o que antes a gente chamava de guerra de narrativas entre bolhas, com relação ao debate político nas redes sociais, evoluiu para uma névoa mental que embaça a nossa visão com relação à política. E, nesse mesmo artigo, você fala sobre essa lógica do senso comum e da lógica própria das mídias digitais, que é afetiva, intuitiva e subliminar mais do que reflexiva e consciente. Eu queria te ouvir sobre isso, sobretudo pensando que estamos em ano de eleições no Brasil. 

São processos que já vinham vindo aos poucos, na medida em que a esfera pública foi sendo plataformizada, e os debates eleitorais, as escolhas eleitorais, o debate sobre pautas públicas em geral, vinham passando cada vez mais por dentro dos ambientes digitais, que têm, como a gente sabe, uma lógica de mediação, de comunicação, bastante diferente. Tanto da vida offline, da interação interpessoal, face a face, como do sistema de mídia que existia antes, que tinha muitos problemas, mas os problemas que a gente tem são outros.

Às vezes a gente está olhando para a comunicação pública com as mesmas lentes do sistema pré-digital, sendo que no sistema que a gente está agora, que é onde tem essa mediação universal por parte dos algoritmos, [muda] a própria lógica da comunicação e por conseguinte, da forma como as pessoas veem, pensam a política, acessam os fatos que estão relevantes para a política e com consequência direta para as suas escolhas eleitorais.

Então, já vinha vindo algo no sentido de essa nova lógica começando a crescer e competir com a lógica anterior. Por exemplo, o que se chama na literatura de polarização afetiva na política, ou seja, o fato de que escolhas eleitorais preferências políticas, a própria compreensão das pautas do que está em jogo na política, começou a passar cada vez mais por dimensões afetivas, ligadas ao senso comum, moralidades, o bom e o mal, interpelação, a partir da lógica da economia da atenção, que é essa lógica que privilegia ou premia aquilo que chama atenção. 

A gente não tem nem tempo para pausar e pensar nos assuntos. Então, teve uma mudança um pouco qualitativa, do que estamos vendo, talvez nos últimos dois, três anos. Foi um pouco nesse sentido que eu escrevi a coluna. É algo que acontecia, mas ainda era relativamente minoritário, porém está tomando centro da política, como essa passagem de uma topologia de bolhas para uma topologia de uma névoa mental permanente, porque no modelo da bolha, você tinha dois campos ali que disputavam, que vinha as coisas de forma diferente, cada um com seu viés de confirmação, mas ainda assim, eles estavam no mesmo campo, digamos assim, disputando dentro do mesmo campo. 

Agora, a impressão que dá é que essa lógica da bifurcação de bolha, ela está se dando de forma mais transversal, no sentido de que a própria camada de exposição e acesso dos fatos públicosestá meio que separada do que realmente está acontecendo numa espécie de backstage da política, onde a política continua sendo complexa.

Essa camada que veio meio para um backstage e essa camada que está no frontstage, que é a camada controlada no sentido cibernético pela economia da atenção, pelos algoritmos. Por isso que eu brinquei um pouco com essas metáforas, de que não é mais a bolha, nem mais a cortina de fumaça. É uma camada, uma névoa mental permanente que englobou a forma como a maioria das pessoas acessa a política. E dentro dessa configuração é muito fácil para alguns agentes políticos estarem fazendo um jogo de saber lidar com essa nova realidade, a ponto de a gente ver questões graves acontecendo recentemente, com relação ao caso Master, ao envolvimento do Flávio Bolsonaro, e ainda assim o teto de adesão à candidatura dele, mesmo diante de escândalos tão graves, continua muito alto, mais até do que era antes, segundo os nossos cálculos, na eleição passada. 

Claro que esse não é o único fator, acho que tem outras coisas aí também, mas é um fator que diz respeito ao ambiente de mídia e que parece ter se tornado uma coisa meio permanente, que a gente vai ter que aprender a lidar para estar não apenas em anos eleitorais, mas especialmente em anos eleitorais.

Você acha que o uso das deepfakes vai também engrossar esse caldo antes das eleições?

A visão geral de muitos especialistas, que eu tendo a concordar é que a IA generativa, seja para produção de fake news, seja para automatização de perfis. Essa inteligência artificial que mimetiza agentes humanos, com uma intenção especialmente fraudulenta, seja para criar conteúdo sintético, seja para simular agentes humanos atuando nas redes sociais, no WhatsApp etc., iria dar escala e acelerar processos que já vinham acontecendo, mas não necessariamente mudar qualitativamente esses processos.

A gente viu isso muito em 2018 com os deepfakes. Alguém gravava um áudio imitando a voz do Bolsonaro e aquilo circulava como se fosse um áudio verdadeiro. Porque a persuasão não está exatamente no conteúdo, mas na rede ou na infraestrutura por onde aquele conteúdo circula. Se os usuários já estão propensos a acreditar, por viés de confirmação e por todos esses processos que a gente mencionou, eles vão acreditar naquele tipo de fake.

Agora, eu estou um pouco assustada com o que tem aparecido,principalmente perfis como o da Dona Maria [avatar criado por IA para simular uma mulher idosa negra] e outros semelhantes. São formas fáceis não apenas de influenciar o comportamento eleitoral, mas também de ganhar dinheiro. Chegando a um ponto que talvez possa representar uma mudança qualitativa, no sentido de ajudar a sustentar esse piso eleitoral de políticos da extrema direita. E isso acontece diante de uma permissividade que redes sociais como o Instagram parecem estar adotando em relação a usos fraudulentos da IA.

Você tem um perfil gerado por inteligência artificial produzindo vídeos e postagens também gerados por IA. É conteúdo fraudulento. Mas as principais plataformas não parecem muito preocupadas em limitar isso, seja por razões eleitorais ou quaisquer outras.

O X é uma plataforma complicada, mas eu estou mais preocupada com o Instagram. Principalmente depois daquele deslocamento de posicionamento do Mark Zuckerberg, quando Trump foi eleito. Ele anunciou mudanças para permitir mais conteúdo político e ampliar o alcance desse tipo de conteúdo dentro da plataforma.

Houve coisas estranhas, como o alcance daquele vídeo do Nikolas [Ferreira, deputado federal pelo PL] sobre o Pix, que foi completamente fora de qualquer parâmetro razoável. E existe essa angústia de não termos meios para auditar e verificar se houve impulsionamento, shadowban [penalidade de banimento da conta ou redução do alcance aplicada por plataformas digitais] ou outras formas de manipulação algorítmica.

Estamos falando de donos de plataformas que hoje são aliados explícitos de Donald Trump. E existe a possibilidade de interferências indiretas e camufladas nas eleições brasileiras. Isso é especialmente preocupante quando consideramos esse piso relativamente alto do bolsonarismo e o fato de que muitas escolhas eleitorais podem ser feitas na última hora, a partir de quem estiver vencendo a disputa pela atenção naquele momento.

Você pode ter uma decisão sobre os próximos quatro anos do país sendo tomada um, dois ou três dias antes da eleição, sob uma possível interferência que não conseguimos sequer verificar.

Minha impressão, ainda uma impressão anedótica, porque é muito difícil obter dados para pesquisar o Instagram, é que a plataforma está se tornando um ambiente de extremização. Isso é evidente no caso da misoginia. E, se acontece na misoginia, por que não aconteceria também na política eleitoral, onde há muito mais em jogo? 

Então, eu acho que eles vão fazer o que for preciso. Espero que não. Mas o que me angustia é que, se decidirem que a reeleição de Lula seria ruim para seus interesses, eles têm os meios para agir.

Você acha que existe um projeto de tornar os usuários mais dependentes da inteligência artificial, enquanto ela é vendida como uma solução para problemas criados pelas próprias plataformas? E como isso se relaciona com a falta de tempo, a precarização do trabalho e o cansaço que marcam a vida das pessoas hoje?

Sim, essa questão da aceleração temporal é a questão-chave para mim. Não é normal a gente viver nessa temporalidade. Essa é a temporalidade da máquina, não a temporalidade humana, nem a dos outros mamíferos ou animais, que é muito mais lenta.

Você imagina o que acontece com a nossa mente quando estamos em um ambiente que é percebido como uma crise permanente? Crises são normais, acontecem com a gente e com outros animais, mas deveriam ser temporárias. O paradoxo é que as plataformas nos colocaram numa temporalidade de crise contínua, que parece muito mais uma temporalidade de guerra do que de democracia.

As inteligências artificiais são mais uma torção, mais uma aceleração desse processo que já vinha sendo impulsionado pelos algoritmos. E eu fico pensando qual é o nosso limite mental enquanto Homo sapiens.

É aí que entra a questão do emburrecimento. As pessoas vivem numa temporalidade de dívida, no sentido de fazer cada vez mais apenas para permanecer no mesmo lugar. Não sei se você ou os ouvintes têm essa sensação, mas, de um ou dois anos para cá, isso parece ter piorado. Estamos sempre correndo atrás. Nunca estamos em sintonia com nossas expectativas ou com o mínimo necessário para viver em paz. Ninguém está em paz.

As inteligências artificiais reproduzem uma lógica típica dessa indústria e do próprio capitalismo: tiram com uma mão e entregam com a outra. Elas ajudam a produzir hiper aceleração, problemas de saúde mental, burnout e essa temporalidade da dívida, tanto em sentido metafísico quanto financeiro. Isso também pode ter efeitos na própria economia e na forma como as pessoas avaliam questões econômicas na hora de votar. Acho que ainda há muito a ser investigado nesse padrão que estamos observando.

Foi nesse contexto que formulei a hipótese do emburrecimento em uma coluna para a Carta Capital. Fiquei surpresa com a repercussão, porque percebi que muita gente estava observando a mesma coisa. Essa hipótese é plausível. Eu cito, por exemplo, declarações de Sam Altman, da OpenAI, que fala explicitamente da possibilidade de a inteligência artificial ser vendida como uma espécie de serviço essencial, como água ou energia elétrica. Esse é um dos cenários avaliados para tornar a indústria sustentável, já que ela cresce há anos sem encontrar um modelo de negócios sólido no longo prazo.

O emburrecimento ativo, mas indireto, aconteceria por meio do desaprendizado. Estamos chegando ao ponto de desaprender a fazer buscas no Google, porque a própria ferramenta está substituindo a busca tradicional pela IA. Estamos desaprendendo a escrever, pesquisar, buscar informações e, em última instância, a pensar.

Para essas empresas, isso pode ser uma solução sustentável: criar uma necessidade ao mesmo tempo em que destroem aquilo que já existia. De certa forma, foi o que outras plataformas fizeram. Uber, Airbnb, redes sociais e iFood surgiram em contextos em que já existiam alternativas no mundo pré-digital.

O lema do Vale do Silício era “move fast and break things” (“mova-se rápido e quebre as coisas”). Hoje, talvez precisássemos do contrário: mover-se devagar e consertar as coisas. Mas o que Sam Altman parece propor é justamente a substituição gradual de habilidades cognitivas básicas para depois vender essas capacidades de volta como serviço. Você passaria a pagar mensalmente para escrever uma petição, produzir um texto, realizar um trabalho criativo ou executar tarefas que antes conseguia fazer sozinho.

É por isso que considero a IA generativa de uso geral a mais preocupante. Diferentemente das aplicações especializadas, que podem ter utilidade concreta, essa IA voltada para o grande público atua justamente sobre capacidades humanas básicas. E a única forma de esse modelo se tornar realmente lucrativo é se a inteligência artificial começar a substituir habilidades que hoje pertencem às pessoas, transformando-as em algo pelo qual teremos de pagar para recuperar.

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